sábado, 3 de setembro de 2011

Estranho meu

São os estranhos que mais me comovem. Não a família, nem os colegas, nem os filhos. Esses são obrigações que se leva, muitas vezes, como um fardo desajeitado e indesejado.
Meus estranhos são feitos de partilhas mágicas: não precisam de motivo, não agem por interesse. Esbarram em mim na rua, na internet, no banco lotado; e entregam tanto, e se doam tão ilimitadamente que eu me sinto sem graça em não saber ser assim, como eles, tão desarmada.
Meus estranhos são aprendizados do bem. Um que me sorri, um que me presta a atenção, um que me abre uma porta, um que me oferece compreensão calada. E tem os que me admiram do nada, os que me oferecem um lenço invisível ao marejar dos olhos, os que reconhecem no meu rosto, na minha voz, nos meus gestos um momento triste, um dia azedo, uma dor disfarçada. E simplesmente ficam, permanecem alguns minutos, guardiães dos meus temores, das minhas dúvidas, das minhas mortes.
Quero abraçar cada um pela amizade muda que me emprestam, sem intenção ou plano. Fazer com que compreendam as coisas que já evitaram em mim, os sangradouros que estancaram, os furacões que transmutaram em ventos de outono. Dizer-lhes que me comovem, me comovem, me comovem! Por sua gentileza fugidia, por sua luz bem dosada, pela despretensão com que vêm e vão em cenários simples e inesperados. Quero, até, candidatar-me em retorno a lhes reconhecer os gestos e as feições, e ser como eles, solidariamente imprevista.
Mas corro o risco de conhecê-los. E de, os conhecendo, transformá-los em amigos. Aí, deixarão de ser estranhos. E de me comover. E se tornarão como os outros, obrigações que se arrastam em meu espaço, às quais permito o fingimento, mas pouco a emoção.
Não! Meus estranhos não podem correr riscos.

3 comentários:

  1. Olivia Maia5/9/11 11:40

    Você me comoveu, me comoveu, me comoveu!
    Mando beijos cheios de carinhos na condição de uma amiga "desconhecida".
    Gosto dos seus escritos (e de você mais, e mais)
    Olivia Maia

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  2. O que nos salva é o estranho.

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  3. Pronto! De repente lamentei ser sua amiga... Podemos começar tudo de novo? Ao chegar na COREP, nem vou perguntar seu nome.

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