domingo, 23 de janeiro de 2011

O possante e a bebedeira


Tomou o último gole da cerveja e ganhou a rua. A orla, iluminada pelos fogos de artifício, parecia um episódio de Guerra nas Estrelas. Acho que bebi demais... hehehe. Acho, não! Tenho certeza! Desistiu, quatro ou cinco passos adiante, de andar em linha reta e parou com as pernas abertas, imaginando se não seria melhor chamar um táxi e deixar o carro ali, pra pegar no dia seguinte. E se me roubarem o possante? Lindão do jeito que está, zero quilômetro... Puxa, o possante é praticamente uma virgem!
Decidiu: ia voltar dirigindo. Se estava bem o suficiente para pensar e ter consciência de que estava bêbado, então, não deveria estar tão bêbado, ora bolas! Fugiria dos guardas, andaria por ruas escuras e estreitas, mas ele mesmo ia voltar dirigindo o seu carrão maravilhoso. Hihihihi! Eu sou bom nisso de lógica. Sou do caral... Interrompeu o pensamento que causaria revolta aos ouvidos da mãe e de alguns leitores para se dar conta de que o possante não estava lá, no lugar em que ele pensava que o tinha estacionado horas antes. Um quarto do porre passou no susto. Outro quarto converteu-se em suor frio, tremedeira e uma náusea que ameaçava transformar-se em algo pior. Cerrou bem os olhos, mas com tanta, tanta força que começou a ver fulgurações flutuando entre a retina e a pálpebra. Pensa, maluco, pensa onde é que foi que você largou o carro! Bêbado, pé-de-cana, alcoool...alc...alcoo... Que merda!
Desistindo de articular as palavras, voltou a concentrar-se no carro. Ele ainda se lembrava que desistira de estacionar ao lado de uma lata de lixo que ficava quase em frente ao bar. O possante não podia ficar fedido! Mas por mais que espremesse os pensamentos enevoados não conseguia atinar no paradeiro daquela perfeição prateada. Precisava parar o carrossel desgovernado dentro da cabeça e pensar, pensar com muita calma sobre onde havia estacionado o cavalo prateado ... Merda! Cavalo prateado o caralho! Carro prateado, car-ro! Carrão!
Há meses se preparava para aquele dia. Quando, finalmente, tinha conseguido juntar o último dinheiro, fora cheio de marra até a concessionária para escolher — isso mesmo, escolher! — o carro que queria, na cor que queria, com tudo o que queria dentro! Um mês depois, recebeu a ligação com que tanto sonhava: “O carro está pronto. O senhor pode vir buscar hoje, às 17 horas”.
Às 16h40 já estava na frente do vendedor, tentando não parecer ansioso. Passados trinta minutos, saía da concessionária dirigindo o possante. Câmbio automático, bancos de couro de verdade, cheiro de carro novo no interior luxuoso, computador de bordo que só faltava dizer “eu te amo”, uma loucura!  Cara, o que vai chover de mulher! Nem quero pensar!
Primeiro passeou pela rua da praia fingindo que nem notava as pessoas. Não olhava pra ninguém diretamente, mas com o canto dos olhos conferia cada gatinha interessada, cada barbudo com inveja. Ele era um cara bonito, sabia disso. Agora então, bonito e de carro bonito, ele ia arrebentar!  Depois do passeio curto, mas lento, estacionou o carro e entrou num bar badalado. Como não havia mesa livre, sentou-se no tamborete de um balcão externo, improvisado para que os clientes esperassem sem se estressar. E tome espera. Sem conseguir uma mesa, não tinha chance de convidar ninguém para um chope. Mulher nenhuma toparia ficar de pé ou se sentar num tamborete. Por outro lado, ele não queria ir embora, porque o bar estava lotado de mulheres lindas, o chope era bem gelado e bem tirado, com um creme duplo de fazer pontinha. E, principalmente, porque tinha conseguido estacionar o possante prateado num lugar seguro e muito bom... Merda! Um lugar muito bom! Seguro! Eu me lembro! Um lugar sem perigo de multa ou de arranhão... Ao alcance da vista... Ao alcance da vista...
Desconsolado, voltou a procurar ao redor. Mexia o corpo inteiro, quase em câmera lenta, a cada vez que mudava de ângulo, já que os olhos, vidrados, não conseguiam cumprir os quatro comandos básicos: para cima, para baixo, direita, esquerda. Como é que eu fui ficar tão bêbado assim? Porra, eu só tomei chopinho! Tomei... Deixa eu ver...Três, seis, quinze... hahahaha... Só múltiplos de três, cara! Mas chopinho não me deixa assim tãããão bêbado! Eu só fico assim quando tomo ping... Caralho! Eu tomei pinga! Eu me lembro! Tomei muuuita pinga! Alguém me ofereceu uma pinga boa do ca... Tudo bem, tudo bem, chega de c-a-r-a-l-h-o! Uma pinga... danada de boa! Mas quem foi mesmo que me deu a malvada pra beber?
Enquanto franzia o nariz e a testa buscando pela memória, a náusea deu o alerta de que era chegada a tão temida hora. Banheiro, eu preciso de um banheiro! No meio da rua, não! Que fexa...vexa... Que saco! Alguém deve ter me dado um Boa Noite Cinderela... Pera aí, pera aí! Que eu não sou Cinderela coisa nenhuma! Eu sou é muito Hulk, muito Wolverine, muito... Alcançou o banheiro por um triz. Passou mal umas três vezes antes de se recompor e voltar à rua. E, como da primeira vez, a orla em festa por algum motivo que ele não lembrava agrediu os seus sentidos. Cara, esse episódio de hoje deve ser a Guerra dos Clones! Tá tudo dobrado!  
Foi quando ouviu a buzina. Uma buzininha irritante, daquelas sem personalidade, que só perturbam. De início não pensou que fosse com ele, mas o barulho chato, chato mesmo voltou a se repetir por mais algumas vezes. Com raiva do infeliz, voltou-se rapidamente para um “Psiu!” bem alto. E se psiu tivesse mais sílabas, não teria dado tempo de dizê-las todas de pé. A virada brusca fez com que se estatelasse na calçada imunda. Como é que um dia tão promissor, com tudo para ser perfeito podia terminar daquele jeito? Bêbado, carro novo desaparecido (imaginar roubado era dor que não cabia no seu peito) e sem poder chorar  — porque homem que é homem só chora escondido —, ele ainda tinha que escutar aquela buzina desgraçada. Com ódio etílico, gritou:
— Vai à merda com essa buzina do caralho, seu corno!
Ficou feliz de imediato. Nunca antes na história da sua vida ele tinha conseguido encaixar tão perfeitamente dois palavrões e um meio-palavrão numa frase só! E ainda por cima sentado numa calçada suja. E bêbado. Escutou, então, uma voz furiosa, vinda de cima: “Vai você, seu babaca!”. Sentiu na barriga as chaves que a loira deslumbrante atirou em cima dele com maus-modos, antes de ir embora apressada, cheia de moral e para nunca mais voltar.  A mesma loira que tinha lhe custado horas, chopes e pingas para conquistar. A mesma que tinha se oferecido para ir buscar o possante no estacionamento pago atrás do bar. A mesmíssima que tinha prometido levá-lo para casa e fazer sexo selvagem com ele.
Agora, ele lembrava.

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