terça-feira, 12 de outubro de 2010

Augusto Abrigo – uma crônica longa sobre cães, gatos e outros animais

O Augusto Abrigo fica em Luziânia, ou, como se diz por aqui, na saída de Brasília. É complicado chegar lá? Nada! Um bom mapa resolve essa questão.
Mas o que é o Augusto Abrigo?
Da primeira vez que ouvi o nome, na boca de uma colega de trabalho, achei engraçado, pomposo, sofisticado. Até saber do que se tratava. Um abrigo para cães e gatos em situação de risco ou que sofreram maus-tratos.
O nome? Significa Sagrado Abrigo, um lugar onde tudo de bom acontece a esses bichinhos carentes, um santuário animal. Um lugar de muita paz.
Minha filha e eu fomos conhecer o abrigo há pouco mais de 15 dias (e já voltamos por lá, diga-se de passagem). Chegamos no primeiro dia de chuvas no Distrito Federal e vocês podem imaginar a lama! De cara, uma cena para qualquer cineasta se apaixonar: do fundo do terreno, atraída pelo nosso toque, surgiu uma mulher miúda, longos cabelos puxados ao vermelho escuro, cercada por...uns 300 cães! Lembro que logo me veio à cabeça a expressão “A senhora entre os cachorros”, embora Eliane seja ainda jovem.
No meio deles, silenciosa e doce, Eliane Zanetti, proprietária do abrigo, caminhou até nós, timidamente. Nos apresentamos e, meio receosas de entrar — afinal, como garantir que 300 rabos abanantes significavam mesmo paz? —, fomos deslizando na lama do terreno até chegarmos, já cheias de lambidas carinhosas e pulinhos alegres, a um galpão.
No chão, bacias com ração, outras com água e, ao centro uma mesa comprida de madeira, cheia das doações que as pessoas levam ao abrigo. Nós levamos ração, ossinhos bem pequenos (que a maioria dos cães estranhou, porque nunca receberam um mimo desse tipo), remédios para sarna, pulga e alguma coisa de limpeza. E ainda uma caixa de Fenergan injetável, porque os animais tinham sido vacinados pela Zoonose pela manhã e poderiam ter alguma reação, como os que morreram recentemente em São Paulo.
Conhecemos Rafael, o marido de Eliane, estudante de veterinária que faz o que pode para dar uma vida melhor e digna aos animais do abrigo. E conhecemos outros estudantes de veterinária que vivem por lá, ajudando, além de alguns voluntários. Naquele dia, Rafael estava triste e de mau-humor. É que o primeiro cão a chegar ao abrigo, 10 anos atrás, estava à beira da morte. Com 18 anos de idade, o Cocker Spaniel resistia bravamente. Morreu dois dias depois.
Mas foi assim que conheci a primeira história do Augusto Abrigo.
Esse cão de 18 anos, primeiro habitante não humano do lugar, tinha por hábito dar carinho e proteção a cada novo cachorro que chegava ao abrigo, com se dissesse: “Ei, eu sei como é, mas você vai sair dessa!”.
Fomos convidadas a entrar na casa, uma construção simples e inteiramente voltada ao que se destina, o cuidado de animais. Ao lado, um pouco mais embaixo, uma tristeza: duas casinhas de tijolos recém construídas, onde ficam os animais em tratamento contra o câncer. Não fomos lá. Coragem nenhuma.
E as histórias se sucederam.
Lucas, um vira-lata (aliás, vira-latas todos são!) meio amarelado, de porte médio, que sobe na gente para pedir carinho e para brincar, tem o corpo cheio das marcas de queimadura infligidas por seu ex-dono. Dalila, uma loirinha de pelos sedosos e olhos verdes, adotada na última semana.
Ana, uma cadela imensa, deitada no chão do ambulatório, parecia que não ia resistir a um ferimento na pata. Engano meu, que a encontrei agora, feliz, já circulando em meio aos outros animais.
Um casal de boxers, lindo. Ele era usado para treinar cachorros de rinhas (era o saco de pancadas, ou, melhor dizendo, o saco de mordidas); ela era a reprodutora para todos os cachorros de rinha. Apegaram-se tanto que hoje, apesar do muito espaço que têm no abrigo (precisavam ficar separados dos outros, porque, embora não tenham medo de gente, morrem de medo de outros cães), dormem juntos e agarradinhos numa cesta única que fica no quintal da casa, que é isolado por grade do resto do terreno.
