terça-feira, 19 de julho de 2011

Pertencimento

Foto: Google Imagens
          Uma das coisas que mais têm me feito bem é o pertencimento. Não, não me refiro à posse, esse exercício nojento de ter, de ser dono, de usar das pessoas como objetos, ora colocando-as numa prateleira-altar, ora num chão-purgatório. Pertencimento é saber-se e querer-se integrado, é participar com o útero (Está bem, homens, acabo de me lembrar de vocês graças a uma brincadeira que a escritora Betty Vidigal fez comigo da primeira vez que usei essa expressão numa comunidade literária!), participar com o falo e com alma de alguma coisa que nos dá prazer, com a qual comungamos e que nos identifica. O pertencimento protege, permite o caminhar sem máscaras, por que entre iguais. E olhe que a expressão nem faz parte do dicionário, de tão especial que ainda é! Quem sabe, no próximo Houaiss...
          Pertencimento é deixar a alma andar descalça, abrir mão da maquilagem dos gestos, falar verdades com gosto de gentileza, só para variar. É arrancar os grilhões sem pressa, lembrando que cada corrente tem sua hora de ir embora, cada elo tem seu momento para se desfazer. É carregar o fardo sem careta, mas livrar-se dele no instante exato em que deixa de ser fardo para tornar-se um flagelo masoquista. É permitir-se uma tristeza profunda, arraigada, dessas que muitos teimam por aí em chamar de depressão, mas que não é não! É tristeza mesmo, dessas bem simples... Quer dizer, simples não, que tristeza nunca é simples. Mas é um jeito de deixar-se chorar, por dentro ou pra fora, sem que alguém ofereça um frasco de calmantes, de ansiolíticos ou de sei lá mais o quê que se possa comprar em cartelas ou potes para esconder o que só precisa ser aliviado. Puxa! Tristeza faz parte! É o velório da morte e o parto do novo! O que não faz parte é ser triste eternamente. Aí, vira desistência...
          Mas vamos lá! Pertencimento. Acredite em mim, é um negócio danado de bom! É um lugar sem geografia, um espaço público em que nada é físico, mas tudo é real! É sensação de banho depois de maratona; de hotel, depois de estrada; de quietude, depois do tsunâmi. Pertencimento é estar com um, com cem, com muitos que se aproximam de nós pela entrega. Ou estar consigo mesmo nessa mesma entrega. Tanto faz. É bom do mesmo jeito.
          Eu encontrei o meu pertencimento na literatura, nos textos, nas palavras que permito que se abracem e sem beijem e façam amor umas com as outras, em orgias causadas pelos dedos que nunca querem cessar. Às vezes, elas fazem paixão. Ou desesperam-se em despedidas, ou agitam-se em tentativas, ou enfezam-se e dão-se as costas. Não importa. É sempre amor, explícito ou implícito, o que fazem as minhas palavras, mesmo quando mal escritas, mal descritas. E por meio delas sou, finalmente, pertencimento. 
          Adoro disso!

6 comentários:

  1. Até dói quando leio o que você escreve. Lindo demais. Saudade.

    ResponderExcluir
  2. Lindo e cheio de verdades esquecidas. Beijos

    ResponderExcluir
  3. Adorei, muito lindo.
    Beijos
    Martha

    ResponderExcluir
  4. Olivia Maia20/7/11 16:24

    Ufaaaaa!! Acabei de ler sem fôlego.
    beijos

    ResponderExcluir
  5. Pra variar, lindo texto.
    Amooooooo.
    Bjs,
    Patrícia Goulart

    ResponderExcluir
  6. "...tristeza nunca é simples." "...ser triste eternamente... é desistência." Querida Cinthia, seu texto sempre me fortalece para seguir viagem.

    ResponderExcluir