quinta-feira, 22 de abril de 2010

Bundas, peitos, pintos e cérebros

O título desta crônica chamou a sua atenção?
Então, o que o mundo quer é mesmo isso: palavrão, pornografia, niilismo, panfletagem! Falando francamente, sempre quis. É coisa antiga, velha mesmo. Romana, grega, americana, brasileira. Sexo vende. Palavrão encanta e excita. Negação é chique.
Eu, pobre de mim, me cansei disso faz tempo. Tanto tempo que pensei que só os jovens ainda escrevessem essas coisas. Que nada! Os coroas continuam firmes falando de bunda, peito e pinto. E de maconha, whisky, suicídio e sexo livre. Dá sempre público. Ah, é óbvio, e de política, base ou tempero para tudo isso.
Quem quer ler uma historinha besta, com personagens idiotas que não transam, não fumam, não bebem? Ora bolas, você, com certeza, não!
Qual é a graça de olhos que se encontram antes do toque? Qual é o tesão que tem a mulher que não se despe? Qual é o barato que dá um homem que bebe suco de abacaxi com hortelã?
Burrice, então, nem pensar. Engajamento, por favor, meu filho, minha filha! Politização, passeata, diretório e sandálias franciscanas (nada de modelitos mais modernos!). Cabelos grandes (de geração em geração...) e, de preferência, meio sujos. Casacos de couro permitidos se você for mais rebelde que protesto.
Pegue um cigarro de maconha (achei mais interessante começar por ele, para dar impacto e chamar a sua atenção), um copo de whisky ou de pinga — vai depender do seu status e de em qual nível da defesa do proletariado você esteja! —, um exemplar bem velho e mastigado de O Capital (desnecessário citar o autor) e coloque umas roupinhas bem baratas, o tipo não tenho grana. Em seguida, crie um personagem para enfiar dentro desse cenário e não se preocupe em rebuscar: bastam uma cara sempre fechada e sofredora, uma ruga de preocupação na testa, um olhar feroz e um discurso eterno de igualdade. Texto pronto.
Se ainda tiver ânimo, abandone o computador e escreva à mão, numa caligrafia difícil que demonstre falta de tempo, intensidade e mortificação. Depois disso, não cometa o erro de passar o texto adiante! Espere que descubram a sua obra! Bom...como isso pode demorar, lembre-se de soltar para os amigos próximos algumas frases do tipo: “Não é à toa que eu mesmo já escrevi sobre isso...”, ou ainda “Se eu morrer, pelo menos deixo registro dessa porcaria que andam fazendo por aí com o país”. E voilà!! Na mesma hora, ou pouco à frente, um, dois, alguns amigos lhe pedirão para ler. “Não sei... — mostre-se reticente —, não está completo...” Mas logo a seguir, sem dar tempo ao interlocutor de acreditar na sua humildade, finalize: “Bem, enfim, tudo é incompletude, sempre, não é?” (não esquente, a palavra existe). E arranque da gaveta ou da pastinha suja em sua mão o texto meio amassado, dê uma última olhada, suspire, faça cara de guerrilheiro urbano e entregue. Quando os muito bom!, os ótimo! e os caralho,véio! vierem, não sorria (mas, enfim, você já não sorri mesmo).
Atenção! Garanta que sejam os amigos, toujours les amis, que distribuam o seu texto. É receita de sucesso, garanto, sem falar que você não pode se rebaixar a sair por aí distribuindo o próprio escrito, pode?
Aí, vem a melhor parte. Uma espécie de campanha dos amigos para divulgar o seu texto e blindar qualquer outro que porventura apareça, sem bundas, peitos, pintos ou cérebros.
Se alguém reclamar que tem muito pênis sobrando na sua história, alguma relação anal mais audaciosamente descrita, ou talvez um momento em que o personagem principal mate alguém em nome da liberdade, você só tem que repetir o seguinte: “Tudo é metafórico! Na verdade, estão fodendo é o país, você não percebe?”. E veja como o sujeito ou a sujeita fica com cara de arrependimento, se achando um verdadeiro asno!
Decore também: uma transada simples = aproximação para reconhecimento; uma transada agressiva = está querendo controlar o eleitorado; uma relação anal = o povo já está completamente dominado e mal pago; sadomasoquismo = dominação consentida.
Tudo tem explicação por meio da política. Bundas, peitos e pintos. Já o seu cérebro privilegiado está destinado a atacar os burros, o desengajados, os mansos de espírito, os que escrevem sobre amor, solidão, miséria humana, saudade, céu, ou fazem humor, essas baboseiras de gente alienada.
Por fim, ressalvados os textos de suspense e ficção científica, que ainda estão no limbo aguardando que Suas Majestades os descolados escritores de tetas, glúteos e falos decidam se eles podem ou não se juntar aos inteligentes, sobrarão apenas os seus textos e os da sua turma, numa verdadeira ação entre amigos.
Ficou triste? Foi exilado do clube dos gênios? Quer companhia?

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