domingo, 5 de setembro de 2010

Lixo eletrônico

Entrou em sua caixa de e-mails para ver as mensagens do dia. Aliás, pra falar a verdade, de uns dias. Não gostava de acumular tanta coisa e quase ficou chateado quando viu que havia 147 mensagens não lidas. Pensando em organizar, de alguma forma, o caos, decidiu que era melhor começar pelo óbvio.
Colocou o Outlook no modo “De” e saiu deletando, pela ordem: anúncios — Como é que esses babacas passam pelo AntiSpam?, pensou; depois, amigos chatos; amigos bobos; amigos que mandam sempre as mesmas coisas, chatas ou bobas; power points de auto-ajuda ou muito melosos...
Feliz, viu que haviam sobrado apenas 22. Puxa, nunca pensei que recebesse tanta coisa inútil!, surpreendeu-se, enquanto olhava o menu de lixo eletrônico que mostrava 11 mensagens. Clicou com o botão direito do mouse sobre o nome da pasta, para excluir rapidamente as 11, mas, de repente, mudou de ideia e abriu os e-mails para leitura.
Quanta besteira!, constatou. “Compre mais barato”...deletado. “Viaje conosco para Miami”...deletado. “Pensando em comprar a casa própria?”...deletado, deletado, deletado.
Então, o 11º e-mail, no fim da fila, como se estivesse escondido ali para chamar mais a atenção: “Comigo cresces, sem mim permaneces”. Nada mais. Ou melhor, embaixo da frase, um número de Nextel e um nome: Maurício.
Rima pobre, mas interessante. O que será?, distraiu-se tentando matar a charada. Nem uma ideia. Ficou olhando para a mensagem por mais alguns segundos e já ia desistindo, quando a mãe entrou no quarto.
— Muitas mensagens, meu filho?
— Um monte de bobagens.
— Nenhuma interessante? — insistiu ela.
Decidido a brincar com a curiosidade da mãe, arriscou:
— Tem uma aqui que é meio esquisita. Um tal de Maurício fez um trocadilho, sei lá. Tentou rimar. Nada especial, mas eu não saquei o que é... — se fingiu de pensativo para aguçar o interesse da mãe.
Na mosca.
— Posso ver? — pediu ela, fingindo um ar casual.
Mamãe cai feito criança!, pensou, enquanto virava a tela para ela.
— Hum...ahn...hãhã...Já sei!
— Já? Mas a senhora é um gênio! — brincou ele.
— Que nada, querido! — ela se fez de humilde — É uma coisa simples.
— É? O que é ?
— É o anúncio de um professor! Um professor vendendo suas aulas particulares de uma maneira inteligente.
— Será? — ele duvidou, sabendo que a provocaria.
— Está na cara! Bem...pode parecer difícil para quem não entende o significado por trás da frase, mas ele está valorizando a educação, dizendo que quem não estuda não cresce, vai ficando para trás.
Divertindo-se com conclusão tão filosófica sobre assunto tão bobo, e sabendo o quanto a mãe adorava apostar com ele sobre qualquer coisa, incitou-lhe ainda mais o espírito competitivo:
— Mamãe, a senhora está errada, tenho certeza de que não é isso.
— Não estou não! Quer apostar? Quem perder lava a louça, combinado?
Pronto! Fizera a felicidade da mãe pelo resto do dia!
— Combinado! Quem vai ligar para o tal Maurício para saber do que se trata, a senhora ou eu?
— Pode deixar que eu mesma ligo pra você não me passar a perna!
E, dizendo isso, anotou num pedaço de papel o número, afastando-se em busca do telefone sem fio.
Minuto e meio depois voltou ao quarto do filho. Com cara de poucos amigos, ou de nenhum amigo mesmo.
— Perdeu, hein? — debochou ele.
— É. — ela respondeu, lacônica, virando-se, em seguida, ligeira, para a porta.
— Não, não, não, não, não! Pode voltar aqui e me contar o que é que significa aquela frase! Estou morrendo de vontade de saber o que foi que me livrou de lavar a louça!
— Era um anúncio.
— Mãe! Não enrola! Eu sei que era um anúncio! Mas um anúncio de quê?
De costas, queixo encostado no peito, ela sussurou:
— Aparelho para aumento de pênis.

Um comentário:

  1. Muito gostoso teu blog!!!

    Beijos, linda semana!!

    Ta
    tatapalavrasaovento.blogspot.com

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