quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Ei, eu também sou mulher!

Então, é assim. O Governo passa a assumir o que é e o que não é correto para as minorias. O comercial da Hope, da Gisele, é um exemplo claro e inequívoco (eu sempre quis usar essa expressão!) de que nós, mulheres, estamos protegidas pelos nossos governantes. Huhu!
Uma ova!
Ao meu redor, mulheres sendo diagnosticadas com câncer de mama. As que podem e as que não podem pagar por exames preventivos não o fazem, muitas vezes, porque não são informadas corretamente, persistentemente de que o medo é o pior inimigo do corpo e da cabeça. Campanhas ocasionais, quando deveriam esta na mídia todos os dias, alertando, ensinando, alertando, ensinando. Todos os meses deveriam ser rosa, e não apenas outubro.Ao meu redor, ainda, mulheres sem dentes, ou cegas, sem dinheiro para dentistas e oftalmologistas. Mulheres que apanham dos maridos, dos amantes, a despeito da Lei Maria da Penha que há cinco anos começou a punir esses monstros — e que os punirá até que o Governo permita que a lei seja afrouxada, como já se está tentando. E outras, que acham que sofrer é inerente à condição de ser mulher, ou que cuidar dos filhos é obrigação da mulher, ou ainda que fazer o jantar e varrer a casa é tarefa feminina, mas que a decisão de fazer sexo pertence com exclusividade ao macho-residente. Mulheres sem ninguém por elas. Não para protegê-las, mas para ajudá-las na subida.
Essas são as mulheres fabricadas pelos governos assistencialistas, paternais. Pelos governos que atuam sobre as consequências, ignorando as causas recorrentes. E se falo sobre "essas mulheres" é porque não falo de mim, nem de você. Mas falo de alguém que eu conheço, de alguém que você conhece. Sua amiga, sua colega, sua empregada, sua vizinha. Alguém que vive com o olho roxo, alguém que só grita por dentro, alguém que sofre e aceita, achando que tudo é “desígnio de Deus”. Você, assim como eu, distingue as mulheres sem forças: as mulheres a quem chamamos de "essas".
Mas, afinal, o que é que a Hope tem mesmo a ver com isso? A quem se destina aquele comercial das calcinhas e soutiens usados pela gloriosa Bündchen? Aquele que ensina que a melhor maneira de enganar o marido é se vestir de sexo e abrir as pernas para “pagar” pela fatura estourada do cartão? A mim, com certeza, não é! Meu corpo avantajado (hoje eu escolhi as expressões a dedo!) não me permitiria caber em nenhuma daquelas peças preconceituosamente feitas para mulheres magras, saradas, estereotipadas.
A Hope não me deseja, gente! Mas o governo quer me proteger da Hope!
Não das panicats ou das mocinhas que rebolam no Caldeirão do Huck, ou ainda de qualquer outra que apareça de biquíni, peitos empinados e cara de “me coma” nos inúmeros programas de TV e revistas! Não, o governo não quer me proteger da cada vez mais deprimente banalização do corpo feminino, do universo feminino. Quer, sim, me proteger de um comercial medíocre de calcinhas e soutiens, que a exemplo de tantos outros (que mostram fogões maravilhosos, palhas de aço que vão limpar a minha panela, mães amorosas levando os filhos para o colégio) só serve para tentar convencer as mulheres-menos de que é só disso que elas são capazes: comprar, mentir, fazer sexo, limpar, lavar, cuidar das crias. Pra mim, mandar uma mulher usar calcinha sexy para esconder gastos excessivos no cartão, ou insinuar que é a mulher quem deve escolher o detergente é tudo a mesma coisa! E mensagens dirigidas à mulher que não sou (graças a Deus e a mim!), como a da Hope, não me interessam nem ofendem.
Não é da minha conta se você escolheu ser mulher-objeto, se prefere brincar de burra e “levar vantagem em tudo”, como o velho Gerson, desde que, no final, isso lhe renda um carro, um apartamento, uma joia, um emprego melhor. Quem tem que se preocupar com tanta desistência de si mesma é você, não eu. O que eu posso fazer é lhe dizer que há outras opções de ser mulher, mais duradouras e confiáveis, embora mais difíceis. Opções que vão depender só de você, de mais ninguém, e cujas rédeas são e serão sempre suas. Opções que incluem respeito e inteligência.
