quarta-feira, 23 de junho de 2010

Quando se morre (para Conceição, avó da minha cria, que morreu hoje, cedo demais)

Uma pessoa não morre quando lhe cessa o respirar. Morre quando deixa de ser. De ser uma, duas, várias coisas.
Deixar de respirar é apenas um ato de entrega. É quando a alma, irritada com o corpo que teima em ser, permanecer, consegue, por fim, dar xeque-mate nessa carcaça que se esconde em desculpas para não ir embora.
Uma pessoa morre quando chora pela primeira vez. Quando sofre pelo primeiro amor. Quando deixa de dormir pela primeira vez por um filho. Morre quando ama, quando não se faz amar, quando é na solidão que constrói seus caminhos.
Uma pessoa morre pela traição do parceiro, pela injustiça das rugas, pelo desprezo do amigo ou do inimigo, pela incerteza das dívidas.
Morre na invisibilidade do isolamento não pedido, nos goles do álcool que escorrega com pressa pela garganta amedrontada, no entorpecimento das pílulas.
Uma pessoa morre quando deixa de ser pessoa e se converte em transparência. Quando não importa sofrer ou sorrir, que ninguém nota. Quando ninguém lhe pede a opinião que tanto deseja dar, ou que debocha do que ela diz, pensa, faz.
Morre quando não vence a maratona profissional que disputa dia sim, dia sim. Morre quando passa a depender do outro para comer, beber, andar, sair. Quando esse outro está lá, mas não se lembra de que tem mais alguém por perto. Quando não há esse outro sequer para se depender dele para comer, beber, andar, sair.
Uma pessoa morre quando sente a pressão do desespero apertando sadicamente o seu coração. Não uma vez, mas sempre. E quando descobre que nem mesmo quebrando dedo a dedo dessa garra é capaz de se sentir feliz de novo.
Morre uma pessoa por dia dentro de uma única pessoa.
Morre primeiro, em uma pessoa, o brilho dos olhos. Depois, morrem-lhe as frases ao vento, porque ninguém as quer ou escuta. E morrem, a seguir, ainda em sua boca, todas as palavras que pensasse proferir, desnecessário que é pronunciá-las aos ouvidos do nada.
Uma pessoa morre quando verga o corpo e encurva a alma. Quando nada mais ao seu redor a agrada ou fere. Quando deixa para lá o pensamento, antes mesmo que se torne ideia. Morre quando não sonha mais, porque aprendeu que sonhar é desperdício de crença.
Morre uma pessoa quando o ser humano que a habita vegeta, desiste, desconsola-se.
Quando não há mais mãos a afagá-la, nem risos em sua direção, nem paciência com seus medos e assombros, nem metas, nem conquistas, nem planos, nem amanhãs disponíveis.
Morre uma pessoa, por fim, e inexoravelmente, ao interpor-se entre ela e o respirar uma barreira que empurra dois mundos em direções opostas.
Último ato. Cai o pano.
O voo da alma rompe as amarras da carne e segue para algum lugar. Ou para o nada.

2 comentários:

  1. Meus Deus, Cinthia: quanta coisa linda sai dessa tua cabeça! Ou melhor: coração...

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  2. Olha só, o Mário Quintana:

    DA PRIMEIRA VEZ QUE ME ASSASSINARAM

    Da primeira vez em que me assassinaram
    Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...
    Depois, de cada vez que me mataram,
    Foram levando qualquer coisa minha...

    E hoje, dos meus cadáveres, eu sou
    O mais desnudo, o que não tem mais nada...
    Arde um toco de vela amarelada...
    Como o único bem que me ficou!

    Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
    Ah! Desta mão, avaramente adunca,
    Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!

    Aves da noite! Asas do Horror! Voejai!
    Que luz, trêmula e triste como um ai,
    A luz do morto não se apaga nunca!

    - Mário Quintana -

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