quarta-feira, 28 de abril de 2010

Lei e justiça

Num bairro de classe média alta, uma menina de dois anos é maltratada e alguém grava a voz de uma mulher que chama a criança de “cachorra” e de “vaca”. A acusada é uma procuradora. Tem advogado e tudo. A criança não pode aparecer na TV, preservada por algum estatuto. O advogado da ré pode. E defende sua cliente dizendo que ela "tem temperamento forte".
Numa delegacia de polícia, um jovem apanha e é torturado. Morre. É apenas um motoboy. Os policiais que o mataram não aparecem no noticiário. Apenas um comandante que os representa e uma carta que “sente muito”.
Em ambos os casos, pessoas atacadas por quem deveria, em princípio, protegê-los. E proteger a todos nós, sociedade. Mas que, ao contrário, se creem e se colocam acima da lei, ignoram a lei, debocham da lei.
Todos os dias, lemos e vivenciamos pelos jornais ou pessoalmente uma escalada de corrupção e violência que assusta o cidadão ordinário, aquele que trabalha para viver, faz contas todo dia, cria filhos que só vê pela manhã e à noite, compra carro á prestação e estuda à noite para melhorar de vida.
No entanto, neste caso, e contrariamente ao fluxo da preocupação linear, não é o fato que me constrange, mas sua origem. Não as consequências que vemos toda hora, aqui, ali e cá entre nós. Mas as causas, cuja profundidade estarrecedora e insondável não queremos alcançar. A loucura que passeia entre os círculos sociais mais diversos, disfarçada em respeitabilidade até que se fechem as portas do lar. A insanidade que converte, em grupo, a autoridade fardada, e incita as mãos à sanha da surra e da humilhação.
Mas ninguém fica doido da noite para o dia. Como tudo o mais que cerca o ser humano, a loucura é processo.
Então, falhamos em identificar a semente. Falhamos em impedir que a erva daninha ganhe forma e estatura. E falhamos não porque sejamos diretamente responsáveis pelos males do mundo. Mas porque somos cúmplices.
É o descaso pela porta ao lado que nos afasta de crianças sendo queimadas, seduzidas, escravizadas. É o desinteresse pelo ser humano que nos impede de ouvir os gritos dos rapazes que apanham, sofrem, morrem. Somos criaturas politicamente corretas, que não incomodam, não perguntam, não encaram, não gritam, não cobram. Somos criaturas que não fazem nada. Ou que apenas choram e se comovem. Momentaneamente.
No máximo, nos preocupamos com a corrupção e com a violência urbana, e cobramos do governo, do bispo e do papa alguma solução. Como se corrupção e violência fossem assuntos distantes de nós. A corrupção porque só é reconhecida quando acontece nas instituições. A violência porque só é percebida por nós nas casas pobres, das ruas pobres dos subúrbios, ou nos morros.
Está lá, no Houaiss, para quem quiser ler. Corrupção: depravação, desmoralização, devassidão. Traduzindo: ausência de moralidade, degradação moral, perversão.
Isso inclui a nós. Por participação, por ignorância, por omissão.
É a corrupção do povo, como diria um senador já falecido. Alguns, culpam os políticos e o governo pelos exemplos de falta de caráter e de impunidade. Outros, culpam pais e mães pela falta de educação e de base familiar. Já eu, culpo a mim mesma e ao ser humano em seu fraco livre arbítrio.
E me pergunto quantos mais ainda vão morrer ou sofrer abusos neste macabro (des) equilíbrio ecológico em que vivemos, onde força física e armamentos comandam destinos de crianças e jovens. Enquanto isso nós estaremos aqui, espectadores, isentos da culpa alheia, do crime alheio, da loucura alheia. Menos do nosso próprio silêncio.
Somos homens de muitas leis. Falta-nos justiça.

2 comentários:

  1. Olivia Maria Maia28/4/10 14:28

    Caramba! e você que dizia não ser cronista. Deduzo que quem é bom (boa)... é em qualguer "gênero literário", você é uma prova da minha dedução. Muito boa sua crônica (tens que começar a mandar para redação de jornais...quem sabe se em breve não teremos mais uma cronista de peso nos jornais da cidade)
    Abs
    Olívia Maia

    ResponderExcluir
  2. "Já eu, culpo a mim mesma e ao ser humano em seu fraco livre arbítrio.
    E me pergunto quantos mais ainda vão morrer ou sofrer abusos neste macabro (des) equilíbrio ecológico em que vivemos, onde força física e armamentos comandam destinos de crianças e jovens".
    Esse fragmento é fantástico! Lucidez e inspiração.
    Abs.,
    Vivian

    ResponderExcluir