quinta-feira, 10 de março de 2011

O balanço de madeira

Sou uma contista. Mas acabo escrevendo e publicando mais crônicas do que contos, porque aquelas são mais rápidas e factuais do que estes. Para um blog, a crônica vai melhor, dizem alguns. Mas, de vez em quando, eu preciso ser fiel às minhas preferências. Este conto faz parte do meu livro "Para enfim me deitar na minha alma" e o estou publicando em meio eletrônico pela primeira vez.   

O balanço de madeira

Faz muito tempo que não venho aqui. Com um pequeno esforço vou lembrar exatamente quanto tempo faz, mas, por ora, um barulho vindo dos fundos chama a minha atenção e me atrai.
Deixe ver se ainda me lembro... 47 passos da porta da sala até o quintal... mas se eu der passadas largas, consigo reduzir quatro ou cinco. Enquanto coloco um pé depois do outro no friso reto do ladrilho, me recordo de quando Joana eu apostávamos quem chegava primeiro ao balanço de madeira. Eu sempre ganhava, embora soubesse que era uma aposta sem sentido. Com nove anos, minhas pernas eram maiores e mais firmes, mas, mesmo assim, Joana insistia em competir.
Durante anos foi assim, até que, numa manhã de chuva branda, eu a encontrei sorridente, me esperando no balanço. Foi aí que percebi que tinha crescido e era mais alta, mais magra e mais ágil do que eu. Mas meu desaponto não durou um fôlego, porque Joana, com sua voz aquecida, apenas me olhou e disse: “É muito chato chegar na sua frente! Eu gosto de te encontrar me esperando”.
Se eu pudesse saber, teria percebido que aquela frase se tornaria uma verdade constante nos anos que se seguiriam. Eu, embora mais velha, passei a vida competindo por alguma coisa e me deixando magoar pelas perdas. Joana, dócil, encarou os problemas com naturalidade e fez das conquistas um evento corriqueiro, elegante. Nem quando ficou viúva com dois filhos pequenos ela se queixou ou esmoreceu.

