sexta-feira, 20 de agosto de 2010

E tudo começou em pizza

Abriu a porta de roupão e cabelos presos em coque. Tinha recém chegado do serviço quando a filha pediu para comer alguma coisa que não fosse pão com queijo. Como não conseguiu pedir a pizza a que estava acostumada, ligou para o telefone de um folheto que descansava sobre a mesa da sala. Esta aqui também tem borda de catupiry. Se não prestar, pelo menos a borda presta, pensou, animando-se também com o preço barato da comida, que combinava com o seu bolso curto.
Mais de 40 minutos de espera e o interfone tocou. Gritou pela filha e lhe disse que estava de roupão. “Estou no banho e acabei de entrar”, foi a resposta que ouviu, em surdina. Sem tempo nem vontade de trocar de novo a roupa, lembrou-se que não iria mesmo abrir mais que uma fresta da porta, para que os cachorros não tentassem fugir, como sempre. Batendo o pé para que os animais se afastassem, entreabriu 30 cm de porta, esticou o dinheiro e pegou a pizza, passando a embalagem meio de lado pela fresta.
— Boa noite, moço — despediu-se, mecanicamente.
— Um minutinho. Tem troco — respondeu ele.
— De quanto?
— R$ 1,30.
— Pode ficar para você.
Isso foi tudo. Tudo mesmo. Os 30 cm de fresta, o diálogo sem gordura. Chamou a filha, que se apressou a sair do banheiro, e sentaram-se as duas juntas para comer a massa cheirosa.
Então, o telefone de casa tocou. Olhando no visor, desconheceu o número de celular.
— Quem é? — perguntou a filha, curiosa.
Deu de ombros, porque também não sabia.
— Alô...
— Quem fala? — inquiriu uma voz de homem hesitante.
— Quer falar com quem? — retrucou ela.
— Com você mesma, Laura.
— E quem é que está falando?
— Alguém que te viu e te achou muito bonita.
Não! Não era possível que algum de seus amigos estivesse a fim de brincar com ela numa terça-feira à noite! Estava cansada, queria comer a pizza que estava esfriando. Mas era alguém que a conhecia, porque a tinha chamado pelo nome.
— Quem fala? — disse, rispidamente.
— Por que você quer saber? — o homem respondeu, com voz melosa.
— Porque se é alguém que eu conheço, deveria saber que eu não gosto de trotes! E se não é, boa noite!
— Eu sou o moço que acabou de entregar a sua pizza.
Não! Nos seus piores pesadelos aquilo não estaria acontecendo! Um louco? Um tarado? Um psicopata?
— Escute aqui, senhor! — reforçou o “senhor” — Seja o que for que o senhor tenha a dizer, eu não estou interessada!
Desligou o telefone imediatamente, num misto de raiva e surpresa. Louco, idiota, bandido! Pegou meu nome e meu número na nota da pizzaria! O que é que esse maluco quer comigo? Contou para a filha, atropeladamente. Estava preocupada, inquieta. O sujeito sabia seu nome, seu número e estivera em sua porta! A filha riu. Achou que ela exagerava na importância do fato.
— Bem ou mal, você foi paquerada, mãe!
Ah, os jovens, os jovens que acham graça de tudo, que acham tudo simples!
— Como é que ele pode querer paquerar uma mulher de roupão, cabelos presos, coroa e que ele viu em 30 cm de porta, criatura?! É tarado mesmo!
— Mãe, você é muito sem noção — respondeu a mocinha, partindo para o quarto em busca do computador.
O telefone tocou outra vez. Vendo no visor o mesmo número, atendeu decidida, sem dar tempo ao homem de falar:
— Qual é a parte do “não estou interessada” que o senhor não entendeu?! Idiota, o seu número está aparecendo aqui no meu visor e eu vou ligar para a polícia em seguida.
Antes de desligar, ainda teve tempo de ouvir aquela voz repugnante perguntar:
— Você é casada ou solteira, meu bem?
Contou para a filha. Tim tim por tim tim. O rosto da menina perdeu o deboche.
— Mãe, como é que vai ser agora? A gente pede umas 10 coisas por semana que são entregues por motoqueiros! Como é que eu vou saber para quem eu posso ou não posso abrir a porta a partir de agora?! E se eu estiver sozinha em casa? E se ele disser no interfone que é seu amigo?
A chuva de perguntas e o desespero tardio da filha, ao invés de deixá-la mais nervosa, acalmaram-na. Não podia deixar a menina preocupada. Era preciso ser mais mãe do que mulher, naquele momento.
— Deixe comigo, querida. Mamãe resolve tudo sempre, não resolve? Volte para o computador, relaxe que eu cuido disso.
E juntando o discurso à ação, passou a mão no telefone sem fio e se trancou no quarto. Ligou para a pizzaria e pediu para falar com o dono. Receptivo, o sujeito informou que o motoqueiro não era funcionário do restaurante. “À noite, contrato uma empresa de motoboys para fazer as entregas. Cada dia vem um e é difícil saber de quem se trata”, desculpou-se ele.
Estarrecida, desanimada, com medo, agradeceu, e já ia desligando, quando o proprietário da pizzaria acrescentou:
— Mas posso ligar para a empresa desse meu amigo que me presta o serviço noturno e perguntar se ele sabe quem é. Só preciso que a senhora me dê o número que está na memória do seu telefone.
