sábado, 29 de janeiro de 2011

Petição de um estóico — Carta de um homem sobre as virtudes

Solicitação do Desafio: "Escolha uma personagem real ou criada pela imaginação e escreva-lhe uma carta, a carta de uma pessoa que vive no século XIX”. 
 
Eu te saúdo, notável Zenão de Cítio

Antes que a insensatez da exasperação induza-me a desprezar a educação que de meus pais recebi no berço, quero agradecer-te por ouvir-me. Não esperes de mim para além deste discreto e cordial cumprimento, pois que não mo permite o discernimento tecer-te loas em hora de tamanha circunspecção. Venho, sem subterfúgios, dizer-te que escrevo para uma petição que só a ti desejo fazer.
A preceder minha demanda, revelo-te acontecimentos dos quais fui e sou partícipe.

Fiz-me discípulo da tua doutrina ainda infante, por orientação de meu pai, Manoel Rodrigo Alves de Guimarães, de quem herdei o mesmo nome e o jeito de enfrentar os fatos da vida. De feição que, e pondo de lado, por necessidade, a modéstia à qual me entrego persistentemente, posso afirmar-te que é desde imberbe que sou pelas virtudes. Justiça, verdade, amizade, honestidade e caridade têm sido companheiras fieis. Acima delas, regendo-as, apascentando-as, conduzindo-as, os cordéis da conformação e da ética.
Notaste que são todas fêmeas as melhores virtudes? Ora, mas que parvoíce estou eu a dizer! Claro que o sabes, pois que foste tu mesmo a convocá-las em doutrina! O que tu não sabes é do que são capazes as fêmeas de carne e osso! A essas, falta-lhes o senso e sobra-lhes o ardil. E tendo sido eu presa incauta de um desses ardis, vi-me a cismar sobre a doutrina. Logo, logo, as reflexões tornaram-se dúvidas. E não é de bom augúrio a um homem, em seu outono, pôr-se a imaginar ter construído a sua vida sobre falsos paradigmas!
Eu sou um estóico. Um homem de preceitos rígidos. Minhas estruturas não se abalam diante de problemas, sofrimentos, infelicidade. Nem mesmo em face de alegrias permito-me emoções que me sobressaltem o espírito. Sou bom cidadão, bom filho, bom patrão. Até para os pretos, a quem livro da chibata a troco de mais trabalho. Afinal, de que serve a dor no lombo além de submeter o homem pela força? Porventura não é melhor vergá-lo e forjá-lo pelo suor do trabalho exaustivo, que o distrai dos pensamentos de ódio e revolta?
Não choro como as criancinhas e as mulheres. Não possuo cobiça. Não combato o destino. Vivo pela temperança. E por pessoa ou sentimento algum eu jamais permiti que fossem abaladas as minhas convicções, a minha austeridade. Mas agora, depois dos tais acontecimentos de que sou protagonista, não é mais assim. Porque fui confrontado em minhas próprias crenças. E minhas crenças encheram-se de dúvidas.
Ouve, portanto, essas dúvidas. E trata de não me julgares ou de tentares dar-me respostas antes que tenhas deitado luz a todos os matizes da armadilha de que fui vítima.

