sábado, 24 de setembro de 2011

A hora da cria

Talvez tenha chegado a hora do corte
um que seja suturado a linha que não rompa
É assim mesmo, devagar
processo de risos e de sofrimentos
que se parte o cordão
umbilical
angelical
infernal
Nossos tempos se desencontram
Uma a gostar da multidão, da estridência, do exagero
Outra a recolher-se em silêncios cada vez mais calados
Feito de ausências que algazarram por dentro
Um corte que me permita ser
mais e mais
invisível
E a você, sol escaldante
que se esparrama para baixo e para os lados
atraindo, cuspindo calor
só não mais para mim
Eu sou ocaso,
Você, le printemps
Eu, cansaço e portas trancadas
Você, descoberta, gargalhada
e um foda-se apontado para cada tristeza imbecil
Somos, uma com a outra, anulação
Eu, armadilha que suga
os seus passos de dança espontâneos
Você, energia que míngua
me empurrando para cima
nos meus degraus que só descem
Então, é corte
A seco, à queima-roupa
Pode ir
Cria uma vida que seja só sua
Que já joguei fora o útero.

2 comentários:

  1. ...suturado a linha que não rompa... ausências que algazarram por dentro... meus degraus que só descem... já joguei fora o útero... Lindas imagens, especialmente a última. Traduzir dor em poesia é sofrer menos?

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  2. Fantástico. Pra variar.

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