quarta-feira, 26 de maio de 2010

Mulherzinhas e homenzinhos

É impressionante como alguns homens tendem a olhar para algumas mulheres como “mulherzinhas”.
Afora um desgastado e secular mecanismo natural que os conduz a crer que são melhores do que as mulheres, nada mais resta a esse tipo de homem se não uma língua impiedosamente ferina, mordaz, que dispara setas de veneno ao falar, sibilar, zurrar (as duas últimas ações praticam com muita maestria).
São, eles, sim, homenzinhos, de baixa estatura moral, de baixa auto-estima, inseguros, perplexos e desorientados em frente às mulheres que os contestam, criticam ou mesmo diante daquelas que os querem ajudar.
Geralmente, voltam-se em ataque às mulheres que consideram feias, gordas, velhas ou qualquer outro estereótipo que sua cabeça apertada fabrique para justificar por que, afinal, foram questionados em sua soberania de machos-dominantes.
Mas...espere aí...Eu não gostaria de continuar a escrever assim, com tanta vulgaridade. Isso faria de mim, no mínimo — e realmente — uma mulherzinha!
O que quero dizer é que o que me deixa triste, completamente triste, não é um ou outro episódio isolado que ainda me chega à existência, mas o fato de perceber que o mundo gira, gira e ainda permanece no mesmo lugar. Pelo menos o mundo de alguns homens.
Acostumados, talvez, por pais autoritários, a obedecer, até mesmo a apanhar, tornam-se adultos revanchistas, repletos de verdades absolutas e, também eles, de autoritarismo.
Ou seria por causa de pais que não lhes deram limites morais?
Melhor não culpar os pais por nada. Tem gente que consegue estragar-se sozinho.
Voltando ao tema a que desejo me ater, me pergunto: Ora, em quem mais um homem desse tipo poderia tentar mandar?
Nas mulheres, é claro! Nas feias, gordas, velhas e em qualquer uma que ele pense estar disputando o palco que criou para si: o da vaidade infinita, o do descontrole fácil, o do complexo de inferioridade que o acompanha como uma sombra pelos anos. Afinal, o fodão é ele, o descolado é ele, o engajado é ele! Como ousa uma “zinha” tentar saber o que ele sabe, mais do que ele sabe, ou questionar o que ele sabe?
Mulheres são...são...mulherzinhas!
Ah, e eu que quase ia me esquecendo do complemento! Mulherzinhas cuja cabeça parou no século XVIII!
Agora, vejamos...
Mulheres do século XVIII não questionavam seus homens, maridos, machos.
Mulheres do século XVIII não escreviam, não trabalham, muitas vezes sequer sabiam ler.
Homens do século XVIII, ao contrário, eram machistas, arrogantes, dominadores, agressivos e não permitiam às mulheres participar do seu mundo masculino. Sinceramente, uma verdadeira confraria de machos.
Portanto, quem de nós pertence ao século XVIII?!
Perguntinha para esses homens tão inquestionáveis, tão cheios de picardia: não é incoerente atacar “mulherzinhas” porque têm a ousadia de criticar vocês, e ao mesmo tempo atacá-las por permanecerem no século XVIII?
Helllo!!! Há que se ter coerência nas manifestações!
Se vocês, machões, adoram as mulherzinhas caladas, ou as gueixas, que não questionam nem apontam as suas falhas — porque não entendem nada de nada — não era para vocês a-do-ra-rem as mulherzinhas do Século XVIII?!
O que me leva à conclusão, pela lógica, de que vocês detestam mesmo são mulheres que pensam. Mulheres capazes de desmascarar o mito que vocês criaram para si mesmos de que nunca erram.
O Papa nunca erra. Pais autoritários nunca erram. Psicopatas nunca erram. Ui!
E ainda tem o deboche — eu quase ia me esquecendo de mais essa!
Um debochezinho pobre, mal feito, panfletário, de esquerda festiva, sempre pronto a ser jogado na cara das “mulherzinhas” que o merecem!
Como se assinar atestado de agressividade fosse sinal de inteligência...
Pior de tudo é saber que esses homens pequenos, mesquinhos, complexados, debochados andam por aí, muitas vezes, ocupando cargos onde, por meio de outra máscara — a máscara de homens nobres — convencem a gregos e egípcios de que são maiores.
Homens pequenos tendem a se achar homens de verdade. Olham-se felizes no espelho da vida, diariamente, e seguem sem a contestação de ninguém. Não percebem que quem não os contesta ou é igual, ou vê logo a perda de tempo que isso representaria, já que Narcisos não ouvem se não o som grotesco da própria voz, que para eles soa como harmônica melodia.
Quando meu dia é invadido por esses homens de quase nenhuma estatura, vejo o quanto sou feliz por pertencer ao todo, por gostar de pertencer a esse todo sem me considerar peça de maior ou menor valia. O quanto sou feliz por estar contida, como diria Habermas, não no sistema, mas no mundo da vida.
Então, me lembro que conheço homens de verdade, amigos, companheiros, altruístas. Homens que compartilham sabedoria, discussões, discordâncias. Em qualquer idade. Com qualquer idade. E que aprenderam a respeitar as mulheres sem as considerarem “zinhas”.
Elegância, educação e, principalmente, argumentos me derrubam no chão. Ironias, deboches e grosserias só me causam consternação e piedade.
Além de tudo, ofender é arte da mente. Perdoar é arte da alma.
Por isso eu perdoo vocês por serem tão infelizes.

Afinal, mais do que uma mulherzinha, eu morro de medo de me tornar um homenzinho...

Um comentário:

  1. Olivia Maia26/5/10 13:56

    Plac, plac, plac... aplaudindo de pé. Belíssima e oportuna crônica. Ser escritor (a), é também isso. Saber expressar, um bom ponto de vista, com competência e categoria. Se bem que adoro ser “uma mulherzinha” . Não qualquer mulherzinha “jurássica”. Mas uma mulher que de tão grande é agraciada amorosamente com o sufixo “zinha”, por homens do tipo que falaste na crônica: “Homens que compartilham sabedoria, discussões, discordâncias. Em qualquer idade. Com qualquer idade”. Esses homens, de almas grandes e com egos maduros, me fazem sentir a beleza de ser esse Ser mulher tão pleno. Que me fazem colocar “rosas no cabelo e um olhar de moça prosa”... e sorrir para vida. E não sorrir pro que não vale apena.
    Parabéns!!

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