quinta-feira, 28 de julho de 2011

Nas areias de Alá

   Ahmed Zahou puxou com força a mão da pequena Maarula, escondendo-a em meio ao grupo de homens e mulheres que se movimentava lentamente pelo deserto, em suas darras e melfas coloridas. A menina correu para o meio das outras crianças, misturando-se com elas às cabras, enquanto os pesados utilitários começavam a rodear a caravana. Momentos depois, cinco veículos fecharam o cerco ao grupo de saaráuis e deles saltaram soldados marroquinos, empunhando submetralhadoras. Dirigiram-se sem hesitação ao grupo das crianças, obrigando-as a formarem duas filas ao longo da areia. De um lado, e de costas, 11 meninos; de outro, as meninas, num total de sete. Um a um, cada menino era trazido até a frente do grupo feminino, e uma única pergunta era feita:
— Qual o nome desta menina?
Em seguida, um soldado o devolvia à caravana, impedindo-o de retornar à formação para que não se comunicasse com as outras crianças.
Quando foi a vez de Maarula, Ahmed fechou os olhos e pediu que a mão de Alá estivesse sobre ela.
— Qual o nome desta menina? — perguntou o oficial que arrastava a pequena com brutalidade.
— Safia — foi a resposta de todos.
Assim que os veículos se afastaram, Ahmed correu em direção à menina, abraçou-a e, voltando-se para Meca ainda com a neta nos braços, fez uma pequena prece de agradecimento. Ele estava exausto das lutas, mas ainda não podia entregar-se ao paraíso. Maarula precisava dele para escondê-la e protegê-la dos soldados, dos oportunistas, dos curiosos. Os soldados marroquinos não se importavam em mandar para a prisão mulheres, crianças e até mesmo bebês de colo, e Ahmed sabia que os pais da menina haviam sido levados por aqueles homens, há alguns anos, tendo sido assassinados por eles.
— Avô, avô — puxou-o pela darra a menina, preocupada com o seu olhar distante. — O que foi, avô?
— O vento que virá me buscar não demora muito, Maarula, mas Alá me diz que ainda há tempestades por vencer — ele respondeu, entregando-se novamente aos seus pensamentos.
Em pouco tempo, a caravana retomou a caminhada, mas a pequena Maarula não voltou para perto das cabras. Virando-se para Ahmed, disse, em voz baixa:
— Vamos voltar, avô.
Apesar de não se surpreender mais com as atitudes da menina, Ahmed queria certificar-se de que havia um sentido naquele pedido.
— Tem certeza? Faz pouco tempo que viemos...
Recebeu um olhar compadecido, como se a neta compreendesse o seu cansaço.
— Está atrás de nós, e não adiante? — insistiu o homem.
A menina segurou a mão do avô com delicadeza, puxando-o de volta para o caminho que haviam percorrido. Andaram por mais de uma hora, até que Ahmed avistou o corpo semi-enterrado na areia.
— É ele?
Sem responder, Maarula apressou-se até o homem caído sob o sol, a quem as areias da tarde já começavam a cobrir. No rosto de pele branca, os dois olhos pareciam ter sido arrancados por falcões. Um sangue ainda fresco e abundante escorria pela face do estrangeiro, e havia ferimentos por todo o seu corpo. Os gemidos, muito fracos, demonstravam que a morte ainda não chegara para aquela colheita. Entretanto, poucos metros além do corpo, um Jeep capotado revelava a presença de outros dois homens, esses, sim, mortos. Esparramados pela areia, câmeras e equipamentos de filmagem amassados formavam um cenário bizarro, desconformes com a limpa imensidão do Saara Ocidental. Um rastro mais forte, vindo do veículo até o homem de pele clara, mostrava que ele havia se arrastado até ali. Duas varetas de metal, que provavelmente haviam sido os objetos que feriram os seus olhos, estavam caídas ao lado do corpo, também sujas de sangue.
