quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Campo de tangos



(este conto faz parte do meu livro "Para enfim me deitar na minha alma", lançado em 2010)

Não sou dada a esforços físicos. Minha natureza roliça de mulher madura é mais acostumada às cadeiras e aos leitos do que a bravatas esportivas em academias. No entanto, a caminhada até o Campo de Tangos é algo que faço alegremente todas as manhãs, deixando o cansaço para mais tarde, quando dedico ao sono uma ou duas horas de parceria silenciosa.

Quando me mudei para cá, Solidagos não foi a opção para um fim de vida clássico de sossego e natureza. Nunca fui dessas pessoas que detestam os grandes centros, os aglomerados urgentes e nervosos. Amo gente; gente me interessa em todos os seus atos, palavras e inconsequências.

Faço o tipo otimista que tropeça e se equilibra, que cai e se levanta, que acredita que a água não vai acabar, que a poluição será revertida, que os recursos serão renovados, que o câncer está perto da cura, que o ser humano ainda vai recuperar a consciência. Até minhas depressões — se é que posso chamar assim os intensos momentos de pranto e angústia que me digerem como a qualquer outro ser humano —são mais tristezas e desencantos que distúrbios.

Em meio a um desses pensares intermináveis sobre as coisas, fiz as malas.

No fim de minha infância, papai comprou uma casa de campo na pequena cidade de Solidagos. Nunca entendi o porquê da escolha, já que não tínhamos raízes no local, nem amigos. Sempre que perguntado, ele dizia que, um dia, passando de carro pela estrada, tinha sido atraído por uma plaquinha de madeira: “Doces caseiros e mimosos solidagos”. Curioso em saber o que era um solidago, desviou o carro uns oito quilômetros até a cidadezinha reluzente, onde a gente do local o recebeu tão bem que ele não foi capaz de partir sem levar um pedaço de saudade. Carregou para casa, no fim do dia, uns quatro ou cinco maços da flor miúda, de caule longo, além de vários potes de doce. Das fotografias que tirou da cidade, durante uma tarde de exploração e conquista, o que mais nos chamou a atenção foram os refrescantes saltos d’água que cercavam o município, e os caminhos amarelos, desenhados por solidagos brilhantes.
Depois de umas poucas idas e vindas de papai à cidadezinha, minha mãe, meus dois irmãos e eu fomos surpreendidos pela notícia de que tínhamos adquirido um imóvel em Solidagos. Só no primeiro dia do feriado da Semana Santa, no entanto, quando fomos juntos pela primeira vez, é que soubemos que o nosso imóvel era uma casa de campo antiga e imensa, com vários quartos, uma água-furtada — que logo declarei ser minha —, uma cozinha extensa em ‘L’ e uma piscina natural de formato engraçado, cheia de pedras e bem gelada.
Rodeando a casa, na altura das janelas, uma calha de madeira de aproximadamente 30 centímetros fazia circular, durante o dia, uma água cheirosa e tranquila, que seguia até a piscina, entrava por uma engenhoca meio barulhenta, misturava-se com as águas de lá e depois saía pelo mesmo caminho, retornando à calha. Vez ou outra, papai permitia que ligássemos o equipamento à noite, e a delícia de podermos dormir com aquele chuá-chuá sonífero era um arremate perfeito ao dia de passeios.
Não foi nos primeiros anos que conheci o Campo de Tangos. Na adolescência, eu me ocupava mais em ficar imaginando quantos amigos de meus irmãos iriam para a casa de campo nos fins de semana e feriados que em perceber a natureza. Os rapazes eram, de longe, a parte mais interessante dessas reuniões eventuais, fazendo com que minhas únicas preocupações fossem acabar com as monstruosas espinhas adolescentes, acentuar o brilho dos cabelos cor de mel, e imaginar as saladas que comeria durante um mês para estar em forma na hora de usar o biquíni.  
