sábado, 7 de novembro de 2009

Mulheres que tomam cerveja

Gosto de cerveja. E de chope. E de mais nada que contenha álcool. Por muito tempo, hesitei em declarar assim, tão textualmente, uma verdade tão simples. Em primeiro lugar, porque as moças de família da minha época bebiam sem fazer alarde. Ninguém saía para beber. Bebia-se socialmente. Fosse ou não fosse. Ninguém se sentava para beber com o pai, ou com a mãe, por exemplo. Respeito, dirão uns. Hipocrisia, afirmarão outros. Sei lá!
Em segundo lugar, porque não era e continua não sendo elegante, ou chique, ou politicamente correto uma mulher dizer que gosta de beber. Que dirá beber cerveja! Ou chope.
Meu pai era um bebedor elegante. De cerveja e de chope. Pedia copo pequeno, para não esquentar a cerveja, e virava o copo na medida certa para fazer dois dedinhos de espuma, mas sem derrubar na mesa. Exigia colarinho no chope, ou “creme”, como falava, e explicava que era para manter a pressão, o gás. Quando jovem, no Rio de Janeiro, passava, vira e mexe, no Bar Luiz,na Rua da Carioca, famoso para os connaisseurs, e pedia dois ou três chopinhos. No balcão. Depois, ia embora, porque “a gente bebe para saborear, não para cair ou dar vexame”. Aprendi com ele que porre é coisa “para principiantes”, ávidos, estabanados. Aprendi e fiz disso uma regra que me permitiu estabelecer meus próprios limites.
Mas meu pai era homem.
Quando eu tinha 20, 21 anos, e voltava da rua, nos fins de semana, por volta de duas da manhã, eu o encontrava sentado na sala, assistindo às lutas de boxe que passavam todo sábado. Esperava apenas que eu fechasse a porta e dizia: “Uma última cervejinha?” E era uma só mesmo, enquanto a luta corria solta. Resultado: gosto de ambos, cerveja e boxe.
Mas eu sou mulher. E mulher que bebe cerveja não é elegante. Nem na beira da praia, nem no Planalto Central, quando os 32º de seca fazem a gente sentir terra na língua. Mulher, aliás, “nem devia beber”, afirmam os experts em etiqueta. Ou devia, no máximo, tomar um ou dos drinques, e fazer cara de Ai, por que foi que eu bebi?.
O problema é que, hoje em dia, se o sujeito diz que gosta de beber, é tachado de alcoólatra. Não tem perdão. E como alcoolismo virou sinônimo de quantidade, quem bebe cerveja é mais alcoólatra do que os outros. Simples assim.
Será?
Vejamos. A cerveja tem 4% de teor alcoólico, os vinhos, em torno de 10%, vodca, cachaça, uísque, entre 38 e 40%. Ah, já ia me esquecendo! Os licores, aqueles inofensivos aperitivos ou digestivos preferidos pelas damas sensatas, possuem em torno de 40%.
Fizeram as contas? Não? Eu faço! Licor tem 10x mais teor alcoólico que cerveja. Whisky e vodca têm 10x mais teor alcoólico que cerveja. Vinho tem 2,5x mais teor alcoólico que cerveja. E uma informação extra: destilados (como a pinga, o whisky e a vodca) são muito mais prejudiciais à saúde do que os fermentados, categoria em que estão apenas o vinho, a cerveja e o chope. Puxa! Que pena que tomar cerveja e chope não seja elegante!
Nas festas requintadas só se se servem vinhos, espumantes, coquetéis (socorro!) e whisky. Este último, espera-se que o tomem somente os homens. E algumas mulheres... como direi...independentes (considere-se, nessa categoria, as que não têm marido, noivo ou namorado, as empresárias bem sucedidas – preferencialmente –, e as mulheres acima dos 35, porque “já sabem o que querem” e ninguém vai chamá-las de alcoólatras, apenas de “audaciosas”). Cerveja, nem pensar! É coisa de gente brega (ainda é assim que se diz?). “Dá barriga”, diz um. “Incha”, diz outro. Mulheres bebendo cerveja em recepções ou festas? Nem pensar! Percebem que a cerveja não resiste aos mesmos critérios do whisky? É que importado é importado.
Numa festa, há alguns anos, uma amiga que esqueceu seus próprios dias de juventude, quando sentávamos, sexta à noite, ou fim de tarde de domingo para uns chopinhos gelados, me deu uma bronca: “Como é que você ainda bebe isso? Que coisa desagradável! Passa uma imagem ruim!". Epa, que da imagem cuido eu, por força da profissão que escolhi e da educação que recebi!
A sogra de um político com quem trabalhei, mulher distinta e de família tradicional, adorava cerveja, que era a única bebida que consumia. Nas reuniões em casas de amigos, em fazendas onde havia churrascos, em cocktail-parties onde nos encontrávamos – eu, às vezes, a trabalho; ela, sempre socialmente – eu a ouvia pedir “uma cerveja bem gelada”. E ninguém se assustava com aquela piauiense atrevida. Era uma mulher de sociedade, importante. Sogra de um político também importante (importado e importante são sempre elegantes). Dela escutei uma frase que nunca esqueci: “Gosto de você, minha filha. Gosto de mulheres que não escondem do que gostam. E que não se preocupam com o que os outros querem que elas gostem”.
Não vou me transformar numa dessas mulheres que não bebem nada. Ou que pedem uma taça de vinho, para “molhar os lábios”, ou que exigem champanha, para mostrar que caro é melhor. Detesto vinho. Whisky me deixa tonta. Vodca me dá enjoo. Eu bebo mesmo é cerveja e chope.
Mas devo confessar (tenho percebido que adoro confessar coisas...) que depois de longos anos de preconceito (deles) e de insistência (minha), passei a concordar com a ideia de que as mulheres que tomam vinhos, licores, coquetéis são mais elegantes, femininas, centradas. As que tomam cerveja e chope são mais falantes, impetuosas, determinadas, independentes. Coisas inaceitáveis em mulheres que desejam ser elegantes!
Como disse, eu tomo mesmo é cerveja ou chope.
Faz tempo que parei de dividir o mundo entre o que os homens podem e o que as mulheres devem. Entre o que devo e o que gosto.
Faz tempo que não sou elegante.