— Mas é um estrangeiro, Maarula! Não pode ser! Você não teria recebido o chamado para salvar um infiel! — enfureceu-se Ahmed.
— É ele, avô. Alá me diz que o estrangeiro precisa viver.
Incapaz de compreender, Ahmed viu a menina abaixar-se e colocar as duas mãos miúdas sobre os olhos do ferido, permanecendo assim por um longo tempo. Então, Maarula pediu ao avó que a ajudasse a levar o estrangeiro até o acampamento saaráui.
— Até o acampamento?! Mas menina, eu sou um velho! Não consigo carregar um homem grande e forte como esse! Ainda mais que ele já está com um pé no mármore do inferno! Um infiel!
— Pode carregá-lo, avô. Alá me diz que você consegue.
Ao tomar o corpo desmaiado do estrangeiro nos braços, Ahmed percebeu que o fardo igualava-se ao peso de um tapete de orações. E mesmo acostumado às maravilhas que vivenciava ao lado da neta, assustou-se com o poder da menina. Algumas horas mais tarde, no acampamento saaráui, entrou na pequena casa de adobe levando, sem esforço, o homem sobre o ombro, seguido por curiosos e pelas mulheres que o ajudavam com os serviços domésticos. Colocou o corpo desacordado sobre um dos tapete e ordenou às mulheres que o limpassem.
Durante dias, o estrangeiro quase não teve melhora, mas ainda era possível que sobrevivesse, embora os dois buracos no lugar dos olhos, agora cicatrizados, mostrassem que ficara cego. Então, num momento em que as mulheres cozinhavam e cerziam, distraídas, ouviu-se uma voz aflita, em espanhol:
— ¿Donde estoy?
Ouvindo o idioma colonizador, as mulheres assustaram-se e tentaram levar Maarula para longe do homem, mas a pequena desvencilhou-se delas e sentou-se no tapete, ao lado do ferido, respondendo-lhe também em espanhol:
— Na casa do saaráui Ahmed Zahou.
Subitamente, o homem colocou as mãos sobre os olhos e estremeceu. Tentou levantar-se, mas caiu novamente no tapete e, desesperado, começou a agitar os braços ao seu redor, como se quisesse tocar em alguém, ou talvez encontrar um apoio para erguer-se.
— Quem é você? — perguntou ele, falando precariamente a língua dos saaráuis.
— Maarula. E você?
— Pablo... Pablo Echeverria.
Ahmed, chamado pelas mulheres que haviam corrido atrás dele, entrou em casa nesse momento, assustando o estrangeiro.
— Tem mais alguém aqui? — inquietou-se o espanhol.
Mas antes que o avô pudesse responder, Maarula tampou a boca do ancião, dizendo ao estrangeiro:
— Por que é você não vê por si mesmo quem mais está aqui?
— Porque eu estou cego! — berrou o homem, furioso.
— Alá me diz que não está — retrucou a menina.
Aproximando-se do ferido, Maarula colocou as mãos sobre os olhos dele, como fizera no deserto. De início, Pablo empurrou-a, mas ela insistiu e ele rendeu-se ao calor daquelas mãos pequenas que cheiravam a terra do deserto. Levemente, após alguns minutos, Maarula afastou-se dele, dizendo:
— Você não quer mais ver quem está na casa, Pablo Echeverria?
No lugar dos dois buracos que antes cicatrizavam no rosto do homem, dois olhos negros assombrados abriram as pálpebras, e as mulheres saaráuis começaram a entoar um tebraa. Ahmed Zahou sentiu que chegara o momento que tanto temera. O segredo das curas de Maarula, que guardava há anos, dividindo-o apenas com os saaráuis, que a respeitavam e igualmente protegiam, como ele, estava agora revelado a um estrangeiro. A um estrangeiro, um infiel! Deu-se conta, então, de que Pablo Echeverria deveria ser um jornalista, já que viajava com uma equipe de filmagem no Jeep que capotara. E preparou-se para matá-lo ali, sem dar-lhe tempo de colocar em perigo a vida da neta. Mas antes que avançasse sobre o estrangeiro, ouviu a voz de Maarula.
— Ele não vai me entregar aos marroquinos, avô. Alá me diz que a minha vida caminhará com a vida de Pablo Echeverria.

