quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A lagarta — uma fábula moderninha

Foto: Google Imagens

Era uma vez uma lagarta.  Ela era feia de doer, a coitadinha. Feia, desajeitada, gorda e espremida numa casa escura, chamada casulo. Mas o casulo era tão pequeno, tão pequeno que não cabia um espelho lá dentro. Por isso, a lagarta não sabia que era feia de doer. Aliás, a lagarta nem sabia o que o que ela era. Só sabia que aquele tal de casulo era muito, muito apertado.
E ela ficava lá, pensando, pensando e querendo saber até quando ia ficar comprimida, respirando mal. Então, um dia, escutou um barulho e a claridade do dia entrou no casulo. Ela fechou os olhos por uns instantes, ofuscada, mas sentiu o calor gostoso que vinha do sol e se animou a abri-los novamente. Olhou para um lado e viu uma asa colorida, fina e leve. Bonita!, pensou. Olhou para o outro lado e viu que havia outra asa igual. Esta também é muito bonita!, aprovou.
Esticou as duas asas para apreciá-las melhor e descobriu que podia voar, e visitar jardins, e conhecer as redondezas.
Naquele dia, um pouco antes de tirar uma soneca, alguém que passava perto da sua árvore-casa a chamou de borboleta, e ela gostou do nome. Sentiu-se feliz porque era linda e admirada.
Fechou os olhos e dormiu um sono reparador, porque queria ser uma borboleta maravilhosa. E teve certeza de que nada era melhor do que aquela vida.

...
Era uma vez uma lagarta. A lagarta era tão feia de doer quanto a outra, a coitadinha. Era feia, desajeitada, gorda e morava espremida naquela casa escura que nós já sabemos que se chama casulo.
E também achava o casulo pequeno demais, e também não sabia que era feia de doer, porque não tinha espelho, e nem que era lagarta.
Insatisfeita como a lagarta do primeiro parágrafo, ela odiava o casulo sem espaço. Até que um dia — um outro, diferente do dia da lagarta lá de cima — ela escutou o barulho do casulo se partindo, foi ofuscada pela claridade, fechou os olhos por uns momentos e sentiu o calor que vinha do sol.
Apertou os olhos ainda mais e começou a tremer, porque pensou que era o bafo de algum bicho pronto para engoli-la (ô verbinho de conjugação esquisita!). Então, como nada acontecesse, abriu um olho de cada vez e ficou encarando o sol, até ter certeza de que aquela bola amarela não ia sair do lugar e atacá-la. Olhou para a direita, para a esquerda, viu as duas asas coloridas, finas e leves, e pensou: Que droga, como eu sou frágil e espalhafatosa!
E de tanto se sacudir para tentar se livrar das duas asas, acabou voando. E visitou os mesmos jardins e as mesmas redondezas que a outra lagarta. E teve medo de despencar e ser tragada pela grama alta, ou de cair na água e morrer, ou de se perder durante o voo e não saber voltar para casa. Mundo horrível!, pensou.
Na hora do cochilo, outro alguém que passava por ali a chamou de borboleta, e ela ficou chocada com aquele nome esquisito! Sentiu-se infeliz porque era fraca demais, leve demais, colorida demais. E por ter um nome tão esquisito.
Voltou, então, para o casulo, se espremeu pelo buraco aberto dias atrás e conseguiu entrar. Sem as asas, que perdeu no esforço, era, mais uma vez, lagarta. E como lá não havia espelho, ela não podia enxergar o quanto tinha ficado feia de doer, novamente. Aliás, mais feia ainda.
Escondida do sol, dos jardins, das pessoas e incapaz de voar, ela queria se sentir, novamente, calma e protegida. Queria silêncio, recolhimento e escuridão.
Fechou os olhos, fingiu que nunca tinha saído do casulo, e dormiu para sempre.
Para sempre lagarta. Para sempre feia.

Moral da história:
E daí? Nem só de Polyannas é feito o mundo...

6 comentários:

  1. kkkkkkkkkkkk... Meu Deus, eu me descobri. Sou a segunda lagarta com certeza! Ai, que tristeza! Ainda bem que o mundo não é só de Polyannas, mas de Denises também.
    Beijos

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  2. Ainda bem que a vida sempre nos dá escolhas. Amei o texto, pra variar. Beijos.

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  3. ...somos o que queremos...

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  4. Bichinhos complicados! (e texto ótimo)

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  5. É a vida e suas várias espécimens... Que nos espelhemos na primeira lagarta!
    Parabéns mais uma vez, Cinthia.

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