domingo, 10 de março de 2013

Precisa-se de uma vaca por dia



E lá vamos nós sair para o pastinho. Seis da manhã, friozinho de seis da manhã e a gente vestida de calça comprida, blusinha e casaco, cabelo preso em rabo de cavalo, franjinha de índio e olhos de sono interrompido ― olhos de seis da manhã. No pastinho tem vaca. A vaca que vai dar leite morno tirado na hora. O gosto é diferente do leite da garrafa de vidro. Elas dizem que é. Minhas primas. E eu posso jurar que é. Mas não sei. Nunca tomei. E lá vamos nós, de novo, caminhando para o pastinho. Mas eu nunca chego. Tenho medo de vaca. Elas sabem. As vacas. Uma já correu atrás de mim. Acho que queria muito me mandar embora. Alguma coisa do tipo "menina medrosa não merece o leite morno das minhas tetas". Nem das tetas das parentes. Eu nunca vi uma teta esguichando. As primas contavam como era. Eu repetia no colégio, quando as férias acabavam. Mentira de criança com vergonha de ser covarde. E às seis da manhã, nas férias de todos os anos, as vacas continuavam me pondo para correr. Porque eu tinha medo delas. E elas pensando que meu medo era rejeição. Não era. Aliás, nem sei se as vacas pensam ou se agem por impulso. A que correu atrás de mim devia pensar.  E tinha olhos lindos. Imensos. Com um olho daqueles, com aqueles cílios enormes eu ia fazer um estrago por aí. No agora. Mas isso foi antes. Quando eu era menina. Quando tinha o pastinho às seis da manhã e eu fazia questão de me levantar cheia de sono e me vestir e prender o cabelo e caminhar até o fim do asfalto da rua que ia dar no caminho de terra. A terra era a fronteira do pastinho. Elas prosseguiam. As primas. E eu ficava. Primeiro, indecisa, vendo as caras de muxoxo, ouvindo os comentários sussurrados: "Bobona! Covarde! Menina de cidade!". Depois, com medo. Medo de ser bobona. Daí, o olhar mergulhado no choro me prendia por lá uns 5, 10 minutos, vendo as primas corajosas irem descendo pelo caminho de terra até o curral. Então, meus passos apressados retornavam à cozinha da casa da tia, sem leite tirado na hora. Amanhã eu vou, juro que vou. Nunca fui. É triste ser covarde. Continuo com medo de vaca. E não tomo leite. Impliquei. Leite é meu atestado de covardia. Só sinto é falta do tentar. Daquele levantar às seis da manhã, daquele achar que ia poder, que dava conta. Sinto falta de invejar aqueles olhos grandes com cílios imensos. De chegar até a fronteira do asfalto, pensar, chorar e dar meia-volta. Jurando que ia voltar. E voltava. Sinto falta de enfrentar uma vaca por dia.



7 comentários:

  1. Que lindo...Voltei no tempo, do tempo em que os medos que tinha eram mais fáceis de enfrentar, embora eu não achasse assim. Medo é medo. E tem a dimensão de nossa (falta) de coragem de enfrentar. Saudades daquela menina. Saudades da tua menina que sempre me pareceu tão corajosa e destemida. Beijos

    ResponderExcluir
  2. Seja nas crônicas, seja nos contos, Cinthia sempre consegue! Me encontra, me pega pela mão, me leva de volta, me trás de volta e, principalmente, me faz sonhar. Ela sempre consegue. Como, nesta crônica, conseguiu a proeza de trazer à tona um trauma de criança (em imagem linda das férias no campo, para concluir que, afinal, os medos escuros da infância são preferíveis aos medos desafiantes da vida adulta. Parabéns, corajosa Cinthia. Mais uma vez você consegue me emocionar.

    ResponderExcluir
  3. Lembrei de quando ia pra fazenda e via o gado no pasto.
    Linda crônica.
    Martha

    ResponderExcluir
  4. Escritores são aqueles seres aparentemente comuns,que possuem a misteriosa habilidade de traduzir os sussurros do Vento...

    ResponderExcluir
  5. Boa noite
    Gosto de " viajar " na internet e ver, ler blogs interessantes e o seu é bem isso, textos bem feitos e agradáveis de se ler, estou seguindo você

    Abraços,
    Thiago - Trocyn Bão

    ResponderExcluir
  6. Obrigada, Thiago, pela visita e pelo comentário.

    ResponderExcluir