terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O sumiço dos "u" e dos "r" na internet, e os "e" que a PresidentA comeu


Imagem: Google

Logo que a novidade Messenger, ou MSN, surgiu, fui presa de um grande medo. Como competir com aquela infinidade de “naum” e “vc” que tomou conta das telas dos computadores durante uma conversa? Eu me senti, pela primeira vez... velha! 
E como toda vez que me sinto velha eu corro atrás do prejuízo, fui fazer pesquisa de campo pra entender o que diziam as tais siglas marcianas. Decifrado o “naum” como sendo “não”, e o “vc” como sendo “você”, desandei a trocar mensagens com um monte de gente. Um monte de gente da minha idade. Até o dia em que, conversando com umas amigas da filha, esbarrei na seguinte frase: “tc ctg depois”. Corri para o Google e descobri, minutos à frente, que minha interlocutora havia dito, apenas: “Teclo contigo depois”.
Não tenho muita certeza, mas acho que foi por essa época que embirrei com o MSN. Como manter uma conversa normal num lugar cheio de códigos, abreviaturas e sinais de pontuação que se transformavam em carinhas alegres ou tristes?  Voltei ao velho e bom Orkut, onde a interatividade era bem menor e mais lenta, mas o risco de me deparar com aquela profusão de corruptelas também era mínimo. E fui feliz assim, por algum tempo.
Então, me apresentaram ao Facebook. No começo, resisti bravamente aos encantos e à rapidez da mídia, mas após uns meses recebendo convites por todos os lados, enfim, cedi. Achei animadinho aquilo de todo o mundo aparecer na minha página, cada qual com a sua conversa peculiar. Como profissional da comunicação que sou tive, ao menos, curiosidade em avaliar como seria possível às pessoas sobreviverem num lugar tão exposto sem baterem de frente umas com as outras. Percebi, um pouco tarde em alguns casos, que não conseguem. Até ficar sabendo que podia criar listas de interesses, perdi alguns amigos (que me bloquearam ou sumiram) porque recebiam meu material integralmente, o que me leva a crer que mandei coisas erradas para as pessoas erradas.
Mas nada daquele código de jovens insuportável do MSN. Nada... Até o primeiro LOL, o primeiro TY. Gastei um tempinho pra descobrir que os americanos, quando querem dizer que estão rindo de algo que você falou no FB (sim, isso é Facebook para os usuários habituais) escrevem LOL, sigla para laugh out loud (algo assim como rio alto, ou dou risadas).  O TY, ou thank you, foi mais fácil. E gastei um tempo maior tentando entender por que os brasileiros não podiam dizer simplesmente: “Morri de rir”, ou mesmo um informal “Hilário”.
Foi quando começaram a surgir os rsrsrs, os kkkkkkk, os hahahaha e os huashuashua. Todos significando riso ou gargalhada. E lá estavam elas, de novo, as abreviaturas implacáveis, diminutivos abusados me mostrando que neste mundo partido não há mesmo mais lugar para inteiros. Ah, e surgiu, também, o jajajajaja, que deixo aqui, em itálico, porque é riso estrangeiro que aprendi com os amigos latinos. Rendi-me a todos eles. Não em concessão, mas por praticidade mesmo.
Até que percebi o sumiço dos us. E dos erres. Não um sumiço ocasional, ou um digitar mais rápido que faz com que se escrevam as palavras com erros. Alguma coisa intencional, maquiavélica até, eu diria. Passei a receber mensagens (ou posts) do tipo:
“Ela compro um vestido lindo. Pago barato, viu? Dise que vai usa hoje a noite, pra gente ve e fica com inveja”.
E não são mais os jovens a digitar assim. Não é apenas o uso de siglas ou códigos, meros cortes providenciais para quem quer escrever rápido ou sonorizar melhor as palavras. Onde estão, por favor, os “naum”, os “vc”, os LOL?! Voltem aqui e me permitam aceitá-los como uma nova linguagem da rede, uma modernidade tecnológica sob a forma de fração! Eu aguento!
O que não aguento são estudantes, jovens professores, formandos em Letras, profissionais da comunicação, gente de todas as formações e credos que passaram a “comer” as letras e as crases, a modificar os verbos, a compartilhar e curtir o fim da língua-pátria!
Mas, pior que o erro é a intenção do erro. E alguns me dizem: “Ah, isso é linguagem de internet! Besteira!”.
A memória, então, me cutuca como um diabrete atrevido, e me remete às determinações oficiais da PresidentA do Brasil. Aquela que, não satisfeita em cometer o maior atentado contra as raízes da língua — em nome, talvez, de um oportunismo-feminista-politiqueiro que criou, também, o Chefa, o Gerenta e outras atrocidades —, torna “oficiais” tais determinações, como se as línguas pudessem ser modificadas e desregulamentadas como outras coisas o são, no País, ao bel-prazer das canetas.
E aí, por uma questão de justiça, eu me pergunto: se a PresidentA pode, por que não os pobres internautas?
Besteira!

