segunda-feira, 23 de maio de 2011

Sobre jogadores e trapaceiros

A hipocrisia é uma chaga moral. Alimentada no seio das sociedades de todas as épocas, sua prática ganha ainda mais força na contemporaneidade. O mundo do agora aprimora-se na dissimulação. E a mentira nossa de cada dia justifica-se em nome da polidez, da necessidade de ganhar o pão, do temor à autoridade constituída, da falta de opinião nascida do hábito de não pensar. Interesses de momento que convêm ao coletivo e que se autolegitimam em consensos costurados pela manipulação dos dominantes, em geral minorias que arrebanham seguidores pelo viés psicológico ou pela força. Tornamo-nos, assim, uma sociedade voltada ao julgamento, à aceitação ou à negação das consequências, esquecidos — por conveniência ou alienação — de que são as causas que carecem de luz.
Assim é com a velha e batida discussão acerca da liberação dos jogos de azar, uma polêmica que teve início com o decreto de Dutra, em 1946. A proibição dos jogos de azar em todo o território nacional nada mais fez do que lançar os jogos a um novo status. Cassinos e jogadores passaram à condição de clandestinos. E o jogo, que se queria extinto, acirrou-se ainda mais com um novo combustível: o prazer do proibido. Acrescente-se a isso a modernidade cada vez maior das práticas de corrupção, prostituição e outros ilícitos que passaram a enxergar na clandestinidade dos cassinos o cenário ideal para sua proliferação e aperfeiçoamento. Se, antes, sob a pretensa vigilância do Estado, já se fazia comum que máfias e cartéis desenvolvessem com parcial facilidade os seus negócios no ambiente dos cassinos, que dirá depois, nos esconderijos protegidos por seguranças armados onde passaram a ser montadas as salas de jogos.
Não falta quem culpe os jogos de azar pelas mais sórdidas desgraças. As igrejas, que os responsabilizam pela falência financeira, ética e espiritual da sociedade. O Governo, que expele, de público, discursos inflamados contra a prática clandestina, mas faz vista grossa aos inúmeros e conhecidos locais de jogatina no Brasil, onde homens públicos, empresários e cidadãos comuns perdem com frequência vultosas quantias em dinheiro, bens móveis e imóveis. Consequências, sempre as consequências.
Os bingos, ignorados durante muito tempo, produziram tragédias pessoais de igual monta àquelas geradas nos cassinos. As loterias — legalizadas e oficializadas — conduzem alguns cidadãos comuns, assim mesmo, no presente do indicativo, a gastos que vão muito além do que lhes permite o orçamento minguado. O jogo do bicho, cujos lucros beneficiam o tráfico de armas, de drogas e de influência, há tempos entrou para o rol das práticas banais no País. Coerção, proibição, decretos não impedem nada! Sequer a simples legalização dos jogos teria força para consertar esse quadro de tragédias ligadas à dependência, e que se multiplicam sob vários nomes. Porque o vício, a falta de consciência moral tornou-se uma endemia que atinge ambos os lados da mesma questão: os que jogam e os que fornecem o ambiente de jogo. Uns, em busca da sorte. Outros, em busca de tolos.
Estabelecer, portanto, um limite razoável entre os que procuram os jogos de azar pelo prazer da diversão ou pela compulsão não é matéria de simples análise. A esses últimos, apliquem-se os tratamentos psiquiátricos, ou os rigores da lei. Mas, que lei? Como aplicar a lei àquilo que oficialmente não existe? A quem punir? A quem cobrar? Para quem enviar a fatura de um pai desmoralizado, de um apartamento perdido, de um suicídio?
Num país como o Brasil, onde a presença de um poder regulatório é constante na vida dos cidadãos, causa estranheza que não se consiga planejar e realizar um projeto sério que contemple não só a legalização dos jogos de azar, como também, e principalmente, a interferência, o controle do Estado sobre essas práticas. Um projeto que leve em consideração os milhares de empregos que são ou que poderiam ser gerados nas mesas de Black Jack, de Stick Poker ou nas roletas. Que considere medidas punitivas contra o lucro exagerado das bancas, que crie categorias especiais de impostos para taxar os cassinos, que obrigue parte da reversão dos ganhos para entidades com fins sociais, que impeça os endividados de terem novo acesso aos jogos. E que fiscalize tudo isso. Sem ingenuidade, sem cinismo.
É claro que, ainda assim, correr-se-ia o risco das trapaças. Somos — por opção e incapacidade de nos percebermos cúmplices — um país de corruptos. Não apenas os que se constituem em autoridades e personalidades das áreas pública e privada, mas nós, os cidadãos sem cargo ou visibilidade. Somos uma nação onde a corrupção do povo se estabeleceu gradativamente, por imitação dos exemplos ou por má índole. E abaixo da corrupção do povo nada mais há.
Somos hipócritas, manipuladores. Mas nos agrada mais que essas qualidades sejam atributos que possamos execrar nos vizinhos, no político de ocasião, no empresário que sonega. Nós? Nós não somos hipócritas! Jamais pagamos ao flanelinha por uma vaga melhor na porta do teatro, ou damos dinheiro ao garçom para que uma mesa vague por milagre no barzinho lotado. Nós nunca colocamos nossa mãe idosa na fila especial do banco, para que ela pague as nossas contas de água, luz, telefone. Nós nunca usamos as expressões: preto, gordo, aleijado, bicha. Nós nunca deixamos de declarar nem os pequenos itens no imposto de renda. Nós nunca trocamos a nota alta do filho por um Nintendo Wii, ou por um Iphone, um Ipad ou qualquer outra coisa que tenha uma maçã mordida estampada em algum lugar. Nós? Nunca!
Não é do vício do jogo, ou do dinheiro sujo lavado pelo jogo, ou do que o jogo compra que se precisa ter medo. É preciso ter medo da ineficiência do Estado que não se esforça sequer em tentar seriamente liberar e regular o jogo, nem se livrar das pressões de grupelhos que se apossam da propriedade das verdades. É preciso ter medo do que tentam impedir aquelas igrejas que se sustentam em dízimos absurdos, ou do que querem impor aquelas que jogam para baixo do tapete a pedofilia praticada em templos e sacristias. Recear, igualmente, o que se ouve nas pregações que ensinam aos homens que calar-se e deixar-se flagelar os levará direto ao céu. É preciso chamar de louco o homem que deixa a família sem nada para apostar nas cartas. Ou nos cavalos. Ou no dominó da esquina. Ou nas loterias do Governo. Precisamos, em coletivo, temer as nossas incoerências, as nossas máscaras frágeis, as nossas hipocrisias.
Para não serem eles os jogadores. Para não sermos nós os trapaceiros.

Nenhum comentário:

Postar um comentário