sábado, 27 de novembro de 2010

Cenário

Fui.
Passei como as flores que amarelam-se em outonos
Desfiz-me do certo, da lucidez, da vergonha
E proclamei, ainda que tardia, a quebra da mão invisível
Que me impedia a liberdade do abismo.
Não quero mais saber das cores certas para os vestidos lindos
Dos lenços que não existem mais nas bolsas
Dos sapatos de saltos obesos que caminham madrugadas
Finquei a vida no inconveniente
E desisti dos aplausos.
Desenhei um beco com saída
Um céu sem cinza-chumbo
Mas com raios.
Raios que iluminam e matam
Porque, afinal, é tudo luz.
Comprei uma cadeira de rodas
Pra me esquecer de como andar
E pratos de papelão
Pra não sentir mais o cheiro de coco do detergente na pia.
Joguei fora o faqueiro de prata arranhado.
Quebrei os cristais,
Bebi no alumínio.
Descobri que a geladeira do quarto é um passeio preferido.
Cinco latas — pares são números feios
Queijos brancos, amarelos, fedidos.
E laranjas suculentas, de casca grossa
Caldo doce.
Comprei lençóis de seda
Que escorregam o corpo cada vez para um lugar incerto
Almofadas enormes, macias, enormes e macias.
Cobri os espelhos como no luto antigo
Chamei a solidão para assistir a um filme noir.
Ofereci um gole e uma almofada enorme, macia
Emprestei meu controle remoto
E pus mais umas no congelador.
Pra quebrar o gelo.

2 comentários:

  1. bom dia Cinthia......escolhi alguns blogs para o selo do prêmio Dardos,fiquei na dúvida de colocar o seu por não saber se gostaria ou não...mas vou arriscar...gosto do que escreve e escolhi poucos blogs dentre os que gosto.Na minha página tem o selo e o procedimento...um abraço para vc...muito lindo o post acima.

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  2. Olivia Maia3/12/10 19:43

    eita! menina arretada... além de excelente contista "ataca" de poeta... (e que poeta!). aja inspiração. o poema estar lindo. parabéns menina, beijos. saudades.
    Olivia Maia

    PS: a eva disse tudo. é um blog que vale a pena visitar sempre.

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