domingo, 13 de maio de 2012

Para falar a verdade

Isso de falar de mãe é complicado. Não sei falar da minha sem colocar no meio — além da infância muito feliz e da gratidão eterna por ter me tornado uma pessoa razoavelmente culta e sensata — também as brigas e as incompreensões que insistiram em permear os últimos anos da vida dela perto de mim. Sou filha única e isso já não é fácil. Se o carinho e as atenções e os presentes foram todos meus, fui igualmente a única a receber as broncas, as mágoas, o excesso de proteção e, mais tarde, as lamentações, a raiva e os ressentimentos.
Minha mãe e meu pai eram pobres. Não muito, mas pobres. Meu pai comprou um carro quando já morávamos em Brasília e eu tinha 11 anos. Mas, mesmo assim, tive um piano e estudei clássico por sete anos (tanto o piano quanto as aulas foram presentes da minha madrinha, irmã da mamãe, que morou conosco muitos anos). Estudei inglês e francês, fiz declamação, teatro e meu professor de piano era um maestro uruguaio até famoso. Frequentei uma alternância de escolas públicas e privadas desde o jardim de infância até me graduar pela Universidade de Brasília, em Comunicação Social, para onde passei no primeiro vestibular. Como aprendi a ler muito cedo, com quatro anos e meio (bem, naquela época era cedo), fiz os chamados “dois anos em um“ na escola pública, para compensar o fato de só ter podido entrar com sete anos. E apesar do Admissão (um ano extra que existia, no meu tempo, entre o 4º ano do então Primário e o 1º ano do chamado Ginásio), entrei na universidade faltando um mês para os 18 anos e me formei com 21, já empregada na minha área profissional.
A escolha do meu curso foi uma das primeiras causas de ressentimento entre mamãe e eu, revelado apenas anos mais tarde, em meio a discussões ferozes. “Comunicação Social, que curso é esse? Uma coisa nova, que ninguém sabe o que é. Coisa de gente sem juízo. Podia ter estudado Direito, mas não!”. E nem os bons empregos que eu sucessivamente fui assumindo na vida serviram para mudar essa opinião.
Aliás, eu sempre errei em tudo. A roupa nunca estava elegante o suficiente, porque havia um detalhe faltando; o cabelo podia ser mais cuidado. As unhas, apesar de estarem sempre feitas, eram curtas e fracas porque eu tinha roído quando era pequena. Os namoros não engrenavam porque eu era “boba, idiota, apaixonada”. Meu corpo não servia e eu, aos 60 quilos, ouvi que estava “um gigante, uma deformação”. As frases sucederam-se por muitos anos e a mais comum, depois de um tempo, era: ”Qual! A gente põe no mundo perfeita, pra depois virar isso!”.
Casei e me separei  em quatro anos. E me tornei alvo de vigilância e de frases pesadas. “Você se divorciou para virar uma vagabunda?”. Escutava isso quando chegava em casa às 4 da manhã, vinda de uma boate ou de uma roda de violão com amigos. Homem, pra fazer sexo, só tive em horário regular e às escondidas, como se fosse crime. Mas nem assim. Como eu não era (claro!) mais virgem, e não “sossegava em casa”, sobrava o "vagabunda".
Meu pai nunca dizia nada. Alienado num mundo só seu de frustrações pessoais e profissionais, recolheu-se cedo às dores de uma artrite poderosa e não interferia na minha educação. Durante anos, até ele morrer, pensei em meu pai como um fraco, sem voz, sem amor por mim. Mamãe incentivava isso. "Seu pai não quer reagir"; "Seu pai é mole"; "Quando você nasceu, seu pai queria um menino". Só depois que fiquei sozinha com mamãe é que pude amar meu pai como ele merecia. E entender que ela tinha ciúme de qualquer possibilidade de nós dois nos darmos muito bem. E de a deixarmos de fora de nossas vidas.
Rico na adolescência, papai viu meu avô, Walter Hans Kriemler, perder tudo (era dono de armazéns no cais do porto do Rio de Janeiro). A mãe, minha avó Irmá, sofria de depressão profunda, causada pelas infidelidades frequentes do marido. Com a falência, foram-se embora quase todos os amigos (!) de meu pai e ele passou o resto da vida confiando em minha mãe, em minha madrinha e em meia dúzia de porteiros, barbeiros, donos de banca de jornal, gente sem nenhum dinheiro ou posses, que lhe dava amizade sem cobranças e o direito de ser feliz sem medo de novos rompimentos. Foi com meu pai, carioca e "raça de alemão", como mamãe repetia, que aprendi a tomar chope e cerveja, minhas bebidas prediletas (sempre com dois dedos de colarinho, ele insistia), fato que atormentou mamãe até o fim dos seus dias. “Cerveja engorda, incha e não é bebida de moça”, parece que eu ainda a escuto dizendo.
Aos 32 anos, quando a minha filha nasceu fora de uma relação estável (acho esta expressão o máximo!), eu já tinha voltado a morar com meus pais, divorciada havia três anos. Divorciada e mãe solteira, pela ordem (adoro dizer isso). E tudo pareceu convergir para a paz com a chegada da minha princesa. Preocupada em ser avó, mamãe se esqueceu de mim. Um alívio, confesso. Até que minha filha fez dez anos e num dia de malcriação gritou: “Você é louca, completamente louca, bem que a minha avó falou! Você é tão louca que teve que ir para a psicóloga!”. Levei um tempão explicando a ela que eu tinha feito terapia pós-divórcio, que fazer terapia, além de normal, era (e como é!) bom para exorcizar os diabinhos que moram no sótão. Só acreditou quando eu citei umas duas ou três amigas que também faziam terapia e a quem ela adorava. Jogou minha filha contra mim muitas outras vezes. Coitada! Queria, mais uma vez, não ter que dividir com mais ninguém o objeto do seu amor. Quando lhe propus terapia em família, ela me disse: "Eu? Eu não preciso de terapia!"...
