terça-feira, 20 de outubro de 2009

Monólogos em desencontro


Olhou para as unhas esmaltadas mais uma vez. Em seguida, colocou na palma fina da mão um pouco do creme que mantinha sobre a cômoda, concentrando-se na tarefa de esparramá-lo. Enquanto esfregava os dedos longos, tentava se lembrar onde havia deixado o anel.
– Pronta? – perguntou-lhe Ernesto.
– Quase. Viu o meu anel?
– Em cima da pia do banheiro.
O anel de rubi, herdado da avó, era o predileto de Clarice. O vermelho escuro da pedra, em contraste com sua pele branca, parecia uma gota de sangue sobre a neve. Tem personalidade, pensou, admirando, mais uma vez, a joia.
– Clarice, você ainda não está pronta? – perguntou-lhe novamente o marido, dessa vez, impaciente.
Sem lhe dar resposta, ela fechou-se no closet, temendo que Ernesto percebesse em seu rosto o desprezo que sentia por ele.
Não, não tinha sido assim desde o começo. Conheceram-se jovens. E aos jovens é permitido sonhar futuros. A vida apostara neles uma pule de dez, mas não lhes dera alertas de que seria na arena do presente que as disputas se dariam.
Amavam-se... amaram-se...Essa dúvida não a deixava apaziguar os sentimentos. Precisava saber, ter certeza de que tudo já se transformara em nada.
Interrompeu os pensamentos quando percebeu que não conseguia alcançar sozinha o fecho do vestido. Mexeu levemente no cabelo, ajeitou as alças do sapato e pegou a pequena carteira de cetim que estava em uma das prateleiras.
– Fecha para mim? – pediu ao marido.
As mãos dele sobre as suas costas provocaram-lhe um pequeno arrepio. Virou-se suavemente, a tempo de perceber que a sensualidade do momento era um engano só seu. Ernesto, cenho franzido pela irritação do atraso, conferia o relógio como se pudesse fazê-lo reter a hora.
Havia uma festa esperando por eles. Ernesto tinha fechado ótimos negócios para a empresa e os sócios estavam lhe prestando uma homenagem. Como a homenagem do ano anterior, por causa dos lucros que depositara em suas contas. Ou a de dois anos antes, quando Ernesto abrira três filiais na Europa. Ernesto, Ernesto, Ernesto!
Havia uma festa esperando por Ernesto. E por ela? Impecável, perfumada, sorridente, invejada, ela era apenas a mulher de Ernesto. Onde está Clarice? – cantarolava uma vozinha zombeteira em seus ouvidos. – Clarice foi embora...
– Esqueci a minha estola – disse, voltando ao closet.
Sempre a mesma coisa. Uma estola, um brinco, um espelhinho de bolsa, uma desculpa qualquer. O suficiente para que engolisse sem água e ligeiramente o ‘comprimido da alegria’, como ela se referia ao calmante.
No carro, sem se falarem, como era habitual, Clarice pensava em quando fora, afinal, a última vez que tinham se amado. Faziam sexo regularmente, talvez três ou quatro vezes por semana. Mas ela queria amar.
Em breve, chegariam à casa dos amigos, e aí sim ele conversaria com ela. Falariam de viagens, do carro novo que ele lhe presenteara, da caixa umedecedora repleta de Davidoffs que recebera da filial da República Dominicana, dos planos para as festas de fim de ano. Depois, num instante em que ela estivesse distraída, ele fugiria para uma roda de homens, na biblioteca ou em volta da piscina, e ali retiraria a máscara para falar de negócios.
Onde está Ernesto? – a vozinha voltava, atrevida. – Ernesto foi embora... Segurando mais uma taça de champanha, a quinta desde que tinha chegado, Clarice afastou-se do grupo buliçoso.
Do outro lado da sala imensa, subiu disfarçadamente a escada para o andar superior, onde sabia que uma sacada fresca e quieta estaria aberta. De lá, podia ver Ernesto conversando com os sócios no jardim. Ele sorria e contava alguma coisa que prendia a atenção de todos. Como acontecia entre ela e ele quando ainda confiavam um no outro.
