sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Minha alma é um fado de Coimbra

Deixo que a minha alma transborde todos os dias. Porque a minha alma é um fado.
Dói por um olhar sem amor, por um gesto impaciente, por um dia solitário.
Almas em fado aprendem a doer. E a contemplar a dor. E a separar a dor que machuca da dor que fortalece.
Buscam um abraço, um roçar de lábios, um cheiro de madressilva. Qualquer murmúrio, qualquer suspiro, qualquer cuidado. Um alguém que as extraia e acaricie. Um alguém que lhes faça companhia na impotência da noite gelada, ou na certeza da tarde de sol.
Mas uma alma que transborda não é um fado feminino. É fado de Coimbra.
Barítono. Sem paredes. Sem janelas.
É lamento descarado ao vento das ruas, calor de palavras pela amplidão das praças. É melodia de dores em noites escuras. De despedidas e memórias.
É alma de saudade.
Ao som das guitarras e violas de um fado de Coimbra não há olho que anseie por conter a lágrima, nem vontade que não volte a ter desejos.
Consente o coração, latejam os tímpanos, mãos se procuram, se encontram.
E sobe o coração em preces a um Deus que concede. E desalteram-se os ouvidos do jovem na lassidão das 12 cordas que choram. E encanta-se o coração do idoso com a serenata que transforma em presente o outrora.
Mulheres se entregando ao amor com mais sentido. Homens recompondo-se de tempos difíceis. Criaturas traduzidas em acordes.
A vida que me habita caminha por um fado. Um fado de Coimbra. Externo. Noturno. Barítono.
E eu deixo que transborde. Como transborda a alma lusitana.

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