2 comentários:

  1. Cínthia, quero discordar de duas coisas:

    1) Que você não é elegante faz tempo.
    2) Que 'mulheres que tomam vinhos, licores, coquetéis são mais elegantes, femininas, centradas. As que tomam cerveja e chope são mais falantes, impetuosas, determinadas, independentes.'

    Acho que a elegância tem muito a ver com naturalidade e autenticidade, com fazer as coisas obedecendo a desejos e vontades íntimas, sem preocupação de ser ou parecer o que não se é. A pessoa pode ser elegante até falando palavrão, quando isso lhe cai bem, não é forçado. Há gente que é vulgar declamando um poema ou fazendo um elogio (porque é falso). Você é elegante, sensual e feminina, mesmo falando alto e sendo espalhafatosa, porque isso lhe é tão espontâneo e verdadeiro!! E também, claro, porque está sempre bem vestida e perfumada! :-) (Isso ajuda bastante no quesito!)

    Ademais tomar um chope ou uma cervejinha nao tem a ver necessariamente com elegância, mas com diversão, prazer, com compartilhar histórias e às vezes com riso solto, piadas sujas e com falar alto. Se isso não é elegante, who cares? Quer algo mais chato do que ser elegante o tempo todo?

    Quanto à determinaçao, independência, isso tem a ver com tantas outras coisas!... Conheço tomadoras de whisky e champagne chiquerésimas, elegantérrimas, altamente independentes, determinadas e bem sucedidas em suas vidas pessoais e profissionais. Também conheço pessoas abstêmias que são assim e outras que falam alto e falam besteiras e que tomam qualquer coisa, vinho ou chopp, tequila ou cerveja e, ainda sim, são femininas e determinadas, divertidas e sérias.

    De qualquer forma, sempre desconfio em pessoas que tem apenas um padrão, que agem sempre da mesma forma, como se fossem montadas ou produzidas.

    Acho que a gente é sempre tudo, de tudo um pouco, uma coisa a cada tempo, em determinada situação, contexto ou momento.
    Beijos, Ju.

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  2. Eu adorei o teu artigo, parabéns. Me identifiquei muito contigo, pois sou uma bebedoura de cerveja faz anos. Antigamente eu me importava com o que os outros pensavam, hoje em dia eu bebo sem culpa e me considero elegante, pois eu acho que elegância estão nas atitudes. Eu bebo e não falo besteiras nem dou vexame.
    Bjus,
    Lu

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