quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Asma



Foto: Google Imagens
Descobrir que se tem asma depois de adulto é uma coisa chata. Aliás, muito chata. Bom... ter asma deve ser ruim em qualquer idade, mas depois que a gente passa uma vida inteira respirando bem, essa “coisa” é, no mínimo, uma injustiça histórica.
Faz tempo que ando me ouvindo chiando como uma cobra sibilando, ou talvez fosse mais charmoso dizer "miando como uma gata". Mas não tem nada de charmoso em qualquer respiração entrecortada que não seja proveniente de prazer.
Primeiro, pensei que era uma gripe comum. Depois, alguma coisa alérgica. Uma tosse de cachorro, como se diz na minha terra. Mas o peito cheio, após uma semana, me alertou para o fato de que a minha “gripe” estava muito esquisita. A febrezinha inicial virou uma febre de 38,5 e o cansaço passou a se manifestar ao falar, ao rir, ao caminhar, ao tomar banho, enfim, ao fazer qualquer coisa. Estou morrendo! — pensei — Coração, com certeza! Choro, tristeza, novo choro. Cansaço por causa do choro. Hospital. Sim, inapelavelmente, hospital. Como? Asma?! Mas eu nunca tive asma! Agora tenho! Ou, para falar na linguagem bonitinha do médico plantonista (igualmente bonitinho): Tem uma chaleira apitando no seu pulmão e outra quando você fala. Que meigo! Sou uma chaleira! Redondinha e apitando!
Mas a asma é só um acontecimento que me obriga a ficar em casa, a repousar. Na verdade, é a carência revelada pelo desconforto da doença que me abala. Talvez, o climatério esteja contribuindo um pouco para tanto melindre. Talvez não. O fato é que estou com pena de mim! Cruzes! Estou me sentindo pequena, frágil, exposta, sem contentamento. Um caos.
O repouso forçado promoveu meu reencontro com uma vulnerabilidade que detesto! Sou eu nua, sou eu pedinte, sou eu debilitada! Como há séculos não me permito ser. Quero gente ao meu redor, mas não tenho. A filha está viajando. Os amigos, trabalhando. Para completar, hoje não é dia da diarista, o que me faz lembrar que nem um almoço tenho quem prepare (se já não sou boa de cozinha normalmente, doente é que não vou para o fogão!). Eu poderia ter pedido a ela que fizesse um dia extra, mas achei que seria muita condescendência comigo mesma. Peço comida para pronta entrega e tudo bem. Não preciso de dias extras da diarista. Eu sou forte.
Sou mesmo?!
Ai, Deus, não sou não! Que vontade de colo, que desejo de cafuné, que tentação de passar a mão no telefone e pedir a uma meia dúzia de gente que venha até aqui conversar comigo, me dar a mão, se sentar ao meu lado, falar bobagem, rir sem compromisso, ou me fazer uma canja de galinha..
A impossibilidade do ato — ou seria a minha incapacidade para o ato? — me conduz, mais uma vez, ao notebook, onde sacio, momentaneamente, este isolamento incômodo, fazendo amor com as teclas, me acertando com as palavras.
Mas logo me volta a sensação de abandono e solidão. E a certeza de que gente em carne e osso foi mesmo o momento mais inspirado do Criador.
Pessoas me fazem falta.

Um comentário:

  1. Lamento pela asma. Pelo menos, deu uma crônica bem-humorada e bem escrita!

    ResponderExcluir