segunda-feira, 9 de maio de 2011

A cadela-líder

     Em uma ninhada de cachorros é possível identificar, já nos primeiros dias de vida, um animal que se destaca. Levanta a cabeça mais do que os outros quando escuta ruídos, chega primeiro à teta mais gorda de leite, inicia brigas e brincadeiras com mais frequência, entrega-se aos perigos com arrebatamento e por curiosidade. Cresce o cão-líder da matilha. Não porque é o mais forte, mas porque é o mais destemido, o que se permite tentativas e riscos, o que atiça o bando e o mantém unido, conduzindo-o às atitudes atrevidas, aos recuos estratégicos, às conquistas inesperadas.
Nova Iorque é uma cadela-líder. Uma fêmea que desmistifica a crença de que é do masculino que brotam as atitudes ousadas. Machos são estáveis. Não se sentem bem fora da estabilidade, dos patamares previsíveis e prospectados que se permitem alcançar. Fêmeas são hormonais, viscerais. Transitam com naturalidade, e ilimitadas, entre a incerteza, a vontade, a impetuosidade, os altos e baixos. Fêmeas sangram. Sangue de cio. Cio que atrai um, que atrai todos. Nova Iorque é essa fêmea intensa e casual; divina e mortal; materna e cortesã. Uma fêmea atenta, inquieta. Uma mulher despudorada. Uma entidade instável. Incubadora e parideira. A megalópole de poluição intensa, cortada pelas trilhas verdes do Central Park, onde joggers, ciclistas e visitantes cativos ou ocasionais se reabastecem de tranquilidade. Do Guggenheim a 18 dólares por visita, repleto da arte de vanguarda de Picasso, Miró, Giacometti e de outros notáveis. A cidade das luzes que se espraiam por ruas insones em fractais inesperados. Da Broadway onde os musicais fazem esquecer a contenção dos gastos e a contenção do aplauso. Da vida que pode ser eternamente noturna. Do sexo constante e conturbado — mais constante do que conturbado. Da Tolerância Zero que reduz drasticamente os índices de criminalidade, mas que aumenta, também drasticamente, a xenofobia contra negros, latinos e asiáticos, expondo um racismo aparentemente incruento que sobrevive em mão dupla por todos os Estados Unidos da América.
Nova Iorque sangra em contrastes.
Na entrada da baía, a Liberdade erguida em estátua. Um paradoxo a confrontar o Ato Patriótico assinado após o ataque terrorista às Torres Gêmeas do World Trade Center. Defesa nacional ou pretexto?, parece questionar a esfinge, testemunha do impacto causado pela tragédia do 11 de setembro de 2001 à soberania norte-americana, quando caíram por terra não apenas vidas e destroços, mas a ilusão de um poder acima de qualquer poder. A Big Apple do ir e vir de todas as gentes recuou em sua maior vocação, a liberdade. E, defesa nacional ou pretexto, tornou-se exposta a fragilidade dos Direitos Humanos defendidos e propalados pela maior nação do mundo: mostraram-se incoerentes dentro de sua própria casa.
Mas Nova Iorque é corpo que desloca-se na contramão do óbvio, cérebro que desorganiza-se por opção. É da sua natureza cosmopolita abster-se de julgamentos, ou, antes, considerar todos eles. É da sua trajetória renovar-se na capacidade de não se render às decências instituídas pelo senso comum, e reeditar-se pela experimentação das diferenças, pelo multiculturalismo, pelas crenças formais e informais, e pela mestiçagem que a fizeram Capital do Mundo.
Nova Iorque é uma cadela-líder.

Um comentário:

  1. Nem mesmo o 11 de setembro conseguiu destruir o pedigree dessa cidade,que a cada dia mais se torna comparativa as demais,causando furor por suas diversidades.Realmente uma cadela lider.
    Seu texto é tão bem estruturado.....gosto muito

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