sábado, 3 de outubro de 2009

A delícia e a dor de ser sozinha


Joyci Dias é paulista de Americana. Tem 16 anos e nós nunca nos vimos pessoalmente. É amiga de minha filha pela Internet e um dia leu o que escrevo aqui no blog. Escolheu um conto; achou triste. Mas gostou.
Ela também escreve. Pedi a ela que mandasse textos e ela me enviou três. Escolhi este.
Joyci escreve com a idade que tem e, se o fizesse deiferente, seria caricata.
Mas fala de uma coisa que só gente grande entende: separação
E dá o recado!

A delícia e a dor de ser sozinha

É delicioso estar sozinho. Na primeira noite, você sai... Enche a cara, volta sozinha no carro sem ninguém pra te encher o saco ouvindo aquela música de solteirice aguda no volume mais alto e cantando, como se a solteirice fosse a melhor coisa do mundo.

No outro dia, você amanhece com o gosto amargo na boca e o despertador tocando, sua cabeça está explodindo e não, ninguém vai lhe trazer um café quentinho.

Você tira a venda dos olhos e o sol passa a te incomodar. Incomodaria também se ele estivesse ao seu lado, mas o despertador não estaria tocando, os raios de sol o teriam acordado primeiro, já que você sempre dorme com aquela venda perfumada de lavanda.

E você teria um abraço aconchegante de bom dia, aquele do encaixe perfeito que você sonhou tantas vezes na sua adolescência. Você se levantaria, correria para o banheiro da suíte e lavaria o rosto, pensaria duas vezes antes de pegar a escova no armarinho. Afinal, você sempre demora pra saber qual a dele e qual a sua. Mas isso não vai acontecer, já que só a sua estará ali.

Então, depois de uma ducha quente, você caminhará até a sala e não vai se deparar com ele sorrindo cinicamente, enquanto lê o caderno de esportes do jornal que vocês assinam, porque o seu time perdeu ontem. Você se arrumará muito bem para fingir que nada mudou, mas lá pelas 10 horas, no seu trabalho, ele não te convidará pra almoçar naquele restaurante bacana que vocês adoram. E você se lembrará do perfume dele.

Você vai almoçar no centro com as suas amigas para disfarçar a solidão, naquele restaurante com comida balanceada, porque afinal você não pode engordar ou elas acharão que você está deprimida porque seu relacionamento acabou. Só então você se recordará o quanto chocolate engorda.

Depois do almoço, seu chefe vai pedir para você fazer hora extra e você aceitará, já que não tem bons motivos para chegar em casa mais cedo, a tempo de ver a novela mexicana.

Ao fim do expediente, ele não terá te ligado para saber os motivos de tamanha demora, e quando pegar o carro com o “Jão”, do estacionamento da empresa, você não ficará brava com ele se ele te cantar. Afinal, você não usa mais aliança e seu ego precisa e merece ser enaltecido.

A caminho de casa a música de vocês tocará na rádio e você buzinará pra não chorar. E quando o sinal ficar vermelho, você não terá nada além do freio de mão para descansar a sua. Não, a coxa dele, macia e aconchegante não ficou de brinde.

Quando chegar na garagem do seu prédio, a vaga que costumava estar ocupada pelo carro dele estará com uma placa de ‘aluga-se’ que você mesma pediu para que colocassem, e que depois de uns dias estará ocupada por um carro que não o dele.

Nos primeiros dias você optará por subir as escadas. Caso alguém pergunte, é porque você não tem mais tempo para a academia que você nunca fez. Mas você, só você e ele sabem que é porque quando o elevador começar a subir, e você sentir aquele calafrio de medo que sente desde pequena, não terá mais a mão dele para apertar.

Destrancará a porta da sala e a única luz acesa será a da secretária eletrônica; uma esperança. Que logo é perdida quando a voz ouvida é a da gerente do seu banco.

Não terá comida congelada na geladeira; ele não comprou. Você vai pro quarto, assistir a novela mexicana que você ama e ele odeia, chora na parte que os mocinhos brigam e se coloca no lugar dela. E começa a devorar um livro sobre astrologia, e ninguém pedirá para ‘parar com essa bobagem’, nem para apagar a luz.

Então, você decide tomar banho, a meia-noite pra ver se alguém implica e nada! Depois do banho, sai descalça, porque o chinelo velho dele pro seu pé cansado não estava lá. Você milagrosamente sorri, porque recebeu uma mensagem no celular e seu cérebro logo acusou: É dele! Mas, é só a sua operadora constatando a nova promoção do dia dos namorados. Droga!

Você veste a última e única camisa velha que ficou no ninho, pra sentir o cheiro dele, e coloca sua venda, não sem antes colocar mais uma vez o celular para despertar.

Cobre o corpo todo, mas a alma permanece fria. Você rolará a noite toda na cama inteira, sem esbarrar nele ou ao menos ouvi-lo pedir para que sossegue.

Estar sozinha é resumidamente não ter.
Você não terá dor de cabeça e nem de quem sentir ciúmes. Você não vai ter quem te ligue durante a noite precisando ouvir sua voz. Não vai ter que se preocupar com ninguém, mas não terá quem se preocupe com você. Não vai ter quem puxe seu cobertor durante a noite, nem quem te cubra quando você se descobrir feito criança. Não vai ter com quem falar como bebê, sem parecer idiota, tampouco quem fará piadas de duplo sentido sem estar te desrespeitando. Você não vai ter com quem dividir seus medos sem parecer uma criança boba.

Não, não vai ter.

3 comentários:

  1. Tiaaaaaaaaaaaa!! A Fabi deixou que te chamasse assim, caso fique brava... puxe a orelha dela, viu??
    Nossa, muito obrigada. Esse é um dos meus textos favoritos, até dentre os que eu te enviei. Eu realmente fiquei muito feliz com a homenagem. Saiba que eu gosto muitíssimo da sua filha Fabi e ela fala muito bem de você, tanto que dá vontade de correr pro abraço das duas.
    Quero que saibam que vocês não me conhecem pessoalmente, mas um dia vão conhecer. Caso venham pra cá.. Tem espaço na casa e no coração.

    Um beijo enooorme e mais uma vez, meu muito obrigada!

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  2. Olivia Maia7/10/09 17:47

    Que menina de idade pouca e palavras muitassss.... parabéns Joyce! Vá em frente o caminho literário é lindo.

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  3. Parabéns memso, JoYci e Cínthia pela iniciativa! Amei!

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