terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Uma moça feliz


Foto: Google Imagens


Convenceram-na de que o Amor seria um e para toda a vida. E a costurar esse convencimento, os laços de seda das almofadas que teriam o seu nome e o dele, em anagramas, e as colchas de babados em que ele a deitaria delicadamente, e onde lhe faria carícias em curtos ais. Havia ainda, a completar essa imagem perfumada, filhos saudáveis, uma casa com escadas, miosótis em vasinhos e longos lírios brancos plantados num jardim ensolarado de verão. Uma vida em rendas de guipûre, lavandas e rezas.
E ela se tornou, assim, uma moça feliz.
Convenceram-na de que ela deveria aguardar pelo homem certo, que chegaria de surpresa numa tarde de chuva, tomando-a em seus braços fortes para impedir que ela escorregasse na calçada molhada. Eles se olhariam com devoção incontida e, sem palavras, compreenderiam que era duas almas entrelaçadas pelo destino. E encostariam, juntos, suas cabeças na vidraça enfumaçada pelo vapor da primavera.
E ela se manteve, assim, uma moça feliz.
Convenceram-na, mais uma vez, depois que os anos já haviam lhe trazido pequenos sulcos ao redor dos olhos, de que os ventos de outono ainda poderiam esconder encantamentos, e que ela escutaria, nas folhas amareladas e secas, os passos calmos e seguros daquele que viria para beijá-la na testa e oferecer-lhe o ombro largo e acolhedor. Falariam de livros e ela tocaria para ele Bach ou Chopin, para que ele não pensasse que era apenas uma tola a dedilhar o Pour Elise.
E ela prosseguiu, assim, uma moça feliz.
Convenceram-na, por fim, tão logo os fios brancos se alastraram atrevidos pela cabeleira longa, que era hora de fazer-se fria como os dias do inverno rigoroso, e amanhecer para cercar-se dos filhos de outras, das histórias de outras, das almofadas de outras. Com anagramas que não seriam seus. E ela faria fornadas de biscoitos enfeitados, e poderia trocar o chá por um cálice de licor de frutas, e viajar sozinha em excursões familiares, e contar às meninas sobre um futuro em rendas de guipûre, lavandas e rezas.
E ela não quis mais ser uma moça feliz.
Convenceram-na, no entanto, de que era ingrata. E que deveria conformar-se com a vida. E que deveria sentir-se agradecida ao Bom Deus por existir. E que deveria manter-se digna e honesta até o fim. Até o fim.
Então, ela pegou sua dor, seus cabelos longos, bastos e entremeados de branco, suas memórias de jardins de lírios, de vidraças com vapor de chuva, de carícias em curtos ais e de crianças que não eram suas, e lançou-se porta afora, mãos na cabeça, como a espremer da memória uma vida que também não era sua. Entrou num bar, fartou-se de álcool, flertou com homens e mulheres, viciou-se em procurar amor em lençóis baratos, em corpos suados, em bocas sem beijos. Até um dia. Um dia em que seus olhos encontraram seus olhos no espelho. E neles havia anagramas, músicas, lavandas e tantas outras coisas que eram suas, só suas.
Convenceu-se, enfim, de que o Amor era realmente um só. Para toda a vida. E deitou a si mesma sobre a colcha de bordados. E se fez carícias. E se quis inteira, rendas, rezas, orgasmos.
Era, finalmente, uma mulher feliz.

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