No dia da morte de mamãe, quando eu a coloquei no carro e seguimos para o hospital onde morreu três horas depois, eu pus minha mão sobre a dela. Ela afastou a minha, agarrou-se ao terço que trazia consigo e disse: “Dirige, dirige senão você bate”. No hospital, lúcida que ficou até morrer, pediu que eu chamasse minha prima, sua afilhada, para ficar com ela. Em seu caderno de anotações, deixou escrito para mim: “Ando passando muito mal estes dias. Se eu morrer, peça a um dos seus primos que tome as providências todas, porque você não vai dá conta dessas coisas”. Dei conta, ah, como dei!
Mas apesar de tudo parecer tão negro, tivemos, mamãe e eu, bons momentos. Percebo, hoje, que não foram exatamente por mérito dela. É que eu sempre fiz o tipo otimista, o que me fez demorar para notar que mamãe havia projetado em mim e para mim todo um futuro que ela mesma não tinha podido realizar para si mesma. Meu avô, pai dela, assim como o pai de meu pai, também teve posses. Dentista no interior de Minas Gerais, perdeu tudo o que tinha lentamente, no jogo. Um tempo depois, morreram ele e a minha avó, com um intervalo de quatro meses de um para o outro, deixando a família a Deus dará.
Mamãe sonhou para mim um futuro sem sobressaltos. Como toda mãe, eu creio. Eu seria advogada, pianista, embaixadora. Seria poderosa, rica, bem casada. Viveria no exterior, falando as línguas que aprendi graças a ela. Acho que, em seus sonhos secretos, eu a levaria comigo. E eu não fui nada disso.
Mas houve mesmo bons momentos. Como quando nos deitávamos juntas para conversar e eu lhe contava sobre namorados, amigas, trabalhos de faculdade, dúvidas e lhe pedia conselhos. Ou quando eu deixava que ela esfoliasse a minha pele com limão e açúcar, me preparando para sair à noite. Às vezes, era o contrário: eu arrumava a sua sobrancelha, ou lhe espremia os cravos, ou preparava para ela um uísque quase cowboy, enquanto ela fazia o almoço de domingo (xingando porque era folga da empregada e ela detestava cozinhar, mas papai não gostava de sair de casa por causa dos dedos deformados pelo reumatismo).
Houve os dias de gripe em que ganhei, na cama, sopas, canjas, comidinhas. E os dias de profunda paciência para com uma depressão horrível que me tomou corpo e alma após a convivência de quatro anos com o marido violento. Os dias de pós-parto em que ela andava com minha filha no colo, cantando para acalmá-la e para me deixar dormir, ou aqueles nos quais ia dormir bem tarde, depois de lavar na mão as fraldas sujas de cocô da minha pequena, alérgica às descartáveis. Os dias de longas conversas em que ela incutiu em mim valores morais que carrego comigo para sempre, como o respeito aos outros, a noção de limites, a caridade para com o próximo, gente ou bicho, e o não julgar as pessoas por suas escolhas ou aparências, mas apenas aceitar que o mundo é um lugar de diferenças.
Houve um tanto mais. Dias de escolher tecidos e ir à costureira, de comprar sapatos, de ir ao cabeleireiro, de viajar. Tivemos, juntas, dias de ir à missa, de confessar pecados, de comungar, de festas juninas da igreja, de almoços na paróquia ou em churrascarias. Mas também foi com ela que me sentei, pela primeira vez, em frente a muitos talheres, e aprendi para o que servia cada um deles, bem como os copos de cristal enfileirados que eu tanto temia aos 13 anos. Aprendi que roupa de veludo liso só se usava depois das cinco da tarde e que dedo mínimo levantado ao segurar o copo tinha sido moda, mas não era mais. E aprendi a dobrar a alface em pacotinho, a segurar os talheres sem fazer força, a limpar os lábios sujos de alimento antes de beber, a conversar com os olhos durante jantares e coquetéis. Brinquei com as suas perucas sempre bem penteadas, com as suas duas estolas de pele (consciência ecológica é uma coisa mais recente em minha vida, infelizmente!), presentes da irmã mais velha, cujo marido (meu padrinho amado!) tinha feito dinheiro sendo banca no cassino da Urca. Aprendi com ela a ser responsável e a gostar muuuito de trabalhar fora. E a argumentar até ser convencida, ou convencer. 
Engraçado... Por meio dela, católica praticante, conheci e convivi sem sobressaltos com ateus, espíritas, crentes. Por meio dela, obtive meu primeiro emprego bom, na Subsecretaria de Imprensa Estrangeira do Palácio do Planalto (bons tempos). Por meio dela, mulher muito além do seu tempo, pude entender que o meu lugar é e será sempre onde eu queira estar, e não onde queiram me colocar os arrogantes, os que se julgam superiores, os cínicos, os ditadores, os abusadores, os traidores, os dissimulados. Por meio dela, aprendi a andar de cabeça erguida, orgulhosa do que sou, não do que tenho.
Eu fui amada. Muito. E se me perguntarem, hoje ou a qualquer tempo, quem foi a pessoa mais marcante e mais importante em minha vida, responderei sempre: minha mãe. Com seus erros e acertos, com minhas descobertas tardias... Minha mãe! Afinal, sou porque ela me fez ser. E se o lugar que ela sonhou para si mesma e tentou projetar em mim não deu certo, pelo menos posso dizer que era um lugar no alto, bonito e feliz. Ela tinha bom gosto!
Não sei se sou feliz. Tem dias que sim, outros em que os complexos e mágoas ainda me atrapalham a caminhada. Mas sou inteira. Sou o que se vê. Sou como ela, uma força em movimento, uma energia que avança. Só paro uma vez aqui, outra ali para checar se não cometo com minha filha os mesmos erros. Acho que não, mas não posso ter certeza. Isso, com o tempo, só ela mesma (me) dirá. Mas, pelo menos, tento cometer acertos. Os mesmos que mamãe cometeu em mim.
Isso de ser mãe é mesmo muito complicado!

