sábado, 2 de fevereiro de 2013

Yèyé omo ejá




Foto: Wilton Junior/Agência Estado

Eu também mereço o mar. Que os ventos de Iemanjá não foram feitos só para ser adorno de gente feliz. Salve, rainha dos oceanos, filha de Olokun! Que eu também te dou espelhos, flor do dia, colar de muitas voltas. Eu que sou a filha infeliz. Eu que não sei fazer comida pra lançar nas tuas ondas, mas compro perfume gostoso e te mando deslizando num barquinho. Olha por mim também, mamãe das águas. Eu e meus pedidos latentes, escondidos no medo do escárnio. Eu sem pele bronzeada, sem olhos de contas de cristal. Os meus são amarelos como a folha do outono. Tristes como os de carpideira. Cansados de enxergar. Eu também quero ser peixe. Grande para descer aos abismos; pequeno pra sumir entre as pedras. Peixe é teu filho. Quero te levar o pente que guardei nos meus cabelos feios. E pentear a tua cabeleira longa, feita de fios de alga e de segredos das praias. Hoje, mãe, quero te dar um beijo. Molhado mais de lágrima que de mar. Beijo de filha feia, sem sorriso. Beijo de amor branco, espuma que faz cócegas e logo recua.

2 comentários:

  1. Texto tocante e singelo, belíssima homenagem a Iemanjá! Mas que tristeza danada é essa, Cinthia?

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  2. Também te achei muito triste. Se me permite uma sugestão, você precisa ouvir mais música, que ela levanta o astral de qualquer um, embora você não seja "qualquer uma", muito pelo contrário. Não ia postar nada novo hoje, mas o farei em sua homenagem.
    Um domingo alegre pra você!

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