Alguém deixou uma torneira aberta. Meu ouvido é afiado para o barulho de água. Talvez eu deva ir ver o que é... Não. Estou muito cansada e preciso de um banho antes de me encontrar com as pessoas.
Enquanto minhas pernas tentam subir o primeiro lance de escadas, o passado grita:
− Luiz! A água da bica está escorrendo! Quebra a mão se fechar?
Tonha ainda está viva! Essa voz meio rouca, meio de falsete é inconfundível! Quantos anos ela deve ter agora? Setenta e dois, setenta e três, eu acho. Num minuto a água para de escorrer, mas ela continua os resmungos contra meu sobrinho:
− Menino preguiçoso! Não sei quem foi que você puxou! Se acostumou mal porque a Tonha está aqui pra fazer tudo, não é mesmo? Tonha cozinha, Tonha lava, Tonha arruma a cama, Tonha fecha a bica. Menino mimado!
A voz se afasta antes que eu tenha tempo de alcançá-la para um longo abraço. A mesma Tonha de sempre, chamando a si mesma na terceira pessoa. Há muitos anos, me disseram que isso é coisa de gente insegura. Mas se isso é regra, Tonha é uma exceção. Desde que nasci, o rosto negro é a única moldura de que me lembro em volta do meu berço. A mão de Tonha me segurando para andar, o sorriso incentivando minhas bobagens de criança, o cafuné na cama. Tonha nunca foi insegura. Aliás, Tonha não pode ser definida por regras ou medidas. Eu mesma nunca entendi como ela sempre foi capaz de se multiplicar entre o fogão, a pia e as brincadeiras que fazia conosco e, anos mais tarde, com os filhos de Joana.
Minha primeira frustração foi o dia em que perdi a corrida até o balanço para Joana. Os passos que ela aprendera a dar, mais largos e mais rápidos do que os meus, tinham feito mais que ganhar uma corrida: quebraram a minha autoconfiança. E eu me senti cheia de um sentimento que depois aprendi ser tristeza. Tonha, como sempre, estava lá, com as suas lições de vida.
− Cara feia pra mim é fome – disse ela, tentando me abraçar e me animar. − Acho que um chocolate pode estar perdido aqui no meu bolso, querendo ser mordido por uma menina bonita e cheirosa.
−Não quero! - respondi com maus modos.
− Xii! A coisa tá feia mesmo! Nem quer ver o meu chocolate...
− Não! – gritei.
− E por que tudo isso?
− Porque eu perdi para a Joana a aposta de ver quem chega primeiro no balanço.
− Ah! Só isso?
− Só?! Eu nunca perdi pra ela, nunca, nunquinha!
− Perdeu hoje.
− Ih! Para, viu! Pode parar! Até você?
− Perdeu, perdeu, perdeu.
Nem meus movimentos bruscos soltaram os braços de Tonha. A cada tentativa, mais ela me abraçava forte.
− Me solta! Eu tô mandando!
− E desde quando você manda?
Comecei a chorar alto, mas não adiantou. Tonha me prendeu até que tudo o que restou foi um soluço entrecortado, sem forças. Só então ouvi de novo sua voz:
− Perde hoje, ganha amanhã. É assim que a vida é.
− Mas é ruim...
− É, é ruim. Imagina então como é que foi para a Joana esses anos todos, perdendo, perdendo, hein? Ela também achou ruim.
− Hã, hã. Coitadinha, né? Primeira vez que ela ganha. Esses anos todos perdendo, perdendo... Que horrível, né, Tonha? Foi bom ela ganhar hoje. Pra não ficar triste.
− Isso mesmo.
− Amanhã eu ganho de novo.
− Ou ela...
Antes que eu emburrasse de novo, Tonha mudou de assunto:
− Chocolate mole é bom?
− Não.
− Então corre e come este aqui porque senão vai virar mingau de chocolate – disse, me entregando minha barra preferida.
Chego, finalmente, ao meu quarto, o terceiro depois do topo da escada. Tudo está impecável, como sempre. O casarão, mesmo velho, possui conforto em cada um dos cinco grandes quartos, todos com suíte, fiação elétrica restaurada e móveis modernos. Mas o que é isso?! Onde está a minha cama entalhada? E o guarda-roupa que fazia par com a cama? Abro assustada a porta do banheiro e vejo que até o armário de laca sumiu. Meu primeiro impulso é descer na mesma hora para perguntar sobre o acontecido, mas a necessidade do banho me vence. De qualquer forma, Joana não parece estar em casa e é melhor perguntar diretamente a ela sobre essas mudanças não autorizadas no meu quarto.
Enquanto a água bem quente me alivia o cansaço, escuto um carro sendo ligado e, logo a seguir, a voz de Tonha, gritando:
− Luiz, já tô pra tirar o jantar, menino! Isso lá é hora de sair?
− Deixa guardado que depois eu esquento, Toninha – ele grita de volta.
Toninha? Essa é boa! Nunca pensei que alguém conseguisse diminuir ainda mais o nome da pobre Maria Antônia.
Bom, Luiz acaba de sair sem eu ter tempo de falar com ele. Maria Fernanda, minha sobrinha, mora em outra cidade, desde que se casou. Pelo visto, restamos na casa Tonha e eu, mas ela não me viu entrando e é capaz de achar que sou um ladrão. Vou descer e dar um alô.
