quinta-feira, 17 de junho de 2010

Os hipócritas, os ingênuos e o telhado de vidro

Sinto na pele, como servidora do Legislativo federal, cada mácula que a instituição tem que absorver cotidianamente. Não há dia em que jornais e emissoras de TV não publiquem alguma coisa errada sobre as duas Casas: uma insinuação, uma denúncia, um escândalo. Avassalador.
É obrigação da mídia expor feridas abertas. Em qualquer lugar, de qualquer um. Pertenço, por formação e atuação profissional, à área de Comunicação. E nela atuo há mais de 30 anos. Seria insensatez da minha parte fazer olhos de Pollyana ao que se descortina.
De maneira adulta, e dolorosa, leio as matérias de jornal e os comentários dos cidadãos, prontos a mandar “explodir aquilo lá com todo o mundo dentro” (sinto-me explodida várias vezes por semana!). E a sensação de impotência que toma conta de mim não se deve apenas à vergonha pelos fatos, mas, também, ao radicalismo de muitos ataques.
Qualquer um que se proponha a defender o Legislativo é acometido de enorme medo: ser execrado pela defesa do que, aparentemente, parece indefensável. Muitos desistem. Outros, afrouxam o tom dos dedos que descem sobre as teclas. Hesito eu também antes de publicar esta crônica no blog.
Mas, então, me lembro de onde vem o meu sustento. De onde tiro o aluguel (sim, eu não tenho casa própria!), o pagamento da prestação do carro, a faculdade da filha, as roupas, a empregada, o condomínio, a comida. E meu sustento vem dos dias e dias de trabalho como servidora do Legislativo, onde entrei por concurso público há 12 anos.
Trabalho honesto. Trabalho exaustivo. Trabalho bom. Trabalho do qual tenho orgulho.
Sim, eu trabalho! Não sou vagabunda. E não são raras as vezes em que passo pela Esplanada dos Ministérios, a caminho de casa, por volta de 9 ou 10 da noite, olhando os prédios apagados e vazios dos ministérios, as ruas já com bem menos trânsito.
E não admito que ninguém me chame de vagabunda! Nem que diga que o meu salário é de marajá (se realmente o fosse, 10 concursados chamados a ocupar cargos no Legislativo não teriam desistido porque estavam ganhando mais no Executivo ou no Judiciário!).
Meu salário é bom. Eu estudei por ele. Eu fiz prova por ele. Eu penso, elaboro e ajo por ele, diariamente. Eu pago impostos na fonte e, com eles, cumpro o meu papel social da mesma forma que aqueles que me acusam de não trabalhar! Pago mais, porque ganho mais. É justo.
Mas não é de mim que quero falar. Quero falar de Democracia e Ética. E não há democracia sem Legislativo.
Gostem ou não os que só atacam irresponsavelmente o Congresso Nacional, é ali que tem início a governabilidade do País. Não no Executivo, nem no Judiciário. Mas no Legislativo. E nas leis que elabora para todos os brasileiros.
Talvez, de tanto ver e se chocar e se desesperar com atos e fatos publicados pela mídia, o cidadão comum tenha sido conduzido ao seu limite: quer ver mortos todos os integrantes do Congresso Nacional, sejam eles senadores, deputados, servidores. Simples assim. Linear assim.
Mas não é simples. Nem linear! Cumpre dizer que há senadores, deputados, servidores que lutam e insistem em trabalhar por este país.
É urgente, também, e acima de tudo, que se desfaça a confusão entre a importância dos homens e a importância das instituições.
O problema é que essa é uma verdade que não interessa! Porque é sempre melhor acusar com rapidez do que avaliar, investigar, comprovar. Vende mais...
Para os que somos da área da Comunicação, sabemos o que é o agenda setting. Duas palavrinhas estrangeiras que regem a vida do cidadão que lê, ouve, assiste aos noticiários.
Agenda setting é quando “a mídia determina a pauta para a opinião pública, ao destacar determinados temas e preterir, ofuscar ou ignorar outros tantos”.
