domingo, 3 de fevereiro de 2013

Lotado



Duas calças, um vestido preto, um edredom de listras azuis. Confere. Já deixei pagos. Não, obrigada, eu não preciso de ajuda para guardar no porta-malas. O porta-malas está cheio; não cabe mais nada. No banco de trás pode ser. Mas é tão pouco peso que eu aguento sozinha. Eu aguento carregar até coisa mais pesada. Sim, eu volto semana que vem. Vou trazer mais peças. Dois conjuntos de blazer e saia, e um terninho. Não, não é tudo a mesma coisa. Terno tem calça. Conjunto pode ser de qualquer coisa. Tailleur. Chamava assim. Tinha que ser com saia. Terninho chamava slacks. Acho que sumiram com um monte de palavras estrangeiras de uns anos pra cá. Os estrangeiros não somem. Só as palavras. Tem um francês que mora em cima de mim. Não. Acima. Não fede. Tem cheiro de europeu, só isso. Bonito. Se morasse em cima de mim eu ia gostar. Tem cara de bom amante. Faz barulhos de bom amante. Barulhos que não acontecem lá em casa. Mas mora acima. Infelizmente. Ninguém sumiu com ele como sumiu com as palavras estrangeiras. Vai ver é porque ele transa bem. Tailleur e slacks não deviam ser lá essas coisas na cama dos linguistas. Dispensados com desonra. Tem dois edredons também pra próxima semana. O estampado com flores e o cor-de-rosa. Pesados. Mas eu aguento peso. Como estas onze sacolas cheias de comida. Penduradas em duas mãos. As minhas. Não, obrigada, eu não preciso de ajuda pra guardar no porta-malas. O porta-malas está cheio. Mas eu já disse isso. Pra moça da lavanderia. No banco de trás não cabe mais nada. Tem duas calças, um vestido e o edredom de listras. Pode ser no chão do carro. Cinco de um lado, cinco de outro. São só sacolas de comida. E uma vai comigo, no banco da frente. Faz as contas. Onze não divide por dois. Nem nove, nem sete, nem um. Um dia inteiro sem dividir por dois. Um prato, um travesseiro. Uma televisão. Só pra mim. Todas as novelas; a das 6, a das 7, a das 9. Sem dividir o controle remoto. Nem a tela. Telejornal cansa. A cara certinha do William B. cansa. Menos a boca. De quem beija bem. Os certinhos sempre são mais tarados. Como ex-seminarista. Dormi com um, faz anos. Banquete pra muitos talheres. Repressão liberada é fogo. É um tira-atraso toda hora. Menos na hora do telejornal. Telejornal corta tesão. Acidente, fraude, futebol. Morte todo dia. Na tela. Na vida. Um peso danado. Mas eu aguento peso. Eu já falei isso também. Subi com um engradado de cervejas. Geladas. Tomei todas. De dia mesmo. Fiz a mala antes da hora do jantar. As roupas couberam todas. Mala gigante. Desfiz a mala antes da hora do jantar. As roupas ficaram. Eu fiquei. A mala gigante desceu depois do jantar. Pesada. Gelada. Eu aguentei o peso, não disse que aguentava? Agora, só falta sumir com a mala. Como deram sumiço no tailleur e no slacks. Não, obrigada, eu não preciso de ajuda pra tirar nada do porta-malas! Que saco! Sai daí! Não abre o porta-ma...

6 comentários:

  1. Texto ágil, empolgante, Cinthia. Escritora de mão cheia, está genial!

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  2. Olivia Maria Maia4/2/13 01:12

    Minha contista predileta tá me surpreendendo nas crônicas. Delícia... e que venha: contos, crônicas, poemas, romances... seus leitores agradecem.
    beijus

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  3. Olivia Maria Maia4/2/13 01:15

    Oh! ando te seguindo, visse? rsss tenho visto os contos na revista Smizdat. O último foi lindo. Forte. Adorei.

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  4. Gostei da crônica e de sabê-la menos triste, pelo menos o que escreveu é engraçado...
    Beijos.

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  5. Adorei!!! Porta malas cheio... Reserve lugar para a pá e um saco de cal.
    Parabéns, Cinthia, delicioso!

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