Casei-me tarde, aos 42 anos. E se mais não relato de minha existência antes do casamento é porque a mesma se deu sem inquietações e seguiu pelas virtudes. Não intentava casar-me, mas pediu-me o pai que livrasse da vergonha uma prima distante. A moça, já com 25 anos, estava solteirona. O fato é que seu pai, um libertino declarado, afastara da coitada, à custa de suas declarações e bravatas amorais, os olhos dos melhores partidos. O tempo correu sem deixar à infeliz nenhuma alternativa. A mãe da pobre recorreu a meu pai... Bem, interrompo-me dessa parte enfadonha para ir aos fatos mais adiante.
Tomei Abigail Maria Beatriz de Guimarães Martins por esposa a 21 de março de 1871, exatamente há 15 anos. Após dois livramentos prematuros, nasceu-nos um varão, celebrado discretamente por mim e por meus pais. Como já havia outros varões na família para perpetuar o nome do velho Sr. Manoel, ser pai não era uma prioridade minha. Mas cá estou eu novamente a divagar, na tentativa de postergar os fatos. Será receio? Eis que volto, sem demora, aos trilhos, que não é de meu caráter a hesitação.
Dona Abigail, mulher de estatura regular e cheia de corpo, não me pareceu, a princípio, ter serventia para outra cousa que não os serviços domésticos. Durou pouco tamanha imprevidência. Correndo em suas veias o sangue do pai libertino, e tendo D. Abigail habitado com ele até o dia do casamento, deveria ter eu sabido que a moça não poderia ser igual a nenhuma outra que eu conhecera. Fugiu-me um detalhe dos mais sérios: D. Abigail sabia ler e escrever! Quiçá para não causar embaraço, não mostrou-me de pronto os ‘dons’. Então, com calma, passou a comentar um livro ou outro, a escrever e esparramar pelo sobrado bilhetes corriqueiros, desentranhando lentamente a novidade. Uma mulher capaz de ler e escrever! O que se podia esperar de tal façanha?! Nada de bom, nada de bom!
Certa feita, estando sentados à mesa de jantar o prefeito, o juiz de paz e outros convivas de peso, soltou a primeira impropriedade. Eis que os homens comentavam sobre certa Nísia Floresta, potiguar, que se punha a defender direitos para as mulheres, como se a compreensão das fêmeas estivesse aberta ao aprendizado da política, das letras ou de quaisquer outras cousas que não as costuras e as compotas! Riam-se da tal mulher-macho os cavalheiros, não incluindo-me eu nessa risadaria por não ser dado a rompantes. Comentavam sobre uma obra de sua autoria, intitulada, segundo eles, Corpúsculo Humanitário. D. Abigail, sem qualquer cerimônia, interrompeu-os. O livro — corrigiu-os ela — chamava-se Opúsculo Humanitário e versava sobre a emancipação feminina. Para meu maior infortúnio, e sem um mínimo de modéstia a que deveriam obrigar-se todos os seres, minha esposa continuou falando. Aos 18 anos, tinha-lhe caído às mãos um exemplar, presente do pai. Lera com avidez. Acompanhava havia tempos — completou sem perceber as exclamações da audiência — a carreira abolicionista da escritora.
Não bastasse a vergonha pelos olhares de reprovação dos presentes, restava-me ainda a indignação de descobrir-me casado com uma abolicionista! D. Abigail lia, escrevia, e tinha opiniões próprias!
Naquela noite, após despedir-me dos convidados com mais pressa do que a polidez permitia, corri a ter com minha esposa. Exigi-lhe, de imediato, uma explicação para os disparates! Pediu-me ela, então, imperturbável, que me sentasse. E, a seguir, sem que eu pudesse impedi-la, inquiriu-me sobre minha crença na doutrina estóica. Ríspido, discorri sobre o tema. E ela, sem nunca dar-me tempo para proferir palavras suficientes, enredou-me numa tal teia de questionamentos que aturdiu-me.
Perguntou-me se me eram mais importantes a justiça, a verdade dos fatos, a honestidade de propósitos ou a opinião dos amigos. Perguntou-me sobre imparcialidade e ética. Perguntou-me, por fim, se minha fúria e opressão sobre ela não seriam, por si sós, sinais de uma desconcertante incoerência em relação à doutrinária estóica de contenção, aceitação, controle.
Abertas brechas em minha convicção, achei por bem afastar-me de D. Abigail. Não o consegui totalmente. Houve outras noites em que tentei impor-me sobre ela e que, ao invés de obter respostas, vi-me cada vez mais envolto por perguntas que jogavam-me de encontro às minhas próprias certezas. Decidido a não mais deixar-me encurralar, desisti dos embates com D. Abigail. Passei a ouvir sua lógica sem questionar ou responder.
Em virtude das imprudências verbais de D. Abigail, os amigos afastaram-se. Virei chacota de uns, motivo da ira de outros. Chegaram a acusar-me, no auge da indignação, de manter sob o mesmo teto uma conspiradora, uma traidora da pátria!
Venci, a custo, a tentação de declarar D. Abigail insana. Seria tão fácil afastá-la de mim com artifícios dessa natureza, mas não é de minha índole a calhordice. Foi quando percebi que a admirava para além de minhas contas. Não por ser tão atirada, mas por ser inteligente. Passamos, a partir de tal aceitação, a manter longas conversas sobre as virtudes.
Durante um desses colóquios, apresentou-me a filosofia Humanista. Critiquei-lhe a opção por uma doutrina anticlerical. Ela revidou pedindo-me que refletisse sobre um mundo onde os homens pudessem ser considerados por suas aspirações, por sua capacidade, e onde lhes fosse permitido, acima de qualquer outra condição, o direito à dignidade. Não nos convencíamos, mas eram agradáveis os duelos mentais daquelas noites.
Em 1981, assim do nada, sem que eu percebesse como e quanto eu já cedera a muitas cousas, D. Abigail informou-me, com sua serenidade habitual, que fizera sua inscrição na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, onde haviam sido abertas, naquele ano, vagas para moças. Moças?! Umas mulheres-macho, como a tal Floresta! Contrapus-me violentamente à decisão, mas D. Abigail não arredou pé do decidido.
As famílias dividiram-se em ofensas. A dela, sempre a favor das audácias. A minha, horrorizada pelas atitudes de minha esposa, a quem haviam “salvado de uma vida de solteirona”. Nosso filho não participava das discussões dos adultos, mas eu via em seus olhos de jabuticaba que se encantava pela ousadia da mãe.
E D. Abigail foi-se à faculdade. E sentou-se ao lado de jovens estudantes. As notícias sobre sua presença na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro alimentaram os jornais decentes, os pasquins difamatórios e as revistas para senhoras. Todos se opunham ao que chamavam de ‘ultrajante’.
Paramos de nos falar em seu primeiro dia de aulas. E sem qualquer outra frase prosseguimos nos anos, até uns meses atrás, quando, no meio de uma noite quente, levantei-me do leito com uma grande opressão no peito e uma dor por todo o braço esquerdo. Salvou-me da morte D. Abigail, uma Médica de Senhoras a quem a curiosidade e uma inabalável confiança em si mesma sempre acompanharam, permitindo-lhe ir além da especialidade que escolheu.
Anda pelas cercanias, agora, a fazer partos e a conversar com outras senhoras sobre assuntos que as afligem, como desconfortos em suas partes íntimas, dúvidas femininas e vergonhas conjugais. Antes, não podiam queixar-se ou perguntar aos seus médicos, todos eles homens.
Qualquer noite dessas, quando eu menos esperar, D. Abigail virá conversar também comigo sobre esses temas de mulheres. E sobre política, porque ainda não desistiu de fazer-me abolicionista. Dela, nunca sei o que esperar.

Finalmente, notável Zenão de Cítio, e após tão longo relato, deito no papel a petição que desde muito é de minha vontade fazer-te. Desejo que me instruas sobre algumas virtudes que não contemplaste em tua doutrina estóica.
Fala-me do amor e do respeito.

De um teu fraterno,

Manoel Rodrigo Alves de Guimarães

Um comentário:

  1. que desafio difícil....fiquei tentando começar uma carta....não dá...precisaria conhecer a escrita da época...mas achei incrivel a idéia,isso nos permite pesquisar e aprender e crescer...lindo.
    Abraços

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