De repente, um grandalhão acinzentado “se apossou” da minha filha. Gigante (o nome faz jus ao tamanho) andava em torno dela, mansamente, como se não tivesse o tamanho que tem. Afastava dela os outros cães, e pedia carinho, tocando-a levemente com a cabeça. Apaixonada pelo animal, minha filha se sentou num murinho e abraçou-o pelo pescoço. Foi quando vimos o focinho, achatado pela pá de um maníaco que bateu nele até destruir quase todo o seu rosto. O focinho, mais sensível, está demorando a cicatrizar, mas fica melhor a cada semana.
Moe, que foi levado em adoção e devolvido porque “é doce demais” (?!). Mag, cor de tabaco, que encontrou um lar semana passada e está toda feliz. Estopinha, que voltou no meu carro desta última vez que fomos lá (dessa vez, em quatro pessoas), no colo da sua nova dona, uma estudante de veterinária amiga de minha filha. Um cadela, cujo nome pretendo preservar, que sofria de zoofilia, mas que foi adotada por uma “mãe” que a cobre de mimos.
Tem ainda a fêmea pitbull que não gosta de briga, por isso foi abandonada. O Bernaise triste e idoso que era o xodó do seu dono, mas o dono morreu e os filhos correram a vender a casa, e o colocaram na rua, para morrer também. O Dachshund (já adotado) que estava sendo chutado pelo policial militar que o comprou de presente para a namorada, mas ela terminou com ele (de que boa você escapou, hein, moça?) e o homem da lei resolveu descontar no cachorro a frustração (vendeu-o a uma das colaboradoras do abrigo por R$400,00).
Apollo, uma mistura de fila com sei lá o quê, que é cego e foi atropelado. Depois de várias cirurgias e um pino na pata, manquitola por lá feliz e late grosso quando alguém chama o nome dele. Late em resposta, não porque é agressivo. Nunca mais sairá do abrigo, porque não se adaptaria fora de lá, mas foi adotado por uma alma boa que paga o seu tratamento e o visita. Quando acha a gente pelo som da voz, deita sobre os nossos pés e descansa.
Pandora, minha linda cadela negra e desnutrida que, na pressa de pegar na minha mão um ossinho mordiscou meu dedo, e depois passou o resto da tarde me lambendo e me dando carinho, como a dizer: “Desculpe, é a fome que eu trago das ruas que me faz ser apressada”. Um dia, se eu puder (já tenho dois cachorros num apartamento pequeno), ainda te trago para mim, pretinha!
Zafir, Tourinho, Murila, Chow, Feliz, Tripa...Eliane sabe o nome de cada um e os chama com a voz calma e baixa, à qual eles obedecem prontamente. Não é raro encontrar Rafael e ela cansados, exaustos de uma noite ser dormir, cuidando de uma gata que pariu com problemas, de um cachorro que tremia de dor.
O gatil está repleto de gatos sem olhos, queimados, machucados por arame farpado. Já os filhotes, nascidos na maternidade que será inaugurada no próximo sábado, dia 16 de outubro, são lindos, saudáveis e já aprenderam a confiar nas pessoas. Nas pessoas certas.
Não dá pra falar ou escrever sem se emocionar, se indignar. Mas é preciso falar, mostrar, alertar, denunciar.
Olhar para 300 animais que sofreram a ação predatória do homem — o único animal racional dentre eles, e o mais nocivo — e que persistem em serem mansos, amigos. Que morrem por um afago na cabeça ou na orelha, que olham a gente nos olhos pedindo “Me leva, vai! Eu só quero um canto no chão da sua casa, com ração, água. Em troca vou te dar muito, muito carinho. E vou te amar se você for feio ou bonito, negro ou loiro, gordo ou magro, doente ou saudável, alegre ou triste.”.
Não gosta de animais? Tudo bem. Mas respeite! Proteja! Não deixe que sádicos machuquem um bicho só porque não gostam dele! O mundo precisa parar de maltratar aquilo ou aqueles de que não gosta, ou que não entende.
A necessidade de ferir um animal só demonstra, e cada vez mais, a incompetência do homem em se fazer humano.
Vá ao blog da instituição (link mais embaixo), conheça mais de perto o trabalho do Augusto Abrigo.
Se puder, adote. Se não puder, dê alguma ajuda. Se não puder, dê carinho, amor, respeito ou, pelo menos, divulgue o trabalho que é feito no Augusto Abrigo!

