quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Um dia especial, assim, à toa...

Eu não sei se fui aprendendo com as porradas que levei na vida — e foram porradas mesmo, portanto, não posso e não vou chamá-las de outra coisa —, mas só sei que porrada serve pra gente descobrir que amar é uma vontade múltipla que depende só da nossa decisão e direcionamento.
Não existe isso de amo fulano mais que beltrano, amo esta casa mais que a anterior, amo este homem e nunca mais amarei ninguém! Não! Amor não mede nem se mede, não calcula, não quantifica, não compara. É igual a ter orelhas, braços, pernas, dentes... Uma coisa natural. Só que amor é um membro que a gente não arranca nem mesmo quando está necrosado.
E ninguém vive por aí dizendo que gosta mais de um braço que do outro, de uma perna que da outra, de uma narina que da outra, de um hemisfério do cérebro que do outro. Tudo é necessário, tudo tem função, tudo tem beleza e tudo causa preocupação.
Amor é o conjunto da obra. É uma bagagem, sim, que a gente traz do que recebeu dos pais, dos amigos, do mundo. Mas amor é opção. Conheço gente que teve tudo para dar errado. Deu certo. E deu certo porque desenvolveu amor uma, duas, 327 mil vezes, como se amor fosse o rabo de uma lagartixa: cortou, nasce outro.
Quando me tornei dona do meu nariz, há muitos, muitos anos, descobri uma coisa ainda melhor: que eu podia amar a três por quatro, podia amar fosse o que fosse, gente, bicho, planta, objeto inanimado. Mas, acima de tudo, que eu podia amar sem ninguém se intrometer na minha vida pra dizer “esse aí você pode amar; aquele outro, não”.
Foi nessa época que descobri o amor imenso e intenso que tenho pelos animais, pelas crianças, pelos abandonados. E que tive a certeza de que nenhum desses amores era maior que o outro. São, apenas, amores.
Ah, e não foram poucos os blábláblá que tive que aturar ouvido a dentro! “Gente que adora cachorros é gente frustrada, triste, solitária”, ou então, “O dinheiro que você gasta com essa comida de cães podia alimentar duas criancinhas carentes”.
Com licença? E algum de vocês lá sabe em quê e como eu gasto o meu dinheiro? É da conta de alguém o amor alheio? Em que inferno vivem vocês, vigilantes de plantão? A quem vocês ajudam? Como ajudam? Chatos de plantão, respondam: onde foi que vocês aprenderam que amor é excludente?
Uns anos atrás, quando eu ainda saía pra barzinhos e voltava de madrugada, tinha uma turma de mendigos que ficava perto de uma pizzaria. Na hora de ir embora, tinha sempre um pra pedir dinheiro. “Dinheiro eu não dou, mas se quiser uma pizza...” Era na hora! Fui ficando conhecida e a pizza virou um meio bate-papo de bebuns de madrugada. Eles, de lá, na cachaça. Eu, de cá, na minha eterna cervejinha. Até que chegou o inverno e um deles me disse: “Dona, hoje não tem pizza que segure este frio da porra””. Fui para casa e encontrei minha mãe, com quem morava, ainda acordada. Contei pra ela. Sempre contei tudo para ela. E, de repente, vejo a velha fuçando no fundo de um armário embutido. Subitamente, feliz da vida, ela me diz, com uma manta na mão: “Achei! Esta aqui é bem quente mesmo! Leva lá! Anda logo!”. Eu fui.
Com os animais é diferente. Eles não falam. Não pedem, não reclamam, não tomam umazinhas comigo. Com as crianças, a mesma coisa. De um lado, latidos e miados. De outro, choro e balbucio. E muito amor no meio. Mas voz mesmo que é bom, palavra, explicação... Nada!
Tudo isso me veio à tona hoje; Hoje, que era para ser mais um dia bobo de calor infernal e seco em Brasília. Hoje que acabou virando um dia especial. Por causa do Naldo, da Ludmila e do Bonnie.
Logo pela manhã, o Naldo, um menino que eu conheci com 10 anos de idade, tocou o interfone para me contar, rindo à toa, “de besta”, que a primeira filha tinha acabado de nascer e que ele estava esperando a hora das visitas para ir ao hospital (pobre tem filho em hospital público, onde não cabe “bagagem”, só a parturiente!).
Pois salve, Ludmila, que vai ter vida melhor que a do seu pai, que é um guerreiro na lavação de carros, na pintura de camisetas para a Mico Leão, na cobertura das férias do rapaz da distribuidora de bebidas. Menina, você enterneceu o meu dia e me trouxe um calor diferente, suportável: o calor da vida!
E salve Bonnie, cujas notícias recebo pelo Facebook, agora à noitinha. O Bonnie é um cachorrinho de apenas seis meses, submetido a uma cirurgia neurológica ontem. Diz a notícia que ele está passando bem, a despeito das probabilidades. Ele é um dos mais de 320 animais do Augusto Abrigo, um lugar para cães e gatos abandonados e maltratados nas ruas ou pelos seus donos, que não recebe qualquer doação do governo e que sobrevive às custas de dinheiro (é claro), mas, acima de tudo, do amor de Eliane Zanetti, a melhor alma que andei conhecendo nos últimos tempos.
É que as duas notícias me deixaram igualmente feliz. Gente e bicho fazendo do meu dia corriqueiro um dia muito especial, um dia cheinho de amor sem rótulos.
Assim, à toa.


3 comentários:

  1. Anônimo8/9/11 21:20

    Adorei, parabéns mais uma vez pela crônica.
    Bem tia Ignez mesmo. Eita saudade dela. Beijocas.

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  2. Para algumas pessoas não há dia corriqueiro.
    Estou quase me tornando dona dos meus amores e desamores, e vc é um grande exemplo.

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  3. Olivia Maia12/9/11 19:15

    Plac...Plac...Plac...(de pé).

    beijocas

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