Não sei se algum dos hóspedes de meus irmãos sequer reparou em mim naquele tempo, e é mais provável que não, porque a diferença de idade entre nós eram aqueles perigosos quatro ou cinco anos que fazem com que os rapazes de 20 não olhem as mocinhas de 16. Mas o meu imaginário se incendiava de sonhos por conta própria.
Quando papai comprou cavalos, minha decepção foi maior que a euforia. Meus dois irmãos mais velhos se juntavam às namoradas e sumiam logo na primeira hora do dia. Os amigos entupiam os carros com seus corpos, varas de pesca, geladeirinhas de isopor, violões e toalhas gigantes coloridas. Nem no lombo dos animais, nem nos carros havia espaço para mim. Só retornavam por volta das 14 horas, para o almoço, me deixando a desfiar uma fieira de lamúrias que minha mãe escutava com um sorriso irritante.
Como as mães das minhas amigas não deixavam que elas viajassem conosco, por medo da estrada — e, por que não dizer, por desconfiança do que fariam longe de casa —, eu sempre estava sozinha pelos cantos, procurando diversão adulta para fingir que não era mais uma criancinha. Ou melhor, quase sempre, já que à tarde, depois do horrível silêncio dos cochilos, quebrado somente pelo barulho dos ganchos de uma ou outra rede, ou pelos sons dos animais, todos se juntavam para jogos de truco, buraco, xadrez ou adivinhação. Então, minha participação era exigida. Sem modéstia, sempre fui excelente jogadora de cartas, o que me tornava uma parceira bastante procurada.
Um ano depois, numa visita de verão, percebi que podia mudar sozinha a minha rotina em Solidagos. Foi quando conheci o Campo de Tangos.
Numa daquelas manhãs aborrecidas, contrariada por um comentário de mamãe sobre a minha preguiça, decidi colocar as pernas na estrada e descobrir as redondezas. Saí a esmo, pensando em perguntar ao primeiro passante como chegar até os saltos d’água. Eu caminhava sem ritmo, preocupada em acelerar o passo para alcançar as cascatas, e nem por um momento me dei conta de que não sabia aonde ir. Depois de uma meia hora, meu rosto suado e afogueado, as mãos inchadas e as pernas bambas pediam socorro. Água, eu precisava beber água! Parada sob uma árvore, encarando em desespero a estrada de terra mal-acabada que prosseguia rumo ao infinito, percebi que voltar seria mais sensato que prosseguir. Mas criatura sem razão que até hoje sou, não dei ouvidos a mim mesma. Ao invés disso, num rompante, virei à esquerda, contornando um pouco a árvore acanhada, e me meti por um atalho bem estreito, uma vereda onde meus pés roçavam pequenos matos simpáticos. Avistei, passos adiante, uma casa pequena de sítio. Ao lado, sob um toldo mal-ajambrado, duas mulheres trabalhavam em compotas de doce sobre uma mesa comprida.
— Bom dia. As senhoras poderiam me ajudar? — falei, envergonhada.
Dois pares de olhos mansos encontraram o som da minha voz.
— Bom dia, moça — respondeu a mais nova. — Ajudar em quê?
— Estou perdida — confessei com um sorriso embaraçado.
— Quer ir para onde? — desta vez, foi a senhora quem falou comigo.
— Para os saltos d’água. Meus irmãos estão lá com as namoradas e uma turma de amigos, e eu não sei como chegar a pé — respondi, como sempre, explicando mais que o necessário.
— Nossa, moça! Você está bem longe das cascatinhas. Na verdade, são do outro lado — falou novamente a senhora, apontando para algum lugar na direção oposta da que eu tinha vindo.
Olhei rapidamente para o relógio, mais preocupada com o tempo perdido que com a estrada errada.
— Como faço para chegar lá?
Enquanto ouvia a explicação das duas, me lembro de ter pensado no que meu pai dizia sobre o povo do lugar: hospitaleiro, simpático, sem reservas.