                                                          *****

O Cardeal Echeverria teve vontade de se recusar a receber o sobrinho. Desde 1999, aquela história se arrastava. Ele não sabia mais como explicar a Pablo que a Igreja de Roma não tinha nenhum interesse em prosseguir com um processo tão estapafúrdio! Uma muçulmana beatificada pela Igreja Católica! Ele não sabia onde estava com a cabeça quando cedera à insistência do sobrinho e comprometera-se a enviar à análise da Congregação para as Causas dos Santos o pedido de beatificação da menina Maarula Zahou. Seis anos já haviam se passado desde que Pablo retornara da África, depois de meses desaparecido. Além da sua própria história de cura milagrosa, trouxera relatos e filmagens de saaráuis, mas também declarações de soldados marroquinos curados por ela, e de homens santos da Mauritânia que tinham recorrido à menina em segredo. Protegida pelo silêncio cúmplice do povo simples, e pelo medo de marroquinos e mauritaneses em revelar que a conheciam, Maarula ainda estava viva, sabe-se lá vivendo em que canto do Saara. Tantos anos e esse cabeça dura não desiste! Isso já passou de todos os limites!, pensou o cardeal, enquanto se dirigia até o sobrinho, disposto a livrar-se dele de uma vez por todas.
— Pablo, há anos eu venho tentando dissuadi-lo dessa ideia ridícula que você trouxe ao Vaticano, mas vejo que com educação e indiretas não consegui fazê-lo enxergar o tamanho do disparate. Sua insistência beira à insubordinação, à heresia! Pois a minha paciência acabou! A Santa Sé não tem intenção, não quer e não vai dar andamento a esse processo de beatificação. Maarula Zahou é muçulmana, professa como religião o islamismo e...
— E por isso não pode ser beata nem santa. Então, tio, quer dizer que o senhor está me enrolando esse tempo todo? É isso mesmo que eu entendi?
— Exatamente isso! Uma muçulmana não pode e não vai virar santa! Você não pode ter pensado, nem por um segundo, que eu ia incomodar a Congregação com um assunto desses!  Era só o que me faltava!
— Pensei, sim, cardeal. Pensei que era obrigação da sua igreja investigar a história de Maarula. Mas já que a Igreja de Roma não se interessa por fatos e provas, então não me resta mais nada a fazer do que publicar essa história que guardo há tantos anos, e deixar a opinião pública decidir se Maarula é ou não uma santa. Afinal de contas, é minha obrigação como jornalista contar ao mundo o que eu vi, o que outros viram. Mesmo com seis anos de atraso, vai ser uma manchete e tanto: “Menina saaráui faz milagres de cura, mas Vaticano diz que muçulmana não pode ser santificada”. E, no dia seguinte, outra manchete: “Ecumenismo da Santa Sé é só para cristãos”. No terceiro dia, a notícia vai envolver mais gente, meu tio: “Vaticano faz política de boa vizinhança com Marrocos e Mauritânia, impedindo que o mundo conheça os milagres da saaráui Maarula”.
— Chega! — gritou o cardeal Echeverria completamente fora de si. — Eu não admito chantagem! Não há nada, nada que eu possa fazer!
— Há, sim. Duas coisas. Primeiro, converse com os membros da Congregação sobre o que eu acabei de lhe dizer, porque eu falo sério sobre publicar as matérias. Depois, peça a eles que escolham um padre, o mais descrente, o mais cético, o mais severo de todos e o enviem até os acampamentos saaráuis para procurar por Maarula. Depois de estar com ela, vamos ver o que a sua igreja tem a dizer.
Embora reticente, o Cardeal Echeverria sentiu-se aliviado por lhe custar tão pouco para se ver livre daquela história irritante. 
Uma semana depois, a Congregação para as Causas dos Santos enviava o Padre Bertrand Donatello à África. Era um preço pequeno a pagar para evitar um escândalo envolvendo o Vaticano. Bertrand era conhecido por ser impaciente, intolerante, cético e muito inteligente, já tendo comprovado fraudes religiosas em várias partes do mundo.
                                                            *****

Maarula despediu-se das mulheres mais velhas e saiu da casa de adobe no fim da tarde. Ao longo dos anos, ninguém mais lhe perguntava aonde ia, nem questionava o adiantado da hora. Ela retornaria e, no dia seguinte, saberiam de mais uma cura, de mais um milagre.
Um pouco antes de a noite cair, tirou do rosto o pano vermelho como qual o cobria e dirigiu-se a um grupo de homens caídos entre algumas cabras. Colocou um deles sobre o ombro direito e retornou ao seu acampamento como se não carregasse um fardo bem mais pesado que o seu próprio corpo. No tapete estampado, ao lado do fogo, pôs as duas mãos sobre a testa do homem e entoou um tebraa. A anciã que entrava na casa naquele momento cobriu a boca com as mãos, e a mulher ao seu lado soltou um grito:
— Por Alá, Maarula, esse homem está morto!
— Pois Alá me diz que não está — respondeu ela, com serenidade.
E permaneceu ali por várias horas, com as mãos sobre a testa do desconhecido, onde um imenso ferimento mostrava o lugar em que tinha sido atingido pela arma marroquina.
Às duas horas da madrugada gelada, o homem abriu os olhos, desorientado, apalpou o ferimento da testa, benzeu-se e permaneceu quieto por um longo tempo. Enquanto terminava o terço silencioso, lembrou-se, subitamente, do momento em que fora atingido por um dos soldados que atacavam o acampamento saaráui, onde ele se encontrava de passagem.
— Eu morri! Eu estou morto! — gritou, olhando para Maarula com grande desespero.
— Não, Bertrand Donatello, não está mais. Alá me diz que você precisa viver.

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