7 comentários:

  1. Muito bom e oportuno o seu texto. Desde quando comecei a usar o Facebook, notei que muitas das pessoas que se utilizam dos códigos a que você faz alusão, sabem escrever; outras tantas são semianalfabetas mesmo. Venho observando que há pessoas de nível superior que não sabem escrever. Isso não significa que sejam pessoas incultas, talvez, ignorantes específicas, ou seja, ignoram a Língua Portuguesa. Eu conheço juízes, promotores, advogados, professores, entre outros profissionais, que não sabem escrever. Muitas dessas pessoas têm pós-graduação, mestrado e até doutorado. Pessoas que, por um motivo ou por outro, deixaram de estudar, se acomodaram. Explica, mas não justifica. Este texto vai servir para dar um recado para muitos usuários do FACE, em forma de pergunta: Você gosta de escrever? Por que não aprende? rssss
    Parabéns pelo seu texto.

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  2. Cinthia, acredito que as raízes da língua continuano reacendo e encontrando espaço no cotidiano das gentes. É um organismo tao vivo, desde suas origend - quando era latim mal falado e rompia com as raízes da outra língua gramatical. E por ai vai nossa aventura de falar :)) sobre a presidentA, bem, acho que toda acao humana é uma afirmação política. Ja vi Lina Bo Bardi dizer que queria ser chamda de arquiteto, sem o A. Mas ainda que ninguem o fez. Foi preciso criar palavras pás novas funções e novas ocuCinthia, querida, as raízes da língua continuam se multiplicando no cotidiano das gentes. É um organismo tao vivo, desde suas raízes antigas - quando era latim mal falado e rompia com as raízes da outra língua. E por ai vai nossa aventura de falar :)) sobre a presidentA, bem, acho que toda acao humana é uma afirmação política. Ja vi Lina Bo Bardi dizer que queria ser chamda de arquiteto, sem o A. Mas ainda bem que ninguem o fez. Foi preciso criar palavras pás novas funções e novas ocupantes dessas funções. Beijos e obrigado pela crônica, por se preocupar! ;))pantes dessas funções. Beijos e obrigado pela crônica, por se preocupar! ;))

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  3. má Cinthia, ócê mi disculpa que pricisa não essa letra "r" pá fálá como ócê fála

    quem diz buscar,ou rir ou falar?
    buscá, ri, falá...

    ou pá quê escrevé estou si ócê diz o mémo quando nem tem OU : eu entendo diz eu entendô

    tá vendo eu a brincar? não liga, mas não é assim, Cinthia?

    ora oiça: minino vá buscá sua ...
    para quê o erre?!rss

    si não qué práquê esperá?
    esperar? não é assim que dizem...

    Ora o meu medo é que um dia ( e esses acordos ortográficos são pestilentos por isso mesmo, porque se atêm à pronuncia e não à estrutura da língua e essa é igual aqui e aí, e em Moçambique, Timor ou Angola) esses acordos esquecem a escrita em favor do modo como ela é pronunciada...no dia a dia...o que é ridículo

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  4. e o seu exemplo da presidenta e chefa (por cá se sofreu dessa maleita, mas foi aqpenas moda) é outra coisa...perigosa, mas de outra origem e ainda assim menos perigosa para a nossa querida língua
    eu continuarei a escrever tacto e pacto e facto e óptimo e por aí adiante e no que respeita aos usos de rss e kkkk e tb e fds e outras abreviaturas, eu não tenho pejo nem nada contra em que as usemos: o mal Cinthia e você sabe disso como eu e mais, é que quem os usa é pobre no uso da língua escrita e acba confundindo e escrevendo como se fosse esse o modo certo
    a escola e os livros e os pais e os avós
    e so jornalistas...:)
    abraço que você e os que eu conheço por aqui nos contos e jornais escrevem um português muito correcto (tá vendo o c ali especado?! )

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  5. Muito bom seu blog,estou te seguindo!
    Se quiser e gostar visite o meu e me siga,estou iniciando um blog de culinária.Abraço!

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  6. Cinthia, também não aguento essa "fome" de letras que mutila nossa tão bela língua. Prefiro a outra fome, a do conhecimento. Até entendo que quem não seja paulista ou sulista deixe de pronunciar o "r" do final dos verbos; eu mesmo cometo esse deslize, mas, na hora de escrever, pelo amor de Deus, um pouco de esforço se faz necessário!

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  7. Grande Cinthia! Também implico com essas coisas, e detesto a ridícula "presidentA". Quando ela vai ao dentista chama ele de "dentisto", para não ofender a masculinidade do rapaz? Bjs... ops: beijos!

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