terça-feira, 22 de março de 2011

Por um fio

Foto: Google Imagens

Após algumas horas de conversa, mensagens, tweets, meu celular descarrega a bateria. Procuro, ansiosamente, o carregador, e me encontro frente a um emaranhado de fios pretos, de mesma espessura, colocados... não...melhor dizendo, embolados dentro de uma caixa sem tampa. Qual deles? Lei de Murphy! O último que desemaranho do monte, já sem paciência.
Não podem ser todos meus, penso, e me ponho a desemaranhar o resto. Vamos lá... Este é o carregador do meu celular do trabalho. Este outro é do meu celular anterior, mas que ainda funciona e fica de standby para quando o mais novo pifar (eles sempre pifam e em horas incríveis!). Este terceiro é do celular da minha filha e eu não sei como nem por que veio parar com os meus. Este...Este...Ah, sim, este é o das visitas!
Sim, as amigas de minha filha têm todas o mesmo modelo de celular. Não sei dizer se é moda ou promoção, mas são iguais, acredite quem puder. Uma delas esqueceu este carregador por aqui há uns dois ou três meses e como ninguém sabia de quem era, ficou de reserva para elas mesmas, nos fins de semana em que dormem em minha casa . Chegam, desesperadas, de madrugada, de alguma festa, e precisam de um celular “vivo” no dia seguinte, porque fulano vai ligar, sicrana vai chamar para um churrasco, beltrano tem que dizer se descolou ingresso de graça para isso ou aquilo.
Quantos fios mesmo? Cinco. Ué... Mas tem um sexto querendo sair da caixa. De quem é?
— Achei! — escuto o grito esfuziante da minha filha, que sem a menor cerimônia praticamente arranca da minha mão o fio desconhecido.
— De quem é isso? — pergunto, antes que ela desapareça com a mesma rapidez com que entrou.
— Do Bié, mãe!
Ah, sim! Então, agora, eu guardo também o carregador do celular do namorado dela. Como é que eu posso ter me esquecido do Gabriel? O Bié de todas as horas, de todos os lanches, de todas as viagens em família, de todas as pizzas... Ah, o Bié dos meus pecados! Dono do 6º carregador. Justo. Um a mais, um a menos...
Colocado o celular para carregar (o meu titular), preciso de alguma coisa para ocupar os dedos nervosos enquanto estou à toa. A casa está arrumada; com a cozinha não tenho intimidade; os cachorros já desceram. Pego o notebook em cima da cômoda e me alojo confortavelmente na cama, colocando-o sobre o tripé que comprei para me dar conforto. Morto. Completamente morto. Não liga nem para desligar em seguida, com aquela mensagem “Conecte-se a uma outra fonte de energia”. E agora? Onde está a fonte do note? Pensa cabeça, pensa! "Siga o fio", digo a mim mesma, e começo a procurar o fio preto e longo da fonte. Pelo menos, este é mais comprido e mais grosso, me consolo, para logo em seguida perceber que não foi um texto muito bem construído. Mas, decididamente, não encontro a fonte. Deve estar no quarto da frente, perdida entre as bagunças de minha filha — quem mandou ter notebook igual?
Irritada, me jogo entre os travesseiros e almofadas macios que compõem a minha Cama de Rainha (Eu a preparei para esse fim e posso usar, orgulhosamente, o apelido. Algum problema?). Minhas mãos já estão para apertar o controle da TV, quando me lembro do Ipad que me dei de presente. É isso mesmo: algumas pessoas ganham; eu compro. Na primeira gaveta da cômoda, sem muito uso, o tabletão preto dorme em sono esplêndido (o berço é seu, o sono é meu, certo?). Acordo o dorminhoco. Uma clicadinha e... Nããão!!! Morto! Nada! 0%! Isso já virou sacanagem!
— Quem usou o meu Ipad??? — grito para a única “quem” que mora comigo.
— Eu e o Bié. Por quê? Vai sonegar, agora, vai?
Pqp!!! Pqp!!! Além de usarem, ela e o mané, ainda me deixam com a bateria arriada?!
— Onde é que está o carregador? — pergunto, na esperança de não receber como resposta o famoso “Sei lá”.
— Sei lá!
Sem comentários. Jogo o meu corpo cansado sobre a cama e esperneio como uma criança pequena. A minha vida agora é assim: sempre por um fio. Ui! Essa doeu!
Enquanto tento achar alguma graça no trocadilho desgastado, escuto o último grito, vindo do quarto em frente:
— O carregador do Ipad deve estar aqui pelo meu quarto, em algum lugar. Mas você vai achar fácil. É o único fio que é branco.
Pqp de novo!!! E por extenso!!!

4 comentários:

  1. Adorei, é bem isso.
    Martha

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  2. Excente, Cinthia. Você escreveu, com precisão e senso de humor, a crônica de todas famílias de hoje. Eu mesma, que moro sozinha, já vivi duas vezes situações parecidas com amigas desligadas que levaram meu carregador.

    Muito gostoso o seu blog.

    Beijos

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  3. muito bom, me identifiquei com essa confusão...fios,nossas vidas estão enroladas em fios.
    Sabe o que ví hoje num blog que sigo,um concurso de contos e logo lembrei de vc.O blog é"Um pouco de mim", está nos meus blogs.Vou participar porque isso me coloca com pessoas que pensam e gostam do mesmo que eu, mas vc que é uma contista....dá uma passada por lá e veja se gostaria de participar.Um abraço e bom final de semana

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