Isso mesmo! Propositadamente, orientadamente, conscientemente a mídia decide, todos os dias, que assuntos deseja publicar para mobilizar a opinião pública! São eles que nos dizem em que devemos pensar. E nos induzem a pensar como eles. São eles que julgam o que nos interessa. Nada é por acaso nos jornais, nos telejornais. Nem política, nem economia, nem sexo, nem religião. O agenda setting e os gatekeepers (os que detêm o poder de decidir o que passa ou não pelo "portão", o que deve ou não ser notícia) são realidades da mídia brasileira.
A mídia está errada? Depende...
Não, se avaliarmos que é sua obrigação trazer à tona os grandes temas nacionais, denunciar, informar da realidade, permitindo ao cidadão inserir-se e participar de forma crítica no debate político, social, econômico, cultural.
Sim, quando enxergamos a manipulação por trás das matérias, a tendência dos pensamentos e das vontades de um grupo, as pessoalidades, não importando a que preço.
Muitas matérias publicadas cometem inverdades de dados e fatos. E quando as Assessorias de Imprensa enviam dados reais, solicitam retificação de informação, os jornais não publicam, as emissoras não dão. A mídia brasileira engoliu o direito de resposta há tempos! Ou, pelo menos, o direito de resposta em bases de igualdade. Quem de nós já não ouviu num telejornal: “A justiça brasileira determinou que esta emissora lesse a seguinte nota...”. Porque sem ordem judicial ninguém cumpre nem honra o código de ética da própria profissão.
A mídia não informa que os sites oficiais publicam a prestação de contas das instituições para quem quiser ler e tiver acesso à Internet. Entrevistas são distorcidas por meio de uma edição maliciosa, que corta e suprime o que convém.
E se é de decência e ética que tanto fala a mídia, pergunto eu: Onde está a ÉTICA da mídia? Quando foi que ÉTICA se tornou uma rua de mão única, de propriedade da mídia?
Ninguém dirá, nas linhas do jornal de grande circulação ou do maior telejornal do País, que o Legislativo é a base da democracia. Que um país sem Legislativo é totalitário. Que somente as ditaduras — de esquerda ou de direita — é que fecham os Congressos Nacionais. Não falarão da diferença entre o valor das pessoas e o valor as instituições. Nem insistirão em que as democracias se renovam é pelo VOTO!
E o povo — que sou eu, que são vocês —, o povo que não admite nenhum deslize, que quer explodir a Câmara e o Senado “com todo o mundo dentro” se recusa a perceber que o Congresso Nacional é o único dos Três Poderes que é totalmente eleito pelo voto direto! O meu, o seu, o nosso voto!
Elegemos 594 homens e mulheres. Somos, portanto, responsáveis. Em quem eu votei? O que fez, faz, está fazendo o meu candidato depois de eleito? Eu cobro dele a postura que desejo? Quantas vezes eu votei porque o candidato é “meu amigo”? Quantas vezes votei porque “sou do partido” e “não questiono as decisões do meu partido”? Quantas vezes votei no candidato que construiu o estádio de futebol da minha cidade? Quantas vezes votei no candidato que deu emprego ao meu filho? Quantas vezes votei em qualquer um “porque político é sempre a mesma coisa”?
Quantas vezes eu votei porque analisei o histórico de vida do candidato, e suas ações como homem e como político? Quantas vezes eu, cidadã, e você, cidadão, nos propusemos a ter controle sobre aquele a quem entregamos o nosso voto? Quantas vezes acompanhamos os projetos, as alianças fechadas pelo nosso candidato ou partido? Quantas vezes pressionamos, por meio de cartas ou visitas, o nosso deputado ou senador?
Que nada! Preferimos deixar na mão da mídia nos defender dos ladrões, corruptos e safados. Ou, pior ainda, muito pior, alguns de nós somos daqueles que votamos em branco, ou anulamos o voto e depois nos achamos no direito de acusar, cobrar, xingar!