Antes de tomar o caminho certo, criei coragem e pedi um copo de água. E não sei bem se foi a canequinha de alumínio areada, ou se foi o gosto da água de moringa, mas repeti o pedido duas vezes.
Um pouco menos cansada, segui o rumo certo, conseguindo notar diferença no que me rodeava. A vegetação tinha se transmutado em árvores de estatura mediana, próximas umas das outras, e o sol se apresentava somente em réstias, dando descanso ao corpo. O barulho distante de água caindo chegou aos meus ouvidos, me fazendo pensar que os saltos deviam estar logo após as árvores. Animada com a proximidade, comecei a correr, aliviada.
Então, ao invés das águas, uma infinitude de reflexos esbarrou em mim. Abraçado pelas árvores do bosque, um enorme campo de flores amarelas se estendia para todos os lados. E os solidagos se apresentaram aos meus olhos.
Quando, finalmente, me recuperei da atração daquele campo cor de aquarela, percebi que os saltos d'água ficavam do outro lado das flores. Mas nem a imponência das cascatas que me receberam com respingos alegres foi capaz de superar a memória dos solidagos.
À noite, depois que contei a meu pai, ele me perguntou, zombeteiro:
— Então, você hoje esteve com os tangos, hein?
Recebi, interessada, a informação de que os solidagos também são chamados de tangos. E, naquela noite, antes de fechar os olhos na água-furtada, batizei o terreno florido de Campo de Tangos.
Mais velha, me dei conta de que os solidagos são flores secundárias que enfeitam outras, que compõem arranjos. Num dia qualquer, desses em que a gente se presenteia com flores para esquecer alguma mágoa ou para enfeitar a casa para as visitas, pedi ao florista uma dúzia de rosas amarelas com o cabo longo, minhas prediletas.
— Com ou sem arranjo? — perguntou, indiferente, o rapaz atrás do balcão.
Pensei logo nos gipsos, aquelas florzinhas tolas usadas em quase todos os buquês, e protestei.
— Não! Sem gipsos!
Olhando para mim com paciência e certo desprezo, ele prosseguiu:
— Não precisam ser gipsos, senhorita, podemos usar ‘soledáguas’ e um verdinho para dar base — disse, apontando os solidagos altivos num canto da loja.
E ali estavam eles, os meus tangos, tão longe de casa, na cidade grande, me lembrando que existiam e que podiam fazer brilhar a minha vida em outros campos. As rosas ficaram esplêndidas, aquelas e outras tantas que vieram depois, compradas ou recebidas de amigos, filhos e amantes instruídos por mim sobre a combinação harmoniosa.
Na época em que o “senhorita” deu lugar a um “senhora” irreversível, passei a comprar apenas os solidagos e o matinho verde. Embora nunca tão esplêndidos quanto em sua parceria com as rosas, são discretamente bonitos, duram muito e envelhecem com menos rebeldia.


A vida me fez uma flor secundária. Por isso, demorei a me convencer de que podia existir sozinha. Hoje, que me tornei capaz de solidão, escolhi voltar para Solidagos. Aqui, tenho um campo de tangos.

5 comentários:

  1. Belíssimo conto, Cínthia. Adorei.

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  2. Emocionante, Cinthia. Como não posso dar um "pulo" em Solidagos para admirar de perto essa "flor secundária" magnífica que você é, vou passar em uma florista e pedir para ver os Solidagos.

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  3. Adorei! Sensível e poético! Parabéns.

    Nath

    http://anathalialima.blogspot.com.br/

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  4. Sensacional, Cínthia!

    Foi como se tivesse caminhado contigo pela sinuosa estrada, dadas as sensações.

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  5. Ondas são como o beijo:
    Oferecido pela pessoa amada
    Deixa-nos sedentos de amor.
    Mas quando frio, gelado
    Deixa-nos cada vez mais finitos.

    (Agamenon Troyan)

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