sábado, 4 de setembro de 2010

Rica solidão


Viver em Brasília é ter qualidade de vida... Aqui, temos tempo para tudo: estudar, trabalhar, ver os filhos... Brasília não tem poluição... O céu de Brasília é o mais lindo do Brasil...

De tanto repetir, nos convencemos de que não há outra verdade sobre a Capital da República. Mas há. Muitas outras. E, todas elas, apontam para a solidão.Talvez, não a solidão em seu sentido semântico, aquela que existe por falta de companhia ou pelo isolamento do homem de outros homens. Em Brasília, no coração do Brasil, vive-se uma solidão mais visceral. E múltipla. A solidão do Planalto, seja em seu significado linguístico, seja em suas variações metafóricas, é abismo de depressão e de angústia. Emocional, social, política, econômica.
Durante muitos anos, me aborreceu ouvir, a torto e a direito, que Brasília era uma ilha da fantasia. Como chamar de fantasia o lugar onde se cresce, se estuda, se trabalha e onde se vive bem?
Então, nos atropelam os fatos. E é de fatos que se vive. Ou deveria ser. E nos descobrimos realmente ilha. Cercados da água fétida e miserável de umas vidas que insistimos em tratar como secundárias. Vidas que não são como as nossas, repletas de conforto, céu azul, estudo, profissão, clube, carro, bar e viagens de férias.
O homem que pula do alto do prédio de um shopping, atormentado pelas dívidas. O crack fumado por adolescentes pobres e grávidas de pais desconhecidos. O pai alcoolatra que ameaça matar mulher e prole a cada um de seus delírios. A rua sem asfalto e de esgoto a céu aberto. O olho sem reação dos bebês pedintes nos sinais de trânsito. Os berros do lavador de carros que apanhou da polícia para entregar o traficante. Os palavrões do idoso que não recebeu a esmola na porta do banco.
E a força dos fatos nos incomoda. Um pouco. E, mesmo assim, a alguns de nós. Porque nós estamos salvos! Somos o miolo da ilha! E acreditamos piamente — mesmo que seja pouca a convicção e muita a omissão — que somos felizes.
Afinal, 70% da força de trabalho que desce diariamente dos ônibus superlotados não é meu vizinho de porta, meu parente, meu amigo, meu colega. Que me importa a que horas ele vê o filho, em que momento ela faz amor ou sexo com o marido, em que instante eles se sentam para beber, comer, rir e conversar? Não me importa se eles brigam, pagam contas, compram à prestação ou dormem na sarjeta, nos vãos das pontes, na grama ressecada e fria do inverno!
Eu moro no Plano Piloto. Sou graduada. Pós-graduada (Ok! Está certo que é, na verdade, uma Especialização, mas fica mais bonito dizer “pós-graduação" ). Sou concursada. Ganho um salário digno. Tenho uma filha que estuda, não trabalha, tem carro, vai ao salão de cabeleireiro semanalmente, tem som, computador, notebook e viaja. Para São Paulo e para Miami. E come bem. Tão bem que se dá ao luxo de dizer “isso eu adoro...aquilo eu detesto”.
E sinto solidão. A solidão dos que têm consciência.
Quando tenho fome, como. Quando tenho sedo, bebo. Quando fico triste, compro, viajo, leio, me divirto. E me cerco de coisas e gente e hábitos e privilégios que atordoam o sentimento.
Só não atordoam a vergonha, essa senhora impiedosa e fria que me olha nos olhos e que me pergunta, repetidamente: “E os outros?”.
A diarista que me serve três vezes por semana e que ainda acha tempo para mimar a minha filha enquanto deixa os seus cinco rebentos em casa. A manicure que se senta abaixo de mim, numa cadeirinha de rodinhas, e me deixa com as mãos bonitas enquanto as dela mesma estão vazias de esmalte e de tempo. O menino que carrega as minhas compras, a secretária que anota os meus recados, a moça da padaria, o mendigo que era “freguês” da minha mãe e que eu herdei na cota de pão diário ou no prato de comida vez ou outra. A menina-mãe de 13 anos que me conta, olhos brilhando, que o menino na barriga vai ser macho “que nem o pai”.
De tudo isso, o que me estarrece é enxergar nessas pessoas uma felicidade estranha, que vem não se de onde, que se sustenta não sei em quê!
De tudo isso, o que me abisma é não ter percebido mais cedo que a injustiça e as consequências do apartheid social, econômico, político e emocional pendem contra nós, e não a nosso favor!
Somos cegos, egoístas, alienados, insensíveis. Como a terra da ilha que ignora as águas que a circundam, sem perceber que só por meio delas tem acesso ao mundo real.
Somos nós a nossa própria solidão.
(Texto publicado, com adaptações, no Jornal Campus do Departamento de Comunicação da Universidade de Brasília em junho de 2010).

Um comentário:

  1. Tou descobrindo essa Brasilia... Amando-a e ao mesmo tempo sentindo um pouco de remorso por amar algo que me eh conveniente...
    Otimo texto!! Bjo

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