sábado, 12 de fevereiro de 2011

Carta a um irmão Pataxó

Solicitação do Desafio: " Escreva uma carta  ao índio Galdino".

Anauê, Galdino!

Treze anos. E tua anga ainda vagueia por este mundo empobrecido de decência. Esbarro nela a cada estampido que impede de velhice um jovem, a cada corpo de criança maculado pela sordidez, a cada criatura cujo futuro termina entre as ferragens retorcidas pela covardia do álcool.
Encontramo-nos sempre — esse teu espírito sem descanso e o meu que sente vergonha — nas poças de sangue, de esperma, de ossos, de cinzas. Tu, te inquietas. Eu, me desespero. De nada adianta. É de impunidade que se saciam os homens.
Morreste em vão, irmão pataxó. Pois não há consolo na morte causada. Não há tempo para o refletir, o rezar, o despedir-se do mundo. Não há pranto nem rostos amigos ao redor. É apenas da grotesca carranca dos algozes que a memória se farta.
Cinco animais raivosos se atreveram a brincar de barbárie! Cinco assassinos te justificaram mendigo porque dormias nas ruas! Como se aos mendigos, aos desvalidos, aos habitantes do concreto e dos gramados não bastasse dividir com os ratos os papelões sujos de saliva e corpo, a comida podre e escassa!
Viste que podias ter salvado a tua pele marrom se soubessem que tinhas aldeia, filhos, irmãos, nação, estirpe? Que azar teres perdido a hora de te recolheres à pensão modesta! Que azar não teres podido dizer-lhes que eras um líder Hã-Hã-Hãe, filho de baenãs, de camacãs, de mongoiós, de sapuiás-quiriris!
Mas nada disso teria impressionado a gentalha abjeta! Não adiantaria contar-lhes que estiveras, mais cedo, com o Chefe Supremo dos homens brancos para pedir-lhe a intervenção no conflito entre teu povo e os fazendeiros. E que, por isso, teu corpo, acostumado a qualquer pouso, buscara o banco de cimento como paga do atraso. Esse tipo de corja, de canalha desconhece ato ou fato que trespasse as fronteiras do seu mundo de brilho, conforto, alienação. São incultos por vontade própria; disputam a imbecilidade como troféu a conquistar e a exibir entre tantos iguais.
Azar. Nisso quiseram transformar o teu infortúnio. Azar o quê! Que se resgate a verdade: atrocidade, atrocidade, atrocidade! Foi em atrocidade que se consumiu a tua pele naquele 20 de abril! Nem por brincadeira, nem por susto, nem por acaso. Não quando tudo o que nos cerca são armas, taras, ódios. Não quando tudo o que nos sufoca são adolescências depravadas, maturidades omissas.
Mãos cheias de afagos esperavam por teus assassinos em casa, nos tribunais, nas cadeias. Decisões cheias de afagos afastaram os teus carrascos de uma longa penitência. Ganharam uma reprimenda, um susto, um puxão de orelhas orquestrado por advogados regados pelo dinheiro que seus pais investiram em lavar consciências.
Afinal, só mataram a ti, Galdino, um índio. Um índio que se parecia com um mendigo.
Diante desta minha fúria, alguns me pedem piedade e complacência. Querem fazer-me imaginar que poderiam ser minhas as crias que se sentaram naquele tribunal. Querem convencer-me de que eu mesma não permitira punição a um filho meu.
Não sei. Não posso, honestamente, dizê-lo. Porque pari e fiz crescer seres humanos. Porque eduquei meus filhos no amor e para o amor. Porque castiguei pequenos deslizes, orientei pensamentos, deitei-os a dormir em limites que lhes permitirão existir bem depois da minha partida. Eu cuidei em parir homens. E seria por demais injusto que agora, no calor das emoções desencontradas, eu os compare a aberrações.
No entanto, tive pena dos pais. Não pelo medo em seus olhos, ou pela dor em seus corações, ou por sua vergonha exposta nos jornais. Tive pena da honra que não percebi em nenhum deles. Do seu egoísmo. Da desesperança que há para eles e para seus filhos assassinos. Das mentiras que vivem em suas casas perfeitas, em seus mundos irreais.
Continuo a lembrar-me de ti, irmão Pataxó, naquele banco que se cobriu com o preto da fuligem. Teu berço de morte.
E a memória da dor me conduz mais além, e mais, e mais até que nossas angas se esbarrem de novo. Sei, nesse momento, que há, ao meu redor, alguma poça de sangue, de esperma, de ossos, de cinzas.
Amanhecem, assim, muitos sóis neste planalto de diversidades. Na minha fé, nenhum.

De tua irmã de alma,

Um comentário:

  1. Olivia Maia18/2/11 16:07

    oh! menina, ler um texto que me arrepiou a cada frase. que me fez contato com as feridadas profundas da existência, e me tirou lagrimas. muitas... chorei! isso basta pra falar do que senti.

    Cada dia melhor, como escritora!!!!! Te admiro muito.

    (aguardo com grande ansiedade teu livro... para nosso deleite... não se demore... Brasilia precisa de escritores como você).
    obrigada amiga, beijos.

    Olivia Maria Maia

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