Visitas e Adoção

Os animais do Augusto Abrigo são castrados e vacinados. Recebem a visita semanal e voluntária de um veterinário de Brasília, que olha cada animal. A instituição é reconhecida pela Sociedade Protetora dos Animais.
Muitos dos cães e gatos não são bonitos. Pelo menos não pelos padrões de beleza vigentes. Faltam olhos ou pedaços de patas e orelhas. Alguns mancam. Outros (poucos, felizmente) têm problemas neurológicos, e andam meio de lado, ou tremem muito. Anemia falciforme, desnutrição, problemas cardíacos e, principalmente, medo e carência.
Quem adota vira apenas um “fiel depositário”, ou seja, tem que seguir as normas da sociedade protetora dos animais, ou então perderá o animal.
As normas são simples, como não isolar o bicho em quartos pequenos, não usar o animal para ferir pessoas ou para lutas com outros animais. Não usar correntes para prendê-los, dar vacinas, comida e água.
As visitas podem ser feitas aos sábados e feriados, das 14 às 17 horas. O endereço e os telefones podem ser encontrados no blog da instituição: http://augustoabrigo.blogspot.com/

3 comentários:

  1. Olá. Gostaria de dar 300 parabéns a todos vocês. Morei em Brasilia, pena estar agora longe (SC) e não dá pra conhecer o Abrigo. Também salvo animais na rua e não há gratificação melhor no mundo que o olhar de um cãozinho te dizendo obrigado! Parabéns Cinthia, pela divulgação do Abrigo e pela muito bem escrita crônica, sensível, inspiradora e nobre. Estranho que a crônica é de 2010, e não vi nenhum comentário até agora! Será pela timidez de escrever? Só se for... E parabéns Eliane e Rafael, pelo magnífico trabalho em prol da proteção dos animais. Pelas 300 vidas que cuidam, o mínimo que posso dar é 300 parabéns! Chaplin nos ensinou: "não sois máquina, homem é que sois". Se não somos máquinas, muito menos somos senhores da Natureza ou melhores que outras espécies. Precisamos de uma nova consciência do valor da vida dos animais e plantas. "animal primeiro sois, e humano serás se a razão que homem te torna não cegar a emoção do animal que sois". Protejamos sempre os animais! Grato e de novo 300 parabéns!

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    1. Pois é, Vilker, o seu comentário foi o primeiro, quase três anos depois. Mas não importa, porque foi um ótimo comentário. Hoje, Eliane, Rafael e Lena (a filha dela que agora mora no Abrigo)cuidam de 530 animais, sendo 390 cachorros e 140 gatos. o gatil foi concluído e é lindo. A maternidade ficou pronta. E com a ajuda de todos eles inauguraram um miniambulatório para atendimento dos animais do próprio abrigo e de outroas cães e gatos cujos tutores não podem pagar por uma castração ou medicamento. As coisas continuam difíceis, como o temporal que alagou a casa deles e destelhou uma parte, inutilizando um computador e aparelhos elétricos (recentemente). Eliane passou por problemas de saúde e ainda se recupera, mas ela é uma guerreira. Quanto aos peludos dessa crônica... Bom, alguns viraram estrelinha, como foi o caso dos boxers e dos grandões Ana e Gigante. Muito triste vê-los partir vítimas dos maus-tratos que passaram antes, nas ruas, e não porque estjam velhos. Mas tem a parte alegre. Pandora, minha negona, foi adotada e é super amada. Meg, que agora tem novo nome, é a alegria da sua nova dona, que põe até lacinhos nela. E o Lucas, aquele que foi queimado... Bom... O Lucas agora é meu! Amado, querido, calmo e lindo! Depois que meu primeiro cachorrinho morreu, ano passado (de velhice e rodeado de mimos), ele veio fazer parte da família. Engordou 5,5 depois que veio para cá e se deu super bem com o meu outro cachorrinho (os dois são unha e carne). Lá no Augusto Abrigo, as adoções continuam a acontecer. E os peludos são entregues castrados, vermifugados e vacinados. Enfim, esse é o quadro atual. Muito, muito obrigada pelo comentário maravilhoso! Transmitirei à Eliane! Abraços. Cinthia Kriemler

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  2. Muito bom esse texto,, adoro animais e estou passando por uma situação muito chata... Tava voltando da lanchonete.. Dai fui atravessar a rua... Com um pouco eu so ouvi a pancada virei na hora.. Quando eu consegui localizar.. So vi o corpinho de uma vira latas sendo projetado bem longe.. Bem eu tenho 15 anos e normal qe eu fiqe desesperada.. Juntou todo mundo pra olhar .. Ninguem teve a atitude de pegar entao eu peguei levei no veterinario.. A tibia da pata teaseira dela quebrou nas duas dobras a cirurgia e quase 4mil agente nao tem condiçoes.. Ela esta mto mal e a minha unica saida e levar ela no augusto abrigo... Agora sao exatamenre 1:47 da madrugada ela esta na minha garagem uivando de dor e essa e a terceira noite qe eu nao durmo sfo procurando algum lugar pra entregar ela DETALHE ELA E DE RUA "

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