quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Carta da feiticeira da Cólquida aos que sangraram pelo seu punhal

Solicitação do Desafio: "Escreva uma carta de Medéia a seus filhos"

Filhos,

Que dor maior poderia eu infligir ao desleal Jasão do que lançar ao reino de Hades a carne e o sangue por ele em mim semeados para perpetuar-se nos tempos?
Devíeis saber que é de morte que se alimenta a vingança. Mas, creio que o saibais, posto que sois parte de mim, este ser que flutua entre realidade e sortilégio. No entanto, a morte veste tantas e tão magníficas máscaras! E sacia-se a vingança em qualquer uma delas.
Não importa que pedaços de mim precisei lacerar para jogar ao fogo os sonhos de vosso pai. Antes de vós, Apsirto, cria do mesmo útero que deu-me a vida. Joguei-o em pedaços ao Helesponto para saciar Poseidon e quebrantar Eetes, o avô que não conhecestes. Por que, então, seríeis vós, pequenos seres sem significância, poupados à vossa sina?
O destino de um vivente é traçado pela dor. Sobrevivem os que a transformam em ódio.
Vós, tão frágeis, tão humanos, não compreenderíeis como alegrar o vosso espírito no ódio ou como empenhar-vos em causar tal dor. Não saberíeis perceber que há mais serventia e prazer na imposição do sofrimento do que nos vinhos que nos deitam em sonhos passageiros.
No passado, um ao qual pertenceu vosso pai, descuidei-me das minhas certezas. Encantei-me por Jasão, pela beleza do seu corpo rijo, pelo sol que flamejava em sua boca, pela urgência de seus propósitos humanos. Com ele mergulhei em outra magia, olvidando os ensinamentos de Hécate, e percorri a volúpia e o gozo ininterruptos de feéricos desejos.
Contudo, a sedução que desarmou minhas defesas foi a mais pérfida das serpentes. Jasão inoculou em mim a pútrida secreção de suas presas impiedosas. E em tal veneno banhei a mim, à minha ascendência, à minha descendência. Sangrei a minha própria carne na persecução do extermínio de vosso pai. E o faria mil vezes, e mais mil, até que nenhum sopro restasse no corpo de Jasão!
Porém, foi a dor — a dor que vos revelei domadora dos destinos — que arrefeceu-me a emoção insensata de uma fúria apressada. Jasão precisava viver a sua própria morte. Era mister esmagar não o seu corpo, mas a sua alma.
Filhos, eu conheci a traição antes de vós. E vos digo quão impotente faz-se o raciocínio perante essa mulher insaciável. Traí-vos também eu ao atacar vossos corpos impúberes com o punhal da vingança. Sei-o mais que qualquer um. Todavia, não foi a vós que matei pela lâmina fria, mas a Jasão que habitava vossos corpos, como antes habitara o meu! Expurguei-vos de vosso pai. E meu único lamento é a certeza de que perecestes sem saber que fostes concebidos em leito de amor. O meu amor.
Mas vós éreis a eternidade de Jasão! Vós éreis tudo o que eu podia arrancar de vosso pai! A vosso pai que me traiu! Traiu a mim, que por ele traí meu pai, meu irmão. Que por ele vos traí!
Compreendeis que foi desse ciclo de horrores que vos afastei ainda em vossos tenros anos? Tendes agora, em vossa nova morada, a visão daquilo de que vos livrei? Percebeis que o sangue maldito e desleal de vosso pai vos corromperia a existência, como corrompeu a minha, tão logo deitei-me com ele? E que nem mesmo a magia dos deuses poderia protegê-los dessa nefasta herança?
Ah, os sortilégios a que estaríeis expostos! O pior deles, o amor, vos afastaria das vossas jornadas vitoriosas e vos lançaria à infidelidade. Porque o sangue de vosso pai traidor vos faria zombar dos desígnios do próprio Zeus.
Mas não mais é assim. Vedes? Sofre agora o vosso pai. Vós, não mais. E é o sofrimento de Jasão que me alivia as culpas, que me faz sorrir, porque o destino cumpriu-se.
E o destino de um vivente é traçado pela dor, lembrai-vos?
O de Jasão, tracei-o eu. Assim com o vosso. E ainda o meu, feiticeira da Cólquida, sacerdotisa de Hécate, neta de Hélio. Pois que sou dor, destino, vingança.
Que os tempos se incumbam de tentar alimentar-me a memória com remorso e exasperação.
A vossa, com esquecimento.

De vossa mãe,

Medéia

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