Faz quantos anos que Ernesto não conversa comigo? – pensou. – Que não pede a minha opinião para nenhum assunto sério?
Um ardor em sua mão obrigou-a a voltar os olhos para o corte provocado pela taça que se havia quebrado entre os seus dedos. Que se dane você, Ernesto! – sentenciou, enquanto procurava um banheiro para cuidar do ferimento.
Naquela noite, em casa, Ernesto lhe disse que ainda tinha trabalho a fazer e retirou-se para o escritório instalado no térreo. No quarto, sonolenta, Clarice pensou que talvez já tivesse passado da hora de separar-se dele. Estava farta do provedor que a presenteava com joias cada vez mais caras – dadas somente em ocasiões convencionais –, que a comprava com cartões de crédito ilimitados, que lhe dava sexo sem fantasias, sem amor, sem sentido. Ela o odiava. Tinha nojo dele. Queria ser cortejada, queria receber um presente roubado do jardim, queria ganhar um abraço apertado.
Amanhã...amanhã eu me livro disso tudo – pensou, entregando-se ao sono.
Ernesto desligou o computador, apagou a luz, mas não saiu do escritório. Preparou e acendeu um charuto, deixando que o cheiro forte do tabaco o impregnasse. No minibar, serviu-se de uma dose de uísque sem gelo, sentando-se em seguida na grande cadeira de espaldar alto que ficava próxima à janela.
Clarice já devia estar dormindo. Não era preciso mais que uma dose para garantir que não a encontraria acordada. E ele poderia dormir sem ter vontade de tocá-la.
Toda noite, esperava que ela lhe dissesse alguma coisa. Que lhe perguntasse sobre o seu trabalho, que conversasse sobre política, ecologia, música, qualquer tema! Esperava que ela lhe pedisse um beijo, que se encostasse nele para dormir.
Estava cansado de Clarice. Dos seus silêncios repletos de frases retidas. Estava farto das acusações que lia em seus olhos, do desprezo que ela lhe entregava em cada gesto ou fingimento. Antes, não era assim entre eles.
Os anos consumiram a Clarice que ele amava. Ou tinha amado. A Clarice que ria sem conveniência, que dizia o que pensava, que chorava de alegria. Os cabelos curtos e as roupas recatadas daquela mulher que se deitava agora ao seu lado não pertenciam à jovem decidida que o arrancava dos estudos para fazer amor com ele até a exaustão.
Mas teriam sido mesmo os anos? Ele também se sentia diferente. Sem paciência, irritadiço, confuso, entediado. A gente muda mesmo sem vontade – disse a si mesmo.
Tinha se conformado com a distância entre Clarice e ele. Imaginava que, com o tempo, as coisas voltariam a ser como antes. Não voltaram.
Nem percebeu quando a distância entre a vontade e a possibilidade ficou maior que o pulo que suas pernas conseguiriam dar para saltar tanto abismo. Havia, nesse abismo, os comprimidos que Clarice escondia dele no closet, as taças de champanha sempre cheias, os arrepios de repulsa que o corpo dela fabricava a um simples toque das mãos dele. E havia uma ausência arrasadora.
O único sinal de que ainda existia uma Clarice real por trás daquela mulher de cera era o anel de rubi que a avó lhe dera ainda mocinha, e que ela nunca deixava de usar. Um lugar para onde ir, para onde voltar.
Ernesto recostou-se na cadeira, como se o abraço do objeto pudesse compensá-lo por tanta solidão. Sentia-se frágil pela falta de Clarice. Sentia-se esvaziado. Não lhe bastava mais o sexo que fazia nela, mas não com ela. Como não lhe bastava separar-se dela para deixar de sofrer. Clarice era o lugar para onde ele queria voltar.
Amanhã...amanhã eu dou um jeito nisso tudo, decidiu, adormecendo ali mesmo.

Um comentário:

  1. Tia li esse conto pensando em como é engraçada a vida, tive a nítida sensação de ter vivido tudo o que a Clarice viveu e agora me pergunto será que ele não viveu tudo o que Ernesto viveu? Tarde demais para pensar nisso, amei o conto.

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