quarta-feira, 18 de maio de 2011

Escolha

     Todo o mundo sabe do meu amor pelos animais. É um amor inclusivo, que não compete com o amor que sinto pelas pessoas. Não por todas elas, confesso. Mas por gente de verdade, que sabe errar, cair, acertar, ter dúvidas, ter certezas, errar de novo, sem nunca desistir de caminhar em direção ao seu próprio crescimento e ao crescimento dos que estão ao seu redor. Amo as crianças, essas criaturas pequenas, frágeis e, no entanto, tão imensamente cheias de força e encantos. Amo os idosos que souberam envelhecer sem se tornarem implicantes ou amargos, e que se superam todos os dias na busca de felicidade: dançam, passeiam, namoram, cozinham, aprendem coisas novas e ainda têm tempo de espalhar experiência com delicadeza. Amo os jovens, que ensinam tanto a quem estiver disposto a ouvir com atenção entre os “porra”, os “caraivéio” e os “sem noção” que repetem a cada duas frases. E também os adultos que se dispõem a doar, em vez de apenas sugar e cobrar o sentimento alheio. Portanto, não tenho receio quando escrevo sobre os bichos, porque eles também fazem parte da Criação. Pelo menos da minha.
     Quando me decidi a ir conhecer o Augusto Abrigo, oito meses atrás, sabia o que ia encontrar. Cachorros e gatos com problemas de abandono, ou machucados de propósito pelo homem (bem... aqui, trata-se apenas de uma denominação), com câncer, velhos, recém-nascidos abandonados em lixeiras, amputados. Preparei os olhos, a mente e os sentidos para me encontrar com animais tristes, desconfiados, arredios e até mesmo agressivos.
     Mas não foi assim que aconteceu o nosso encontro...
     Apesar das barbáries que vi naqueles corpos queimados, arranhados, rasgados, surrados, encontrei rabos que abanavam para mim o tempo todo. Encontrei focinhos que se colocavam nas minhas mãos, insistindo em carinho. Encontrei os que roçavam na minha perna enquanto eu caminhava. Encontrei os que me pediam colo e subiam em mim para um beijo roubado. Encontrei animais felizes porque pertenciam, finalmente, a algum lugar, alguém.
     Gente e bicho é isso: pertencimento. Precisamos fazer parte de alguém, de um grupo, de um Deus, de uma filosofia, de nós mesmos. Ah, sim, de nós mesmos em primeiro lugar! Tudo flui quando nos pertencemos em primeiro lugar. E que não se confunda pertencimento com posse! Um é compartilhamento; o outro, anulação. Um é superação; o outro, desvio. Por isso, quando abri a internet hoje e vi a foto do cachorrinho Minhoca em sua cadeirinha de rodas, tive certeza do milagre que o pertencimento causa.
     Minhoca chegou ao Augusto Abrigo há cerca de um mês. Tinha sido atropelado e abandonado por dias no acostamento de uma rua. Três semanas atrás, quando o conheci, arrastava-se com extrema dificuldade pelo chão e recebia água e comida na mão. Estava arrasado, física e psicologicamente. Uma semana depois disso, já corria apenas com as duas patas da frente, sem se importar com as traseiras, sem movimento. Comia sozinho, bebia sozinho, mas ainda era um cãozinho assustado, de cabeça baixa, olhar perdido. Hoje, não. Hoje, na foto, Minhoca levanta a cabeça orgulhoso na cadeirinha de rodas que ganhou da protetora Natália. Ele, agora, é pleno!
     Afinal, somos ou não somos todos assim? Nós, pessoas, indivíduos racionais? Precisamos do resgate, do calor, da mão estendida. Às vezes, mordemos por não sabermos expressar com gentileza a nossa dor, o nosso sofrimento, a nossa revolta. E precisamos da compreensão dos que esperam com paciência pelo nosso tempo de cura, dos que fazem de tudo para que sejamos reintegrados ao direito de felicidade para o qual fomos projetados e destinados.
     Minhoca é um cão de sorte porque tem em volta dele humanos de verdade. Os de mentira chutam cães, batem em idosos e abusam de crianças. E não se iluda, só existem dois lados nessa história de saber amar: o lado iluminado dos que respeitam todas as formas de vida; o lado escuro dos que não respeitam nenhuma.
     Escolha.

2 comentários:

  1. Bela crônica. O afeto é tudo.

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  2. Vim parar aqui, seguindo imagens do Minhoca, pois vamos lançar uma rifa para ele hoje e acabei lendo o texto. Lá pela metade do segundo parágrafo, comecei a achar tudo tão redondinho, uma redação tão agradável que me deu curiosidade de saber quem era o autor. E olha só quem é! Fico orgulhosa de ser amiga dessa pessoa tão talentosa com as letras e desse coração tão lindo, grande e amoroso! Parabéns!!

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