domingo, 19 de dezembro de 2010

Adote um vira-lata! Vira-lata é chique!

Para se contar a história de um cão não é preciso conviver com ele mais que uma vez. O jeito de andar, de comer, de olhar a gente nos olhos, de nos fazer carinho ou se afastar tremendo nos diz por onde andou esse cão.
Há caminhos onde se percebe que houve o riso, um carinho, uma comida gostosa, água fresca na vasilha. Há outros, porém, em que só o que a gente consegue enxergar é a surra recebida, o olho furado, a pele queimada, a perna manca, o focinho arrebentado.
Medo, medo, medo. É isso o que se vê no olhar, na pata voltada para dentro, no recuar imediato a cada tentativa de toque.
A história de um cão pode ser feliz. Ou infeliz.  De um jeito ou de outro, isso não depende dele.
Depende do quanto aprendeu que o ser humano é bom, ou do quanto já sentiu na pele o descontrole de alguns seres que caminham em duas pernas, comem, bebem, fazem sexo, dormem e falam. E nem assim conseguem ser gente.
No entanto, estranho, mas estranho mesmo, é andar em meio a 200 cachorros que sofreram maus-tratos, atropelamentos, abandono e não ver nenhum deles, nenhum deles mesmo querer ou tentar agredir você.
O cão que já sofreu aceita qualquer migalha. Uma mão na cabeça ou no focinho, uma coçada atrás da orelha, um afago no corpo magro, uma voz suave perto do ouvido.
Aceita meio ossinho, um punhadinho só de reação, água na mão, no chão, na vasilha torta. Aceita até um pedaço de pão velho, daqueles que a gente joga no lixo.
E quando recebe qualquer coisa, olha pra você como se visse um herói, um deus. E te segue, e abana o rabo (quando ainda tem um rabo que não tenha sido arrancado por algum maluco!), e cheira a sua mão, e tem ciúme de você. Agradece, agradece, agradece!
Mas é difícil conseguir alguém para adotar um cão assim: magro, machucado, meio doente, sofrido, arredio, nervoso, medroso. As pessoas que adotam (e ainda bem que adotam!) preferem os filhotes, bonitinhos, de olhar sem histórias, com a confiança ainda intacta no ser (dito) humano. Eu entendo. Entendo, sim.
Mas segue um apelo, um apelo forte, doído e quase em desespero para quem consegue enxergar a beleza do feio!
O filhote bonitinho que mora no abrigo é filho de uma cadela feia e magra que conseguiu parir coisas tão lindas porque teve um lar! A cadela suja, tímida que nem tem todos os dentes (porque os perdeu nas latas de lixo e nas brigas por comida para alimentar os filhotes que trazia ainda do lado de dentro) amanhã vira gordinha, linda, forte e pode ser feliz. Mas precisa de ajuda para superar e vencer agora, enquanto ainda padece de falta de comida, de saúde e de amor!
Eles não falam. Com a boca. Mas a gente entende cada dor, cada alegria, cada vontade.
Superação, persistência, mudança de comportamento é o que se vê em cada um dos cães que moram no Augusto Abrigo.
Não é à toa que eles amam tanto os donos, que basta a voz baixa e educada de Eliane para que todos se acalmem e procurem por ela. Ou basta o Rafael aparecer na porta para que todos se juntem perto dele, abanando os rabos.
Se você tem amor para dar a um animal, que tal desistir de comprar ou de ir atrás de raças caras e sofisticadas?
Adote um vira-lata! Vira-lata é que é chique!

E aqui, algumas histórias do Augusto Abrigo que quero começar a contar.

Na foto, da esquerda para a direita:

Moe — um cachorrinho adorável e alegre, que foi adotado, mas foi devolvido, porque o dono disse que ele era muito... MEIGO!
Uma dupla de filhotes — o bebezinho dorme na barriga do mais velho, que também ainda é bebê, mas ambos se ajudam (e nem são da mesma mãe).
Vovô – um daschund que teve um lar por nove anos, mas sua dona se mudou para um apartamento novo, onde não se aceitam cachorros...
Uma cadela amarela – que chegou esta semana e ainda mantém as orelhas abaixadas (vejam a posição), em submissão, como quem diz, “por favor, não me batam!”
O filhotinho preto e branco – que também chegou esta semana, é um doce e gosta de dormir no colo da gente, enroscado no cabelo ou perto do coração.
Akita – um animal desconfiado, grande e que foi abandonado, mas que vem aprendendo, semana após semana, que não precisa empurrar nem correr para ganhar comida ou carinho.
Bebezito – o mais novinho do abrigo, mas valente que é uma maravilha!
Diva – a linda e meiga boxer que era usada em brigas de cachorros e só agora está podendo conviver com os outros cachorros, já que, antes, tinha medo de todos eles (não tem todos os dentes, mas faz carinho que é uma beleza!).

Um comentário:

  1. nossa.....que texto!!!!!nbão tem como não lamentar,e sentir um dor no peito.Também amo os animais e cuido dos que aparecem no quintal,jogados por crianças a mando dos pais.Eles sofrem de saudades, a fome é só uma consequencia do abandono que passa,mas a solidão demora.Gostei de mais do texto.Tomara que muitos leiam e façam essa opção.
    abraços

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