4 comentários:

  1. Comentar um texto comovente e tão bem escrito como os seus não é fácil, ainda mais sob o impacto de uma emoção que está me visitando muito últimamente: a que leva às lágrimas. Minha mãe foi bem diferente da sua. Teve dez filhos e a eles e a meu pai se dedicou a vida toda, até o último 19 de fevereiro. Portanto, este último dia das mães foi o meu primeiro sem ela, a meiga mulher,de enorme carisma,querida por todos que a conheceram.Como disse à Alexandra, na véspera do dia das mães fui dormir chorando com uma camisola que fora de minha mãe, para acordar com um pouquinho dela. Mas hoje, meu dia começou muito bem lendo um pouco de sua história, apesar das frases fortes ouvidas por você...
    Alexandra me disse que, perante você, se sente uma formiguinha aprendendo a ler em letras de ouro.Achei LINDA a frase, mas eu então serei um ácaro, e que formiguinha gigante é a nossa amiga, hein? Até o dia 26...

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  2. Olivia Maia19/5/12 20:16

    Amiga Cinthia, arrepiei de emoção. Muito linda.
    É Angela, imagina Alexandra dizendo-se formiquinha... As duas (Cinthia e Alexandra)... não sei nem dizer que animal as representariam... Mas, que são as autores que almejo um dia "chegar" junto na qualidade do talento, ah! isso desejo. Usando expressão da Cinthia são "força em movimento, uma energia que avança.." e nos leva junto na emoção de suas escritas.

    Beijo amiga

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  3. Teu blog é lindo, parabéns!

    Vem conhecer o meu:
    leiakarine.blogspot.com

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