domingo, 30 de outubro de 2011

A biodiversa

Ilustração: Google Imagens

Aos meus amigos e parentes geeks,
que realmente acabam por chacoalhar o mundo!



Com vontade de inovar, e de saco cheio de ser mal compreendida, ela arrumou para si um rótulo:
— Sou biodiversa.
Metade das pessoas com quem convivia não teve coragem de perguntar o que significava ser biodiversa. Uns poucos ficaram em dúvida. E um número bem reduzido lhe disse, com aquela cara azeda dos patrulhadores: “Esse nome não existe!”.
Existir, podia até não existir. No dicionário. Mas no mundo de gente de carne e osso existia. Ela tinha acabado de inventar. Existentíssimo, então!
Estava cansada de ser clichê, lugar-comum. Queria a atenção do mundo. Bem... Pelo menos do mundo próximo, que ficava entre os colegas da faculdade e os meio-conhecidos da balada do fim de semana, passando, obviamente, pelos pais exigentes e pelos dois irmãos nerds.
Nerd, não! — irritava-se o mais velho — Geek!
— ... ?! Seis? Meia dúzia?
— Não amola! Aprende, ô burrinha, vê se aprende! A diferença entre nerds e geeks é que nós, geeks — enfatizou orgulhosamente o “nós”, apontando para o próprio peito! — fazemos acontecer!
— Quem disse?
— Richard Clarke, filhinha! Mas, claro, você nem sabe quem é!
Não, não sabia mesmo. E nem queria saber. O que queria era se ver livre daquele ridículo, metido. Como é que a mamãe fez isso aí?!, pensou, enquanto o irmão continuava falando como uma maritaca.
— ... e nós, geeks, abominamos a conformidade. Nós temos objetivos, somos criativos e detestamos os lugares-comuns!
Pronto. Lá estava o nervo exposto dela incomodando!
— Quer saber? Vocês, nerds — provocou ainda mais — são todos uns pirados! E muito chatos!
Saiu, como sempre, batendo a porta. Só depois de uns instantes é que percebeu que tinha saído do próprio quarto. Mas não ia voltar pra ver a cara de gozação do irmão!
E foi assim que depois de muita pesquisa, e baseada no fato de se considerar uma grande defensora dos animais e da natureza, decidiu chamar a si mesma de “biodiversa”.
A oportunidade de provocar os irmãos chatos veio na hora do almoço.
— Você insiste nessa história de ser vegetariana? — perguntou-lhe a mãe, enquanto tentava empurrar-lhe para o prato um bife mal-passado.
— Eu não sou vegetariana. — disse pausadamente, saboreando o que viria a seguir — Vegetarianos não comem carne. Eu sou bem mais que isso. Eu me preocupo com o conjunto dos seres vivos. Eu me preocupo com o bezerro desde que ele é gerado na barriga da vaca. Eu me preocupo com a qualidade da semente que vai para o chão ser plantada. Eu me preocupo com o passarinho que ficou sem ninho porque a árvore foi podada. A árvore que serviu para fazer a madeira destas cadeiras aqui, por exemplo. Não, eu não sou vegetariana. Eu sou biodiversa!
A mãe encarou-a, sem soltar a travessa onde os bifes ainda fumegavam. O pai arqueou as sobrancelhas, esperando o fim do discurso. Mas o irmão mais novo, sempre na patrulha, retrucou:
— Hahahaha! Essa palavra não existe, burrinha!
— Não existia. Agora, existe. Igualzinho aconteceu com nerd e geek — ela devolveu, seca.
— As duas palavras já existiam! — riu, novamente, o caçula.
— Mas não com esse sentido!
— Que sentido?
— De sabe-tudo, de gente que se acha mais inteligente que os outros. Como vocês dois — disse, apontando para os irmãos.
— Como é burrinha! Geek não é nada disso, filhinha! Nós, os geeks — Ai, como ele era um eco do mais velho! — somos pessoas que nunca estamos satisfeitas com o instituído! Nerd, geek são conceitos, criatura desprovida de cérebro, conceitos sobre pessoas que mudam o mundo!
Metido! Usando esses termos só para impressionar o papai e a mamãe”
— Então, eu sou geek! — soltou ela, doida para ver o impacto das suas palavras.
Pego de surpresa na armadilha da irmã, o caçula olhou para o irmão mais velho em busca de ajuda. No entanto, tudo o que obteve foi silêncio.
— Você? Geek? Hahahahaha! Você não é geek!  — divertiu-se o mais jovem.
— Como não? Nerd, geek são conceitos! Conceitos sobre pessoas que mudam o mundo! Foi você que disse! Conceitos que substituem o “instituído” — repetiu, mais debochada ainda.
Então, olhando para o mais velho, continuou:
— Nós, geeks — disse ela, batendo o indicador no próprio peito — abominamos a conformidade... Não é mesmo, maninhos? Nós fazemos acontecer!
Exultante, levantou-se, olhou para os bifes sobre a mesa, e finalizou, ante os quatro pares de olhos que a seguiam:
— Richard Clarke, gente!

3 comentários:

  1. Palmas para a biodiversa e para você. Amei! Beijos

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  2. Rótulos e rótulos... Vivemos mesmo a era da padronização... Muito bom, Cínthia! Vc é 10! E isto, é uma nota, não um rótulo!

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  3. Que texto mais dinâmico e divertido! Ao mesmo tempo chama atenção para uma das tendências entre "s biodiversos" e o vegetarianismo.
    Gostei!

    Um grande abraço

    Maria J Fortuna

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