terça-feira, 6 de julho de 2010

Caballero de la Triste Figura

De que é feita a tua loucura?
Ou por acaso és um desses que se julgam a salvo das quimeras?
Se o és, te fazes mais tolo do que aqueles que alucinam sentimentos. Do que aqueles que criam fantasias para contrapor-se às verdades impostas pela ardilosa sensatez.
Então, é isso mesmo que escuto? Que não te crês mesmo insano?!
Não te assustas com vozes que contradizem tua vontade, nem te sentes impelido a seguir em frente quando os pés aconselham a permanência?
Diz-me, com convicção, que não sentes qualquer dúvida quanto às regras e obrigações que comandam este mundo?
Diz-me que não sonhas de olhos abertos, ou pelo menos à noite, quando a escuridão acumplicia as sensações!
Não amas?!... Nunca?!
Sequer o homem ou a mulher que te amarfanha o leito? Nem o filho que te insulta e parte de ti vezes e vezes? Ou o livro que te permite deleite e pensamentos? Ao menos as Escrituras que te garantem castigo: o eterno e o terreno?
E se por nenhum desses sentes amor, ao menos amas teu país, que te injuria a chicote ao pretender para si o que não dividirá contigo?
Não? Nenhum amor?
Talvez, ames o nada...
Pois que é no nada que se aconchegam as almas congeladas. Os pés que jamais sairão a percorrer caminhos desenhados em dor, desejo, intenção.
No nada inexistem sonhos a excitar o corpo. Nem prazer, nem gozo, nem medo...
Ah, a alienação do nada! Essa, sim, a utopia mais cobarde a enganar os tontos, a pedir-lhes que se mantenham... sãos!
E sãos se arrastam, entre sala e quarto, homens apáticos como as ovelhas que se locupletam em pasto e obediência. Não abrem janelas, não deixam que o solo lhes toque as botas ou os calçados finos. Morrem assim, entre quarto e sala. Sãos e obedientes.
Eu não! Eu preferi que rissem de mim.
Deixei que meu peito jorrasse delírios, e resgatei minha criança que dormia. Assustei, agredi, combati os gigantes da opressão que me cercavam sorrateiros.
E o fiz sem qualquer certeza de intenção. Nunca tive intenções, como não as possuo agora. Que de intenções vivem os que manipulam e subjugam.
Eu fiz tudo, e tanto, por amor. Por amor aos sussurros que floresceram em gritos dentro de mim. Afinal, quem mais, se não eu, poderia fazer-se companhia das solitárias vozes que se aprisionavam em minha cabeça?
Hoje, que sou leito e fraqueza, as vozes se foram. Custou-me, para alcançar esta morte triste e silenciosa que já me consome, sentir o deboche dos homens, e perceber sua ganância ou indiferença em relação ao reino que me dediquei a defender. Custou-me receber em corretivos a fúria dos que cruzaram com minhas fantasias e não as compreenderam, nem se apiedaram delas.
A abjeta cegueira dos homens deu-me a única certeza que ousei acalentar nesta vida: de que eu fazia por eles o que não fariam por si mesmos. E, por tal causa, prossegui em desvario.

Este é o conselho que te dá o Caballero de la Triste Figura. Que te apresses a fazer-te louco! Pois gigantes, há muito, te espreitam...

2 comentários:

  1. que honra estar sendo seguida por você! rs. estou adorando o blog. beijo e bom fim de semana!

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  2. emocionei-me muito com a sua leitura deste belíssimo texto no sarau! lindo! parabéns!

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