sábado, 9 de junho de 2012

A Constituição de Tal

     Domingo, oito da noite. Rua pequena, cidade grande. O tropel de cinco ou seis pares de botas não tem testemunhas senão a própria vítima. Socos, pontapés, massacre. Um grito de medo, muitos de impotência. Mais tarde, no leito de um hospital público, não é a dor que enlouquece o paciente, mas as palavras que estacionaram em seus ouvidos, como mantras do mal: “Viado! Viado aidético!”. João, José, Manuel, Raimundo de Tal tem a cabeça rachada em três lugares, ou para falar no jargão médico, sofreu traumatismo craniano. Sofre, ainda, da incredulidade de que tudo tenha mesmo acontecido.
     Esse cenário de violência homofóbica repete-se dia sim, outro também, nas cidades, nos jornais e na história dos que apanham por terem opção. A opção de serem o que são. Como a bailarina cujos dedos do pé são feios e tortos. Como o mecânico cujas unhas estão sempre negras de graxa. Como a freira cuja fé repele os homens da Terra para entregar-se à Trindade dos céus. Opções. Vontades libertadas por prazer, hábito ou fé. Escolhas.
Enquanto isso, no hospital público, João, José, Manuel, Raimundo de Tal, cidadão, trabalhador, filho de alguém, irmão de alguém apalpa a cicatriz que desce pela face. Vidro cortado; enterrado como sadismo em sua bochecha. Quer entender também a cusparada que levou antes do corte. Porque cuspe é mais que dor, é humilhação. E compreender a dor de desespero que arde e coça dentro do peito; mais que a cicatriz.
     O policial de plantão cumpre o seu papel. Anota nome, endereço, detalhes e dá a queixa como prestada. Segue para o próximo caso. Um travesti de programa. Estupro seguido de esfaqueamento. Ninguém responde por ele. Está morto e o policial com a prancheta se aborrece porque preencher sozinho a papelada é tarefa menor. Ele pega bandido. Papel é coisa de babaca. Mas tem muito crime e poucos homens para cobrir a metrópole, cada vez maior.
     João, José, Manuel, Raimundo de Tal consegue um advogado. Um doutor que lhe conta a que leis vai recorrer para colocar atrás das grades os agressores, capturados em razão de novos ataques a homossexuais. Ele presta a atenção às palavras bonitas da Constituição brasileira. E acredita que, perante a lei, é igual a qualquer outro homem, protegido do preconceito, da surra, do cuspe na cara. Não sabe ainda que, no Brasil, a incoerência e o deboche não acontecem pelo texto ilibado da lei, mas pela prática diária da impunidade, pelo abrandamento das penas, pela vilania disfarçada em bons modos.
     No tribunal, os skinheads são julgados e condenados. Seis meses depois. Mas João, José, Manuel, Raimundo de Tal não se impressiona com a morosidade da Justiça, nem com o número de crimes similares de que são acusados os nazistas de cabeças raspadas. O que mais lhe chama a atenção é o juiz que profere a sentença sem ter olhado em sua direção sequer uma vez, durante o julgamento. Ele sente vergonha da homossexualidade de João, José, Manuel, Raimundo de Tal. Mas é um homem de leis. Cumpre o que precisa.
     A dor da cicatriz de dentro continua. Sem previsão de passar. É dor de preconceito.

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