Santo telefone! Tinha se esquecido da secretária eletrônica e do registro de números! Pediu licença para olhar o número, desligou e ligou de volta logo depois.
— Eu retorno para a senhora daqui a pouco — disse o homem, de posse do número.
Vinte intermináveis minutos depois, já se sabia quem era o entregador. Dando razão à angústia de Laura, pedindo desculpas e jurando que nada daquilo jamais acontecera com ele, o dono da pizzaria perguntou-lhe, por fim:
— A senhora quer ligar para a polícia, ou quer que eu mesmo ligue?
Não! Nada de polícia! Tinha medo que o sujeito se vingasse dela, da filha. Além do mais, dizer o quê? Não tinha sido ameaçada, nem sofrera nenhum dano físico! Merda de leis! Enquanto a gente não é estuprada, morta ou assaltada não pode fazer nada! Deixou por isso mesmo. Mas o medo não a largou mais.
Os dias foram se acumulando e a viagem de trabalho que precisava fazer se aproximava a galope. Na cama, em vez de dormir, pensava na filha que deixaria sozinha. Os pesadelos a acompanhavam sem piedade, fazendo com que, pela manhã, fosse um espectro de rugas e palidez.
Teve a ideia num barzinho, olhando os amigos que somavam três mesas interligadas. Em cada extremidade a conversa ia numa direção. No meio, tinha ainda outro rumo. Desilusões amorosas, críticas ao governo, questões ambientais, cachorros e gatos de estimação, e filhos faziam-se possíveis num só espaço coletivo.
— Quem quer morar na minha casa por uma semana? — interrompeu em voz suficientemente alta.
Num primeiro momento, olharam para ela sem dar resposta, voltando-se, novamente, para a discussão dos seus temas prediletos. Mas quando ela se fez ouvir pela segunda vez, calaram-se, alguns perguntando-se se era algum jogo; outros, se a amiga tinha enlouquecido de vez.
Mas antes que qualquer certeza ou desinteresse fizesse com que não a ouvissem, ela repetiu, e acrescentou:
— Quem quer morar na minha casa por uma semana? Imagine só que coisa ótima! Brigou com a mulher? Esfria a cabeça lá em casa, sem arrumar confusão por causa de ciúme, porque somos amigos. Precisa de uns dias longe dos filhos para terminar a tese, vai lá para casa porque os cachorros só latem de vez em quando e não pedem para ir ao McDonald’s. Está triste porque terminou o namoro? Vai lá para casa que tem direito a descer o malho todo o dia no dito ou na dita cuja, e eu ainda ajudo! Está com depressão? Mudança de ares é sempre recomendada pelos psicólogos! Vamos, gente, a proposta é para ninguém recusar!
De início murmurantes, logo passaram a comentar abertamente e bem alto a proposta “muito louca” de Laura. Alguns, aderiram rapidamente. Outros, buscaram por mais detalhes. “Posso fumar?”, ou “Posso ouvir a música que eu quiser sem repressão?”. Pode, pode, pode, pode! Até que, num último empurrão, ela declarou:
— Despesas por minha conta, menos bebida alcoólica.
— Opa! Café da manhã, almoço e janta?
— Café da manhã, almoço três vezes por semana e sem janta, porque lá em casa não se janta. Mas o lanche da noite está incluído.
Uma onda de aceitações tumultuadas se manifestou.
— Tem TV só para o hóspede?
— Tem sim! Só não é digital, mas é de 29 polegadas.
— Pode levar...bem.... visitas?
— Não apela! Minha casa não é puteiro nem motel, pô! Eu moro com a minha filha!
Fim de noite, tudo acertado.
Quando perguntada sobre os porquês, disse apenas que queria companhia. Achou melhor não lhes contar do seu medo, porque podiam eles também se acovardar diante do psicopata de plantão. Deu tudo certo. Semana 1: Manoel, o poeta, para conseguir escrever longe das filhas gêmeas, de 4 anos, que o interrompiam a todo momento. Semana 2: Júlia, com o coração despedaçado pelo 28º cara que a enganava, e que ela ainda insistia em desculpar, na esperança que ele voltasse para lhe dar sexo selvagem uma vez por mês. Semana 3: Antônia e Juvenal, para fugir dos filhos que não os deixavam ver os filmes que gostavam, usar o computador ou ter um jantar romântico em casa. Semana 4: Artur e Nancy, filhos de Antônia e Juvenal, para ficarem livres da caretice dos pais que insistiam em ouvir Roberto Carlos e acender velas pela casa, como se fosse algum velório.
Três meses de hospedagem se acertaram naquela noite. Após poucos meses, excitados pelos benefícios da quebra de rotina, os amigos informaram a Laura que não era justo que ela arcasse com as despesas sozinha. Cada um, dentro de suas possibilidades, passou a ajudar com alguma coisa na semana de hospedagem: dinheiro, comida, filmes na locadora, flores, limpeza da casa.
Laura voltou a se sentir segura e não soube mais do motoboy. Ele nunca mais ligou e nem apareceu em sua porta.
Ou apareceu?
Bem, se esteve por lá, falou com quem?

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