sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Tudo é tão simples

Foto: Google Imagens

Recreio é a melhor coisa do mundo. Era essa a opinião das professoras e dos pirralhos que saíam em atropelo para o parquinho colorido. Mestras e aprendizes achavam a meia hora curta demais, mas cada qual pelo seu motivo.
Em poucos segundos, dezenas de cabeças loiras, castanhas, encaracoladas ou em rabos de cavalo se agitavam no gramado, como bandeirolas enlouquecidas pela ventania. Lanches apressadamente devorados, brincadeiras, gargalhadas e joelhos ralados consumiam cada segundo do intervalo. Misturava-se a isso um ou outro choro, ocasionado por uma briga boba ou um puxão de cabelos. Nada que um beijo e um sopro não pudessem curar.
Tia Berna, como as crianças a chamam, ocupava-se em observar os folguedos diários. Usava os ouvidos e olhos atentos para perceber a mais leve mudança no ambiente. E o coração de manteiga para resolver disputas e discussões acaloradas. Rotina, pura rotina.
Será mesmo? Mas, então, o que faziam aqueles três pequenos conversando com grande seriedade ao lado das gangorras? Conversa no recreio? — desconcertou-se ela, sabendo que não poderia chegar muito perto sem ser intrometida. Mais tarde, vou dar um jeito de saber do que se trata — disse a si mesma, preocupada.
Do outro lado do parquinho, dois meninos e uma menina de seis anos não se davam conta de que eram motivo de interesse.
— Você tem quantos pais, Rafa? — perguntou Paulinho.
— Ué, um só! Todo o mundo só tem um pai, seu prego! — respondeu o menino.
— Ah, é? A Marcelinha tem dois.
— Sinistro! A mãe dela tem dois maridos? — interessou-se Rafa.
— Não. Ela não tem mãe. Só tem dois pais — respondeu Paulinho, avivando ainda mais a curiosidade do outro.
Juliana, que até então só escutava, engordou a informação.
— E os dois pais moram na mesma casa.
— Como é que você sabe? — perguntou Rafa.
— Porque eu já fui lá brincar com ela e também porque a minha mãe e o meu pai são amigos dos pais dela — disse a menina, num só fôlego.
— Mas quem é o pai de verdade? — insistiu ele.
— Os dois! — disse a menina, impaciente — Minha mãe disse que eles são um casal romo... romo...romossequissual.
— O que é isso? — perguntou Paulinho.
— É quando tem dois homens que namoram — continuou a menina, feliz por saber mais do que eles — Ou então duas mulheres. E eles se casam se eles quiserem.
Rafa e Paulinho queriam mais detalhes.
— E quem é que dá banho nela? — perguntou o primeiro.
— Não sei...
— E se ela ficar doente? Quem cuida dela? — emendou o outro.
— Os dois, por quê? O seu pai e a sua mãe não cuidam de você?
— E quem é que faz dever de casa com ela? — Rafa quis saber.
— Tanto faz!
— Se ela tem dois pais, os avós dela também são dois homens? — perguntou Paulinho.
Na sala, de volta do recreio, os três cercaram Marcelinha, dando continuidade ao interrogatório. Tia Berna, percebendo-lhes a curiosidade, resolveu que era chegada a hora de falar mais abertamente sobre o assunto, mas temendo a reação de alguns pais conservadores, optou por uma metáfora que lhe desse o ponto de partida para futuras conversas.
— Hoje, eu vou falar a vocês sobre as famílias que existem na natureza.
Apontando para uma mangueira antiga que se podia ver da janela da sala, perguntou:
— Olhem para aquela árvore e me respondam: é macho ou fêmea?
Percebendo, pela agitação da turma, que sua pergunta atingira o objetivo, acrescentou:
— Não importa, não é mesmo? O que importa é que a árvore é nossa amiga. Ela purifica o ar que respiramos, nos dá frutas muito gostosas e uma sombra refrescante. A amiga árvore tem uma família diferente da nossa, mas é boa e importante para as nossas vidas.
E desandou, em seguida, a falar das famílias de galinhas e galos, bois e vacas, golfinhos e macacos, chegando, finalmente, às espécies como as minhocas e os caracóis, que possuíam dois sexos.
— As nossas amigas minhocas e os nossos amigos caracóis também pertencem a uma família diferente: eles são macho e fêmea ao mesmo tempo, e vivem para nos ajudar a limpar a natureza.
Satisfeita com a aula dada, encerrou por ali mesmo o tema, cumprimentando-se pela sagacidade da abordagem.
Dois dias depois, Marcelinha entregou aos colegas de turma e aos de outras salas um convite para a sua festa de aniversário, no fim de semana. A promessa de que haveria palhaços, malabaristas, maquiladores e uma companhia de teatro infantil deixou as crianças em polvorosa. Excitados pela novidade, Juliana, Rafael e Paulinho esqueceram-se logo das conversas iniciadas no parquinho.
No sábado à tarde, pais, crianças e alguns professores começaram a chegar à casa imensa no condomínio de luxo onde morava Marcelinha. A decoração em shreks tomava conta do salão de festas e dos jardins, onde tendas de circo, camas elásticas de pouca altura e uma piscina de bolas estavam montadas. Carrinhos de sorvete, algodão doce, pipoca e cachorro-quente se esparramavam por todo canto, levando a todos os narizes um cheiro misturado de coisas gostosas.
Marcelinha estava vestida de Fiona e o rostinho maquilado de verde mostrava que a menina preferia a personagem em sua versão ogro. Os dois pais, orgulhosos, usando camisetas estampadas com a foto da menina, recebiam a família e os convidados também com seus rostos pintados de verde. Uma equipe de filmagem e dois fotógrafos cuidavam para que todos fossem registrados.
Por volta das cinco da tarde, chegaram Juliana e seus pais. O casal era amigo dos pais de Marcelinha há anos, e sabia do caminho penoso que os dois tinham passado para conseguir ficar com a menina. Não fosse sua excelente situação financeira, e o fato de ambos serem advogados, o juiz não lhes teria permitido a adoção da “princesinha”, como chamavam a menina que corria feliz por entre os convidados. Sentaram-se com os pais de Paulinho e de Rafael, a quem também conheciam havia alguns anos, em virtude da amizade entre seus filhos.
— Que casa ótima, hein? — puxou conversa o pai de Rafael.
— Muito boa mesmo. — respondeu a mãe de Juliana — Tanto a construção original, quanto a reforma que fizeram há dois anos, depois que conseguiram adotar a Marcela.
— A menina é adotada? — interessou-se a mãe de Paulinho.
Continuaram, por algum tempo, a falar sobre a pequena, até que a mãe de Rafael perguntou:
— A mãe dela morreu ou abandonou a pobrezinha? Dá uma pena, não dá?
Nesse momento, antes que os pais de Juliana pudessem responder, espantados por não terem percebido a ignorância dos dois casais em relação aos donos da casa, ouviu-se a voz de Rafael, que, acompanhado por um bando de crianças, escutava a conversa dos adultos:
— A Marcelinha não tem mãe não. Ela tem dois pais.
Em silêncio, os casais se entreolharam. O suficiente para abrir espaço ao comentário predileto de Juliana:
— É que eles são um casal romossequissual, sabe tia?
Então, a voz de Bruno, um menino de outra turma que estava no meio deles, se fez ouvir, animada e estridente:
— Jura? Que massa! Eles são que nem as minhas mães!
— E que nem os caracóis — emendou Rafael.
— E as minhocas — finalizou Paulinho.

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