O que é da minha conta, e deveria ser da sua, é dar a mão na travessia, é ajudar com um diálogo franco, é criar filhas (e filhos) que entendam a importância, a plenitude e a completude do ser mulher e do ser homem; é promover mudanças de base, e não de conveniência e impacto político. O que é da minha conta é ajudar a transformar mentalidades, é dar opções de pensamento para que cada amiga, cada conhecida ou desconhecida possa perceber a diferença entre crescimento e gaiola dourada.
É da minha conta pedir a essas mulheres que se perguntem: "O que eu quero pra mim?” Desejo, sonho, vontade, tesão, decisão. É sobre isso que posso me fazer presente para outras mulheres. Sobre o que lhes pertence por direito. 
Tenho certeza de que as boas mulheres (que podem, ou não, ser mulheres boas) sequer prestariam a atenção ao comercial da Hope, não fosse o Governo fazer estardalhaço. As boas não enganam maridos, parceiros, filhos. Não são público-alvo para a artimanha da Hope. Porque cá entre nós: aquele é um comercial dirigido a mulheres bobas! Senão, vejamos: você consegue imaginar a Gisele Bündchen pedindo dinheiro ao marido ou precisando se desculpar porque estourou o limite do cartão? Dããã! La Bündchen não é nem pobre, nem submissa.
Mulheres submissas ou submetidas são capachos (embora não se vejam assim), espectros das mulheres que poderiam ser, iludidas por si mesmas de que abaixar a cabeça para poderem viver da exploração de um homem, ou de qualquer pessoa, é melhor que levantar-se e ir à luta (e que não se confunda, aqui, a dona de casa que trabalha de sol a sol com a exploradeira que suga em troca de sexo). Mulheres que se curvam, por interesse, ao ciúme, à possessão, à ignorância de um homem. Que se curvam ao cartão de crédito que não lhes pertence.
Mas não é a Hope que “incentiva” essa realidade de submissão e dependência. É essa realidade que incentiva a Hope! E é sobre essa realidade que o governo deveria se debruçar, e se debruçar, e se debruçar, até cair de cabeça no chão duro da perversidade social que cerca o imaginário feminino brasileiro.
Impedir a veiculação de propaganda não muda nada. O que precisa mudar é a convicção de muitas mulheres.
Mulheres convictas de que são menores, de que devem ganhar menos, de que só são femininas se forem magras, malhadas e brancas, de que devem se fazer de burras na presença de homens, de que precisam chorar, fazer sexo, agradar e mentir para garantir a proteção e a atenção masculina. Mulheres convictas de que serão sempre menos sem a ajuda financeira de um homem. Convictas de que é condição do gênero serem analfabetas, brutalizadas, estupradas física e moralmente, cativas. E convictas de que sua saúde, seu destino, sua segurança, sua felicidade é tarefa que cabe unicamente ao Criador.
São essas mulheres, convictas de coisas tão erradas, que deveriam ter suas realidades trabalhadas pelo Governo, pela família, pelos amigos, pela sociedade. Sem piedade, sem assistencialismo, mas com muita seriedade.
Aí, o comercial da Hope seria diferente. Ou nem seria. Porque não é de calcinhas sexies e de ardis que sobrevive a boa realidade. Nem as boas mulheres.

3 comentários:

  1. Texto M A R A V I L H O S O...

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  2. É mais fácil o marido dela usar uma belíssima cueca para se desculpar de algum tropeço... Desses inerentes à condição masculina...

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  3. Estou de queixo caído diante desta obra-prima inspiradíssima. Mil vezes parabéns!

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