domingo, 14 de fevereiro de 2010

Desabafo candango

Façam-me um favor. Por gentileza. Parem vocês aí, nos seus estados, de dizer que a corrupção de Brasília é a maior do País.
Parem de dizer que somos nós os culpados por tudo o que acontece neste Brasil tão imenso.
Parem de insistir nesses clichês de que Brasília não tem esquinas, não tem atrativos, não tem calor humano e é a causa de todos os males da Nação. De que Brasília é a Ilha da Fantasia.
A minha vida não é de mentira. O meu trabalho diário não é uma farsa. A cidade para onde vim, aos 11 anos, e na qual cresci com qualidade de vida, educação exemplar, comida na mesa, céu de brigadeiro e amigos muito queridos não é a palmatória do mundo!
Minha filha, que nasceu aqui e tem hoje 20 anos, se diz brasiliense “com muito orgulho”. Por ela não posso, sequer, me dar o direito de ficar calada perante tanta desinformação sobre quem somos nós, os habitantes do Distrito Federal.
Por isso, como eu vinha dizendo, por favor, parem!
Brasília não é uma cidade sitiada por traficantes. Brasília não é uma cidade que quase não amanhece porque a poluição forma um cinturão negro no céu. Brasília não é uma cidade sem ética, sem moral, sem cidadania.
Pessoas são antiéticas ou íntegras. Pessoas são imorais ou decentes. Pessoas são egoístas ou solidárias; insensíveis ou calorosas; debochadas ou compreensivas; cínicas ou dispostas ao diálogo franco. Sejam daqui ou daí, onde vocês estão.
Brasília acolhe gente de todos os estados do País, e também do mundo. Gente com sotaques abertos, cantados, aspirados e que aqui se transformam, lentamente, numa comunhão de sangues e de culturas. Brasília é confluência.
Então, que dedo em riste é esse apontando para nós aqui, dizendo que não prestamos?! Cuidado! Brasília é plural. É Norte, Sul e Leste hospedados no Oeste.
Vocês sabiam que de todos os políticos que estão hoje na Esplanada dos Ministérios nenhum nasceu em Brasília?
Vocês já pararam para pensar que dos 513 deputados e dos 81 senadores instalados no Palácio do Congresso Nacional apenas 8 deputados e 3 senadores pertencem ao Distrito Federal?
Vocês já vieram aqui conferir que temos ecoturismo, que praticamos turismo cívico e que já vai bem longe o tempo em que Brasília era uma cidade fantasma nos feriados? — que o digam os 6 mil visitantes que fizeram a visitação guiada ao Congresso Nacional nos três dias de feriado do último 7 de Setembro!
Vocês têm informação de que o IDH – Índice de Desenvolvimento Humano – do Distrito Federal é de mais de 90%, e que esse percentual só acontece nos países de Primeiro Mundo?
Vocês estão cientes de que os nossos salários, que muita gente leviana acusa de serem “absurdamente altos”, estão diretamente ligados ao altíssimo custo de vida no Distrito Federal? Que o aluguel, o pão, a escola, o transporte urbano aqui são aproximadamente 20 a 30% mais caros que nos estados, o que acaba por consumir vorazmente - e mesmo percentualmente em maior proporção - o nosso salário?
Enfim, vocês querem mesmo olhar para 2 milhões de habitantes e dizer que o Distrito Federal só tem vagabundos e ladrões?
Em meu nome, de minha filha, dos meus amigos, dos meus colegas de trabalho e de todos os brasilienses eu peço a vocês, por favor, que pensem. Pensem antes de falar ou acusar a população do Distrito Federal por causa dos políticos.
Corrupção é mal brasileiro, não brasiliense.
Precisamos, todos, combater a doença. Onde ela estiver. Tenha o sotaque que tiver. Tenha o status que tiver.
E antes que eu me esqueça: tem gente ruim, sim, aqui no Distrito Federal! Morando, passeando, governando, explorando. Como tem gente ruim por este Brasil afora, morando, passeando, governando, explorando.
Mas tem tanta, tanta gente boa que só mesmo vindo aqui para conhecer de perto!
Somos de fácil acesso para um papo, uma discussão, uma simples informação. Gostamos de barzinho, de teatro, de música, de política, de trabalho, de alegria e de sossego.
Mas, acima de tudo, assim como vocês, gostamos de respeito e gentileza.

(E pensar que este texto, de tanto palavrório, aconteceu por causa do carnaval e da passagem pela avenida da escola paulistana Tom Maior, cujo tema foi Brasília. Alguém nos enxergou com gentileza... Obrigada, Tom Maior!)

3 comentários:

  1. Isso mesmo Cinthia, as pessoas esquecem que a maioria dos políticos são escolhidos por elas e como aqui é a Capital todos vem pra cá, as pessoas taxam nós que moramos em Brasília como pessoas corruptas, não sabem o dia dia de cada trabalhador. Também assisti o Tom Maior e agora vamos assistir a Beija Flor que também vem com o tema de Brasília. Beijos Martha

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  2. Olivia Maia15/2/10 11:13

    Cinthia e Paulo tenho uma crônica, também, sobre o assunto "Sou de Brasília e sou Honesta", feita após assistir um reporte mostrar um estudante de direito que assaltava postos de gasolina, onde finalizava dizendo: "tinha que ser de Brasília". Meu sangue ferveu pois aquele Senhor nunca tinha vista o que temos cá nesse maravilhoso Planalto. Pessoas maravilhosas honestas, íntegras e sobretudo sensíveis, onde a cultura permeia e vaza pelos poros. Que sentam no maior Sarau de céu aberto - um açougue cultura - para ouvir poesias, musicas, palestras, etc. Onde os poetas e escritores da cidade se deparam nos lançamentos de seus livros (normalmente em cafés, bares e restaureantes), com vendedores de flores barganhando a compra de um livro com o dinheiro apurado na vendagem de belas flores.......Me encanto... e canto... Brasília é linda e seu povo também.
    Olívia

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  3. Cínthia,
    como brasiliense - com orgulho, que sou, neta de servidores públicos que chegaram nesta terra quando o barro vermelho entranhava os calçados e a avenida W3 ainda crescia lenta e glamourosa; como cidadã nativa que viu a população de sua cidade se multiplicar, mas ainda assim continuar acolhendo quem aqui chega em busca de concretizar seus sonhos, sinto-me particularmente grata e feliz ao ler o seu texto.
    Que o que está ocorrendo e sendo mostrado aqui sirva de alerta para indicar o que deve estar acontecendo, na surdina, em muitos (muitos mesmo!) outros governos desse nosso imenso Brasil, cujo senso de ética, moral e justiça tanto ainda tem para evoluir.

    Beijos cheios de admiração, Juliana.

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