sábado, 21 de novembro de 2009

Casinha

Abriu a janela com cortina de babados e um ar bem quente entrou no quarto.
Esticou o lençol, arrumou a cama, alisou uma dobra no tapetinho roxo e verde. Depois, escolheu pasta de dentes nova no banheiro, uma com cheiro e gosto de framboesa. Lavou o rosto com água fria, antes de entrar no banho, para sentir o choque do dia sobre a pele.
Comeu uma fatia de rosca fresca, trazida ainda pela manhã. E um copo de leite que lhe deu bigodes brancos.
Varreu, limpou, lavou, passou. Enquanto o cheiro de carne assada se insinuava janela a fora.
Varreu, limpou, lavou, guardou. A louça e as panelas.
Dividiu em dois montes a roupa de toda a casa. A limpa para encontrar o ferro. A suja para mergulhar na água. E foi buscar agulha e bastidor, onde uma borboleta inacabada precisava voar.
Quando o relógio de carrilhão ecoou seis batidas, a borboleta já mexia as asas.
Colocou sobre a mesa uma toalha de lacinhos, xícara, pires, colherzinha. Ajeitou a rosca da manhã, retirou as formigas do açucareiro.
O cheiro de café fresco impregnou a casa. E o leite espesso transbordou sobre o fogão uma espuma gozosa.
Retirou-se escada acima. Deixou que a água quente de outro banho lhe tomasse o corpo todo. Antes que a escova se perdesse entre dentes e gengivas, provou a pasta de framboesa com a ponta da língua.
Dobrou a colcha colorida quatro vezes, em oito partes. E a colocou sobre a poltrona cor de marfim.
Virou a ponta do lençol e descalçou os sapatos sem salto. Lembrou-se da janela aberta e, na ponta dos pés, foi fechá-la.
Por trás da cortina de babados encontrou os olhos da menina espiando lá dentro.
— Amanhã cedo trago mais rosca fresca.
— E linhas de bordar. Roxas e verdes.
— Vou mudar sua casinha para outro canto...
— Outra vez? Os terremotos tiram tudo do lugar! Da última vez, me machuquei!
Ganhou o colo da menina pelo telhado arrancado. E um beijo. E um pedido de desculpas.
A borboleta verde e roxa voou.


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