O cheiro de peixe grelhado captura meu estômago vazio e um instinto garante que vem acompanhado de purê de batatas batido com ervas e molho de mel e mostarda. Antes de entrar na cozinha, o barulho de metal de correntes desvia a minha atenção de novo para o quintal. Tenho certeza de que é o velho balanço se agitando em boas-vindas. Desisto do peixe e sigo em direção ao barulho, mas quando abro a porta dos fundos vejo que o balanço está parado. Engraçado... nem tem vento. Com certeza é minha memória me pregando peças. A volta à casa de meus pais está me fazendo ir e vir no tempo. Sem pressa, me viro novamente para o cheiro divino do peixe de Tonha, mas, assim que dou as costas ao quintal, escuto outra vez o rangido do balanço atrás de mim. Pelo visto, estou mais cansada do que imagino.
Dentro da cozinha, caminho silenciosamente até Tonha e a abraço por trás, estalando um beijo em sua bochecha gorda. Ela se volta e apalpando o meu rosto, pergunta:
− Berna?
De repente, percebo que Tonha não enxerga. Seus olhos sem brilho miram o vazio além de mim.
− Bernadete, é você mesma?
− Claro que sou, Tonha. Não me conhece mais?
− Mas...mas...
− Tonha, o que foi que aconteceu com os seus olhos? - mudo de assunto para evitar a emoção.
− Velhice.
Uma dor de cabeça vinda do nada faz minhas têmporas latejarem; me sinto tonta.
− Preciso comer alguma coisa, Tonha - peço.
Em silêncio, ela termina de aprontar o jantar.
− Sente aí - diz, apontando a mesa como se pudesse ainda ver.
Faço isso, ansiosa por comer o cheiro bom que toma conta da cozinha.
− Eu ouvi meu sobrinho saindo. Joana também foi passear?
Ela não me responde e eu não sei por que está tão ranzinza.
− Tonha, por que é que você está esquisita comigo?
Sem me responder de imediato, ela põe a mesa e espera eu me servir antes de se sentar ao meu lado.
− O que é que você veio fazer aqui, Berna? Você sabe quanto tempo faz que você foi embora?
− Muito tempo... - sussurro.
− E voltou por quê? Por que agora?
Por que isso, por que aquilo. Que droga!
− Tonha, qual é o problema?
− Você não sabe?
Agora, estou realmente assustada.
− Não, não sei de nada!
− Joana está doente. Está com aquela doença ruim.
Eu não escuto. Não quero escutar. Não esperei tanto tempo para voltar para encontrar a minha irmã doente! Joana é saudável, mansa, adora a vida, não guarda mágoas. Eu não quero essa verdade! Joana não tem nada!
− Mentira! Quem disse isso?
− O doutor.
− Esses médicos não sabem de nada!
− É, pode ser. Mas o destino sabe.
Não tenho tempo para as superstições de Tonha e estou magoada pelo fato de Joana não ter me dito nada  porque eu estava distante.
− Os meninos sabem?
− Sabem, mas não imaginam que a mãe está no fim. Joana prefere desse jeito.
− Pare de falar assim! Eu quero vê-la. Em que hospital ela está?
− Hospital nenhum. Está lá em cima, deitada.
− Ela está em casa? Mas que loucura é essa?!
Sem me responder, Tonha se volta para a pia. E eu aproveito o que se rompe entre nós para subir correndo as escadas, até o quarto de Joana.
No primeiro instante, só a escuridão me rodeia. Depois de acostumar a vista, vejo primeiro os cabelos castanhos sobre o travesseiro e, em seguida, o corpo magro de Joana coberto pelo edredom pesado.
− Quem é? – pergunta ela com voz sumida.
− Sou eu. Bernadete.
− Berna! – exclama, dessa vez com um pouco mais de vigor.
− O que isso, minha irmã? Dando um susto em todo o mundo?
Ela estica os braços para mim, esperando que as minhas mãos encontrem as dela, trêmulas. Aperto com força aqueles dedos finos e frios e me aproximo para abraçá-la.
− Você veio porque eu estou doente, não é?
− Não, eu nem sabia. Foi a Tonha quem me disse, agora há pouco, na cozinha.
− Você esteve com a Tonha?
− Estive.
Joana parece, de repente, ainda mais sem forças.
− Eu estou no fim, Berna.
− Não fale bobagem, Joana! Você ainda vai viver muito!
− Não, não vou. Senão você não estaria aqui.
− Eu? Mas eu já lhe disse que nem sabia que você estava doente!
− Você veio por mim, Berna.
E antes que eu consiga retrucar, seu corpo magro se aninha com suavidade no meu.
Num canto do quarto, vejo agora a silhueta de Tonha, com as mãos apertadas.
− Minha menina descansou, finalmente!
Quero alcançá-la para enxugar suas lágrimas grossas, mas ela não sabe mais que estou ali.
De pé ao meu lado, sorridente, Joana me desafia:
− Aposto com você que chego primeiro ao balanço!
− Calma, mana. Desta vez, vamos chegar juntas – digo, tomando a sua mão na minha.
Pouco depois, as correntes do balanço de madeira voltam a ranger, agora num vaivém incessante.

3 comentários:

  1. que lindo Cinthia...obrigada pelos minutos que passei aqui me deliciando com seu conto .....amei.

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  2. Cara colega do Forum de Escritores!
    Parabenizo-a pelo blog e pelos belos textos que produz. Virei mais vezes.
    Deixo aqui meu reconhecimento e o convite para você me visitar:
    http://carlosmorandi.blogspot.com
    Grande abraço,
    Carlos Morandi

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  3. Eu já tinha lido no livro... mas aqui me emocionou ainda mais!

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