segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Quem diz o que quer...é tão feliz!

Tem gente que não aprende. Ou não entende. Chega na casa dos outros sem avisar, na hora do almoço, à noite, no meio do fim de semana — sábado, às nove da noite; domingo, após o almoço.
Minha mãe me ensinou (acho que vou escrever um livro com esse título) que não se vai à casa de ninguém sem antes telefonar e perguntar se a pessoa pode nos receber, e quando seria mais conveniente. Afora ser mais educado, evita confusões, e confusões desagradáveis.
Neste último sábado, vestida em roupa de “até que enfim é fim de semana” (prefiro não descrever a realidade dos meus trajes), pedi à locadora que me enviasse dois filmes. Havia muitos sábados que eu não conseguia me sentar para assistir a nada, e a perspectiva era muito agradável. Até que o interfone tocou.
Era a ex-esposa de um amigo meu. Estava triste, deprimida com a separação recente (?!), ocorrida 6 meses antes. Os fins de semana começaram a lhe parecer longos, a vontade de sair e conquistar o mundo sumiu, o choro deu para ser todo dia. Enfim, o caos!
Posso parecer insensível. Mas não sou. Não tenho nada contra dar colo e ombro a quem está sofrendo, mesmo que o meu conceito de “recente” seja bem menos dilatado, mas chegar na casa dos outros, na minha casa, sem avisar, num sábado às nove da noite?! Só se o caso fosse de vida ou morte. E não era.
Mas não parou por aí. Ah, não parou mesmo! Casa de Mãe Joana é assim mesmo, um entra e sai sem aviso ou permissão. Coisa que, se a gente conta, tem jeito de ficção, mas não é.
Por volta das 22 horas, o interfone, outra vez. "Quem é"? Meu amigo, o ex-marido, e a nova namorada. “Viemos tirar você de casa porque hoje é sábado e você está muito sumida!”. Respondi que já estava de camisola, mooorta de sono! Pensei em aumentar a tragédia dizendo que estava “até sem banho”, mas isso seria uma mentira tão...tão...suja, que me recusei a contá-la!
Eles insistiram. E subiram. Não havia como avisar ao casal que a ex-mulher estava lá. Esta, por sua vez, lançou-me um comentário ferino: “Quer dizer, então, que você é das tais que não tomam partido de ninguém, hein?”.
Que coisa sem graça! Não, não essa coisa ridícula de tomar partido. Sem graça é alguém que confunde solidariedade e amizade com tirania!
Sentados os quatro na sala, clima de velório, decidi que era hora de oferecer uma bebida, para ver se relaxávamos. Deu tudo errado.
Depois da primeira dose — umazinha só!— a ex do meu amigo começou a provocá-lo com insinuações indelicadas. A namorada fez de conta que não percebia e começou a conversar comigo sobre um de meus quadros, demonstrando grande conhecimento no assunto. Aí, a coisa virou-se para o meu lado. Tornei-me o inimigo!
“Você engordou mais ainda, hein?” foi, talvez, uma das frases mais leves que escutei. Relevei todas. Uma após a outra, pacientemente, sentindo-me cada vez mais amiga da nova namorada, que tentava me salvar dos ataques a cada momento (esperta!). Não deu.
Depois da terceira dose (agora entendo por que as pessoas falam tanto sobre a tal terceira dose!), a ex se levantou, arrumou o vestido, o cabelo, sentou-se ao meu lado no sofá e perguntou, bem alto: “Você já dormiu com o meu marido, não foi?”
Tenho pena de gente assim, louca. Tenho pena não de serem malucas, mas de gostarem de ser, de acharem bonito ser. Sei que o melhor a fazer é deixá-las falar e soltar as surucucus e os lagartos de Komodo que habitam o seu interior escuro e barraqueiro.
Mas era sábado à noite, meu dia de descansar de gente. Os dois filmes olhavam para mim dizendo: “Puxa! Nós temos histórias bem mais interessantes a contar”.
Foi assim que eu me decidi a ficar livre de todos eles, de uma vez só. E respondi:
“Dormi. Várias vezes. Quando foi que você descobriu?”
A porta da sala bateu forte. Três vezes.

3 comentários:

  1. (Rindo muito...). Você está cada dia melhor...ando adorando os textos (leitora assídua).
    Olivia Maia

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  2. Cinthia, que sacada, viu? Melhor resposta não havia. Livrou-se das três encrencas. Todos mereciam. kkkkk. Adorei.

    Beijos,

    Patrícia Goulart

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  3. Surreal!!
    Sou mais preservada. Confesso que teria barrado no interfone. Você foi muito gente boa!
    E o melhor (para nós, claro) é que o episódio singular ainda rendeu uma crônica hilária para puro deleite de seus fãs. (Agora me senti meio culpada de divertir-me com a desgraça alheia. Espero pelo menos que tenha conseguido resgatar seu fim de sábado depois!!)
    Bjs, Ju.

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