quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Dor de alma

Google Imagens: óleo s/ tela de Guilherme de Faria, 60x80cm. Coleção particular, São Paulo.





Dor de alma devia poder ser curada com remédio de mãe.
— Tá doendo?
— Hum, hum.
— Quer que sopre?
— Hum, hum.
— Pronto! Passou?
— Falta um beijo...
E estaria tudo bem depois do beijo.
Mas dor de alma é enjoada. É uma dor espírito de porco. Quanto mais a gente geme, quanto mais a gente chora, quanto mais a gente encolhe, mais ela avança.
Precisa ser gente grande para aguentar dor de alma.
Gente grande com idade pequena, por exemplo, tem demais.
— Mãe, dá um pão.
— Tem pão não menino, se aquiete!
— Mas tô com fome!
— Bebe um tiquinho disto aqui, ó, que a fome passa.
Já gente grande com idade velha tem mania de esconder dor de alma de todo o mundo. Chamam isso de decência ou de orgulho. Deveriam chamar de bem-feito! Dor de alma é exibida, sempre querendo aparecer.
Conheço gente grande que sente dor de alma sorrindo; brinca, se distrai, disfarça. É gente gigante.
— Está triste?
— Nada!
— Mas está chorando...
— É gripe.
Dor de alma é coisa de gente grande forte. Engraçado é que tem gente que jura o contrário.
Existe dor de alma antiga, velha conhecida. Tão antiga e tão conhecida que permite barganha e chantagem. Tem dor de alma de tanto tipo... Passageira, furiosa, debochada, suicida, assassina. Quase todas previsíveis, mas inevitáveis.
Por isso mesmo é que a pior dor de alma é a inesperada, que vem sem culpas, sem indícios. Chega do nada e deixa a gente repetindo que não merecia.
—Morreu?! Morreu como? Acidente? Que brincadeira é essa? Ele estava aqui comigo uma hora atrás!
Dor de alma é náusea que não vira vômito. Quando vira, deixa de doer. Ou deixa de ser alma.

Um comentário:

  1. Ai, doeu na alma...
    mas ainda assim, foi um texto delicioso de se ler.

    Bjo!

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