Cabe, aqui, uma historinha.
Numa aula de Ética, uma professora entregou aos seus alunos uma folha contendo 15 itens. Pedia a cada um que não se identificasse e que respondesse sem pensar, de imediato, cada um dos itens.
Ao final, compilados os papeis dos 25 presentes, havia 375 respostas aos questionamentos, que eram mais ou menos assim:
1. Você já pediu a algum parente idoso, ou a uma gestante, que fizesse um pagamento para você, para evitar a fila enorme do banco, ou da loja?
2. Você dá gorjetas ao garçom para conseguir uma boa mesa no restaurante ou no bar? Ou para o flanelinha do estacionamento para ele guardar uma vaga para você?
3. Você checa, periodicamente, a mochila do seu filho para ver ser ele trouxe da escola objetos que não lhe pertencem?
4. Você já sonegou o Imposto de Renda?
5. Você já usou a máquina copiadora do seu trabalho para copiar textos particulares, ou já carregou para casa canetas e blocos?
6. Você navega pela internet durante o horário do expediente?
7. Você já disse ao seu chefe que estava doente para justificar um atraso ou uma falta?
8. Você já disse a frase “Ele, pelo menos, rouba, mas faz”?
9. Você se levanta para dar lugar a um idoso ou a uma gestante no ônibus ou em qualquer outro lugar?
10. Você já fez alguma piada (ou riu de alguma piada) sobre negros, homossexuais, pessoas obesas, deficientes físicos, mulheres?
11. Você joga lixo ou cigarro pela janela do seu carro?
12. Você fala alto, liga o som, a televisão ou a máquina de lavar altas horas da noite?
13. Você sabe que a sua vizinha apanha do marido, mas não faz nada porque “não é da sua conta”?
14. Você dirige estritamente dentro da velocidade permitida pela lei?
15. Você mente?
As respostas obtidas foram assombrosamente honestas e igualmente preocupantes! E a maioria delas apontou para uma verdade triste: o nosso telhado é de vidro!
Então, somos ladrões, corruptos e sem ética? Sim, de uma certa forma. Porque somos omissos, preconceituosos, egoístas, perguiçosos. Porque criamos para nós regras diferentes. E nossas regras são melhores que as que aplicamos aos outros.
Hipocrisia? Talvez não. Ingenuidade? Com certeza.
“Isso é bobagem! Roubar dinheiro e enganar o povo é muito mais sério do que furar fila ou jogar um papelzinho na rua!”, me afirmam amigos em rodas de discussão.
Será?!
Será que existem duas éticas, dois tipos corrupção? Ou apenas oportunidades e intensidades diferentes, balizadas pela mesma falta de consciência e de decência?
ÉTICA é o cumprimento da manhã ao meu vizinho do lado que encontro no elevador. ÉTICA é escutar o outro e pensar que o seu ponto de vista é tão importante quanto o meu. ÉTICA é corrigir o próprio filho quando ele está errado (mesmo com o coração doendo). ÉTICA é não pisar na grama, não poluir, poupar o planeta. ÉTICA é não gritar com o outro, não bater no outro, não humilhar o outro, não discriminar o outro. ÉTICA é não pensar em si mesmo, mas em todos; no todo; no que é para todos.
Porque se não fizermos isso, seremos sempre iguais aos que tanto criticamos. Aos que roubam, desviam, beneficiam desonestamente, corrompem, matam. Apenas que em menor escala. Apenas que em palcos menores.
Não importa em que instância da vida ou em que lugar estejamos; nem sob que nome ou profissão nos identifiquemos: deputado, senador, servidor, jornalista, cidadão.
É preciso ter em mente que em todo canto há joio e trigo.
É nossa obrigação separar o joio do trigo. E optar pelo trigo.

2 comentários:

  1. E, assim, passam-se os anos, e eu continuo convicta de que essa mulher foi determinante no meu modo de agir e pensar profissional... morro de orgulho, e saudades!!!
    beijos
    Beta

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