sexta-feira, 9 de abril de 2010

Rio, Niterói, Bumba

Foto: Google Imagens
Ninguém mora num lixão porque gosta. Ninguém vive em um lixão por idealismo, ou para construir um futuro. Não há futuro na podridão do lixo, nos objetos tortos que já pertenceram a alguém que os abandonou porque são velhos, porque enjoou deles, porque não funcionam mais.
Não há mesmo?
Ainda abalada pelas imagens da tragédia dos desabamentos no Rio de Janeiro e em Niterói, especialmente no morro do Bumba, começo a enxugar as lágrimas da minha própria piedade e me volto à preocupação com a dor alheia. Mais que isso: começo a deixar de ouvir, para escutar.
O povo sofrido do Bumba tem cidadania. Tem fome de vida decente, como qualquer ser humano. Mas enquanto a vida prometida não vem, pela mão do Governo que só faz demagogia assistencialista, ou pela mão dos cidadãos que ajudam, mas não podem decidir, o Bumba respira, se vira, vive. E, para viver, seus moradores constroem casas em encostas. Não porque são burros. Não porque são pobres. Não porque querem “morar sem pagar impostos” (como escuto muitos incautos repetirem). Não porque não conhecem a morte que mora na chuva persistente. O povo do Bumba constrói suas casas na encosta porque se percebe tão digno e merecedor de um lar quanto qualquer outro brasileiro. E porque a encosta está lá, livre, para quem quiser se arriscar a morrer.
Ninguém escolhe morrer, nem entrega a vida ao acaso. Só os desesperados. Os esquecidos. Os invisíveis.
Há quase dezenove anos, em 1991, num evento da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB denominado Semana Social Brasileira, Betinho, o Betinho de quem eu e tantos sentimos saudade, apresentou à plateia o artigo “Economia submersa, solução perversa”, por meio do qual contrapunha-se aos grandes economistas nacionais que teimavam em chamar de “invisível” a economia sob a qual viviam os cidadãos na linha de pobreza.
Dizia ele que seria no mínimo uma irresponsabilidade denominar de “invisível” a economia informal sob a qual viviam 40% da população brasileira: sacoleiras, lavadores de carro, distribuidores de panfletos e outras atividades. E, para espanto da audiência, propôs uma reflexão sobre a venda de drogas nas comunidades carentes, mostrando que avó, pai, filho que se tornavam “aviões” do tráfego no morro encaravam aquilo como profissão. E ponto final.
Não defendeu as drogas. Apresentou-nos, simplesmente, a dois mundos. Em nossa opinião, bandidinhos corruptores dos nossos filhos. e até de nós mesmos. Na deles, uma profissão.
Naquela época, ao ser presa, aos 80 anos, por posse de drogas, uma senhora de cabelos brancos afirmou ao repórter: Meus netos não têm pai nem mãe, moram comigo e precisam comer. E quem é que dá emprego para uma mulher da minha idade?
Essa é moralidade da fome. A legalidade da barriga vazia.
Mas antes que Betinho me distraia mais ainda da intenção desta crônica, quero explicar a comparação que me vem à cabeça.
Assim como a avó, o pai e o filho que fazem das drogas um jeito de ganhar dinheiro, e não enxergam na prática nenhuma afronta, assim também os moradores do Bumba e de tantas outras encostas não enxergam que é ilegal e arriscado erguer suas casas onde a chuva vai trazer destruição.
Ambos precisam viver. E quando a vida é o imperativo, ninguém para pra pensar que não se pode chamar de vida àquilo que só traz a morte. Seja no tráfego, seja na encosta.
Então, vejo hoje no jornal a pequena Laura Beatriz, única sobrevivente em uma casa onde seis de seus parentes morreram. Com seu dedinho em riste, sem lágrimas nos olhos, mostra à repórter o lugar onde existiam, antes do desabamento, uma creche e a casa de seus primos. Analiso seu rosto preocupado e sei que ela não vai chorar mesmo. Sua única preocupação é não atrasar a leitura que a escola pede, durante estes dias sem aula. E decidir onde vai morar agora. Como se pudesse escolher, como se houvesse opção.
Laura Beatriz é o Bumba, onde não dá tempo de sofrer ou prantear os mortos. Choramos e sofremos nós, à distância, em frente às telas. Ou xingamos de burros os cidadãos da tragédia. Somos assim: comiseração ou intolerância.
Lá, no Bumba, eles não pensam em nós, nem como nós, espectadores cheios de opinião e solidariedade.
Lá, no Bumba, eles sabem que daqui a uns dias só vão poder contar uns com os outros, ou consigo mesmos. Invisíveis, como sempre.
No Bumba, o imperativo é viver. De preferência, com dignidade.

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