quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Haiti

Foto: Daniel Morel/Agência France Presse


Tragédias são muito mais que o momento dos acontecimentos. São marcas e cicatrizes que ocupam o resto da vida. Doerão no corpo, na memória, na alma. Para sempre.
O terremoto que aterrorizou a cidade de Porto Príncipe, no Haiti, carregou no seu lastro de destruição mais de 100 mil vidas. Vidas de todas as idades, crenças e sonhos. O pai que era o sustento da família numerosa, a mãe querida e necessária, o filho de futuro promissor, o estudante que os amigos tentaram salvar. Na rua, mortos, feridos e ilesos, num cenário de horror. Mau cheiro, desassistência, estupefação.
Esse é o Haiti que ocupa, há três dias, todos os noticiários da mídia eletrônica, impressa e radiofônica.
A falta de infraestrutura do país, o nível de miséria que já existia antes do terremoto, e o estado de choque em que as pessoas se encontram só fazem agravar as consequências do desastre natural.
Não havia remédios até poucas horas atrás — quando conseguiu pousar o primeiro avião internacional com medicamentos —, as comunicações estão interrompidas, falta comida, falta notícia de familiares desaparecidos, falta dignidade na onda de saques que se vê por toda a cidade.
Porto Príncipe agoniza.
E por mais que a miséria do Nordeste, os mendigos de rua das grandes cidades, as crianças brasileiras famintas e abandonadas sejam tragédias cotidianas, silenciosas e cruéis como um câncer, vê-se no Haiti um pouco mais.
A miséria brasileira pode ser impedida. Conhecem-se suas causas. Sabe-se o que é preciso fazer. O Brasil padece é de sem-vergonhice, de corrupção, de insensatez e, acima de tudo, de falta de amor ao próximo.
O Haiti padece do inesperado.
Terremotos matam sem triagem ou qualificação. São algozes desumanos e implacáveis. Ricos, pobres, ladrões, honestos, doentes, sãos, mulheres, homens. Todos em brutal desvantagem.
Como eu disse, tragédias são sempre muito mais do que o instante em que tudo acontece.
A reconstrução de Porto Príncipe não será só de casas. Edifícios e casas são edificados com dinheiro, boa vontade, operários, máquinas. O mais difícil é reerguer os homens. O mais difícil é dar novo sentido ao amanhã.
O Haiti geme, sofre, precisa de todos nós. E enquanto estivermos lá, física ou moralmente, com nossos exércitos, recursos, conforto e solidariedade, eles serão consolados pela nossa preocupação e pelos nossos cuidados.
Mas, e depois? E depois que sanearmos, encontrarmos os mortos, cuidarmos dos feridos? E depois que voltarmos para casa? Quem vai cuidar da alma dos haitianos e retirar das suas vidas o medo do próximo terremoto? Quem vai lhes falar de esperança?
Só o que resiste às tragédias é a fé. Uma fé que agora desfila pelas ruas de Porto Príncipe de braços abertos e olhos fixos no céu, perguntando ao Criador o porquê de não terem sido protegidos por sua Infinita Sabedoria e Graça.
Tenho chorado todos os dias pelos haitianos. Deixo escorrer na face lágrimas quentes e tristes pela dor e pela impotência daqueles homens e mulheres cujo único lar tornou-se o asfalto negro como seus corpos abandonados. E percebo, como não percebia há muito tempo, o que significa sentir-me irmanada com alguém. Cada um deles é meu irmão, meu igual, minha responsabilidade, meu pedaço, minha carne.
O Haiti é minha humanidade.

2 comentários:

  1. Que intenso e sensível, Cínthia! Aliás, aproveitarei o ensejo para comentar que, a despeito de vc ter uma predileção já declarada por contos, eu amo suas crônicas! E amo quando fala das coisas da vida, assim, desse jeito.

    Voltando ao assunto em questão, o lamentável é que o Haiti é também a nossa desumanidade.

    Beijos, Ju.

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  2. Voltou ao rosa, hein?
    Acho linda a forma como vc resume o texto na última frase, sempre de grande impacto.

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