quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Matem-se!


A cada vez que leio uma notícia sobre as mortes de palestinos e israelenses,
eu acabo me contaminando pela intolerância.



Matem-se! Vamos, matem-se todos! Eu quero muito que vocês se matem uns aos outros! Com bombas, metralhadoras, pedras, minas. Que se matem pelo ódio profundo que os engole por dentro. Pelas emoções distorcidas, corrompidas, compradas de outros a preço de nada. Pelo desprezo ao que difere de vocês, pela arrogância de se julgarem únicos.

Continuem a matar — mulheres, homens, velhos, crianças, ideais, sonhos, convicções. Sempre se livrando uns dos outros em nome de Deus, de Alá! Que outros deuses usurparão em nome de uma razão apodrecida?
Nada como uma grande mentira ao nascer do sol! Nada como uma gorda desculpa já no fim da noite, enquanto as pilhas de assassínios cometidos na leva do dia são contadas às dezenas. Nada como a fraude de um deus criado para ser cúmplice das carnificinas políticas, econômicas, culturais, religiosas.
Pois que se matem mesmo, vocês que só conjugam o tomar! 
Até que uma hora restem apenas os que escolherem a vida...
Alguns ateus, os que vivem na decência da justiça e do respeito, porque, como não creem em céu e em outro mundo, desempenham-se com maestria desta única vida que lhes foi entregue. 
Os crentes, mas somente os que souberem que crer é diálogo. 
Os mansos, esses de quem se debocha porque são julgados fracos. 
Os menos brilhantes, esses, chamados de burros. 
E ainda os que cedem, os que retrocedem, os que compõem, os que enxergam o copo meio cheio (porque não conhecem o que é “vazio”). 
Crianças, as não contaminadas pelo ódio alheio. 
Velhos, os que tiverem conseguido transpor com dignidade a longa caminhada. 
Mulheres, as que tiverem alcançado a completude do autorrespeito, mas também aquelas a quem foi impedido tentar.
Matem-se! E deixem, que ao final, apenas esses sábios permaneçam de pé.
Será, finalmente, um mundo decente.

3 comentários:

  1. Pode não, amiga! Se nesta guerra morressem só os intolerantes, eu assinava embaixo. Mas, como em toda guerra, tem muita gente que sequer sabe porque está morrendo.
    É claro que seu texto, como sempre, está excelente, poético. Mas não deixe que a intolerânacia alheia a brutalize também.

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  2. aproveitem e matem tb nossa corja brasileira de canalhas.
    ainda que inocentes morram na carnificina, seria ótimo para a espécie humana um grande expurgo.

    pena que este fim de mundo não se mostra real.

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  3. É, Cinthia, só fazendo "tabula rasa" esse mundo tomaria jeito, mas apiedo-me dos inocentes...

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